Prezados tribuneiros, escrevi ha algumas semanas o artigo abaixo, respondendo uma discussão sobre o assunto e não sabia porque foi recusado três vezes pela tribuna. Somente agora consegui descobrir o motivo e corrigi meu cadastro, acredito que agora dará certo e embora o assunto não esteja mais em pauta, gostaria que fosse publicado. Desculpem por qualquer transtorno.
Abraços!
Segue o artigo:
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A colocação é perfeita, Gilberto. Temos duas ou mais situações, até.
O cidadão e o profissional.
Se o cidadão cometeu algum erro, por covardia, por inocência ou mesmo má fé, é uma coisa. Se o profissional consegue ter um trabalho de qualidade e cumprir suas atribuições com exatidão é outra.

Não estou aqui pra julgar, condenar, nem defender. Quero fazer apenas uma análise fria dos fatos de que se tem notícia.

Certa vez vi uma matéria sobre os erros do saudoso goleiro Barbosa, da seleção brasileira, na final da copa do mundo de 1950, no Maracanã, em que se dizia não haver prisão perpétua no Brasil e que o único brasileiro condenado perpetuamente foi ele, por ter ficado eternamente marcado por dois deslizes em um único jogo, em meio a uma vida profissional de extrema retidão. Barbosa, dali pra frente teve prejuízos enormes no andamento da carreira e morreu sem jamais ter sido perdoado pela crônica e pelos torcedores.

Simonal também foi condenado à perpetuidade. Caiu no ostracismo de um país em que a memória já não é das melhores e que não conhece ou respeita a sua história. Artistas saem da mídia com muita facilidade pelos modismos e imposições de mercado e muitos morrem de fome, imagine no caso dele em que se juntam imposição da mídia x modismos x história x intolerância dos homens. Uma pátria onde se pode cometer milhões de acertos e um erro. Sempre se há de ficar marcado eternamente por aquele erro.

Costumo dizer que não se ouve Simonal pra prestigiar o dedurador, se é que ele o foi efetivamente, não cabe julgar isso aqui. Da mesma forma que se sabe da postura de outros artistas com relação a opção sexual, vícios, drogas, fumo, bebida e eles não deixam de ter público, pois não se compra um CD, um DVD, frequenta-se shows para vê-los cometerem esses atos que "atentem contra a moral e os bons costumes" e sim para vê-los e ouvi-los cantarem. Sabe-se, por exemplo, que um médico é casado, mas amante de várias mulheres, na vida pessoal, pega todas as enfermeiras do plantão. Será que ele deixa de
ser médico por causa desse desvio de caráter?
Um jogador de futebol, fora do campo, comete excessos, brigas, confusões, frequenta baladas não recomendáveis para a profissão, os bad-boys, como se disse tempos atrás. Porém, dentro de campo ele tem um retrospecto favorável. O técnico deve pensar: "vou convocar esse jogador aqui que não é tão bom quanto o outro, mas pelo menos é bem comportado" ou melhor pensar: "quero o cara pra comer a bola e não pra comer a minha filha, então é ele que joga porque é o melhor!"?

Enfim, a ditadura ocorreu em dezenas de países. A injeção de ânimo, estrutura e verba para manter a ditadura deveu-se basicamente pelos interesses de uma nação que culturalmente tem muito pouco a nos ensinar. Na maioria dos países onde ocorreu esse tipo de manifestação, a repressão, pelo menos oficialmente, acabou há mais de 20 anos, no caso do Brasil, vamos indo pra 25 anos.
A Anistia chegou em 1979, portanto 30 anos.

Com ela, foram anistiados os exilados políticos, que foram para fora, estudaram, tiveram alguns ótima formação e no retorno puderam desenvolver seu trabalho com dignidade e alguns chegaram a ser deputados, senadores, prefeitos, governadores, parlamentares, artistas de sucesso, presidente!!! e até ministros, afastados ou não por corrupção, mas isso não vem ao caso.

Com a anistia, tivemos de volta Caetano, Vandré, Chico, Taiguara, Gil, Oduvaldo, Gláuber, Sergio Ricardo e tantos outros que, anistiados, conseguiram nos brindar com suas belas obras, sem mais retaliações da censura prévia ou extirpação da sua manifestação popular, cultural, histórica, de protesto.

Com a anistia, a imprensa falada, eletrônica e escrita pode ter mais liberdade, deixaram de haver páginas em branco nos jornais, códigos de aviso nos meios da notícia, logotipos, receitas culinárias fora de sessão, linguagem subliminar, notícias incompletas, ausentes ou truncadas.

Com a anistia, os falecidos durante o regime, de um lado ou de outro também foram perdoados, hoje muitos são lembrados como heróis, cultuados, ganharam nomes de ruas, bairros, prédios, cidades e seus herdeiros foram até indenizados pelos desvelos do passado.

