Caros tribuneiros,
recebi esse email de um colega e gostaria de compartilhar com vcs.
Será que há mesmo essa renovação no samba?
Abraços
Leonardo Natal RN
PS.: não sei quem é o autor, caso alguém saiba...
Samba: a perpétua renovação
O samba não se renova. Quantas vezes não ouvimos esta frase, proferida em
botecos e salas acadêmicas, geralmente por