Com a anistia, até os torturadores foram perdoados, deixaram de responder pelos seus atos, se tornaram cidadãos responsáveis e voltaram a ser policiais de bem, defendendo a vida e os direitos dos cidadãos. Hoje a maioria não está mais na ativa e goza, ou seus herdeiros gozam de justas pensão e/ou aposentadoria.

Uma escritora de Curitiba, chamada Tereza Urban, certa vez disse em uma entrevista: "ninguém é pessoa de bem numa ditadura". Todos, os bons e os maus, os geraldinos e arquibaldos, os humilhados e oprimidos, os humilhadores e opressores foram perdoados.

Menos Simonal. Morreu, mas ainda vive em nome e história, não pela linda obra, pelo invejável talento, mas por ainda não ter sido anistiado, nem julgado, condenado direto ao ostracismo, sem passar pelo banco dos réus e relegado eternamente e perpetuamente a uma prisão sem muros, sem grades e sem cárcere. Pior talvez que uma prisão física.

Mas há um atenuante. Diziam que ele era bom de bola. No céu estão dezenas de astros da bola que gostavam dele. E tenho certeza, na hora de dividir o time
pra pelada, Simonal e Barbosa conseguem vaga vitalícia entre os titulares.
Ou será que ficam de fora da brincadeira e ficam os dois sozinhos brincando de disputa de pênaltis enquanto os outros se divertem?

Saliento que não estou aqui nem pra defender, nem pra julgar. Mas ponderar friamente pode, não pode? Ou corro o risco de ser mal interpretado e também
ser condenado à pena perpétua por essas poucas palavras?

Todos nós somos passíveis de erros e garanto que nenhum de nós quer ficar sem trabalho, passar fome, ficar esquecido pela sociedade, não ter condição de criar os filhos por algum erro. E sim, gostaríamos todos de sermos bem lembrados pelos acertos.

Abraços aos tribuneiros!
Marcello Tod


----- Original Message ----- From: "GILBERTO JOSE MUNIZ" <[email protected]>
To: "Eugenio Raggi" <[email protected]>
Cc: "André Carvalho" <[email protected]>; "JL Vivas" <[email protected]>;
<[email protected]>
Sent: Monday, June 15, 2009 11:08 PM
Subject: Re: [S-C] Simonal por Paulo Vanzolini (O Estadão)


Olá Senhores.

Temos duas questões postas e precisamos lidar com ambas.

Quanto a posição ética/política, prefiro não emitir parecer, por não
conhecer, adequadamente as questões, exceto quanto as declarações de Caetano
Veloso, que no entanto, não se pode ter por certeza absoluta.

Mas quanto ao valor artístico cultural é inegável a contribuição de Wilson
Simonal. Ainda lembro, nos anos 60 quando integrava o conjunto Os Comanches,
em Campo Grande, RJ e a grande alegria que o público sentia ao se tocar as
músicas de Simonal.

Suas músicas eram vibrantes, de suing novo, gostosas de se ouvir. Ele fez
escola.

Não se pode olvidar que tudo teve inicio com publicações e veiculações da
Globo e da Folha, jornais que somados detém mais de 80% do poder de fogo da
mídia e, qualquer contradição aos seus interesses é torpedeado por chumbo
grosso.

Muito obrigado

2009/6/15 Eugenio Raggi <[email protected]>

E o que ele pensava sobre a ditadura militar?

Já ousou perguntar a alguém?

2009/6/15 André Carvalho <[email protected]>:
> Conheço muito bem a história do Candeia, sim, Eugenio. Foi um
> revolucionário. Um batalhador incansavel pela arte popular, pela cultura
> brasileira, pela defesa dos sambistas e da negritude. É só ver o
Quilombo...
>
>
>
> 2009/6/15 Eugenio Raggi <[email protected]>
>>
>> André,
>>
>> Já leu algo sobre a posição política de Candeia?
>>
>> Se não leu. Lei apor favor.
>>
>>
>> Abs,
>>
>> Eugenio
>>
>> 2009/6/15 André Carvalho <[email protected]>:
>> > os dois tipos humanos mais desprezíveis: os caguetas e os
>> > talaricos...
>> > esses  merecem comer o pão que o diabo vive a amassar
>> >
>> > 2009/6/15 JL Vivas <[email protected]>
>> >
>> >> E o Simonal foi um homem sem moral que ficou no chão...
>> >>
>> >> hecasi escribió:
>> >>
>> >> O Paulo Vanzolini esta gagá e neurastênico.
>> >>> att:
>> >>> Helio
>> >>>
>> >>>
>> >>> Em 15/06/2009 09:29, JL Vivas &lt; [email protected] &gt; escreveu:
>> >>>
>> >>> Parece que Simonal não era só um grande dedo-duro, mas até se
>> >>> gabava
>> >>> de
>> >>> sê-lo.
>> >>>
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Gilberto José Muniz
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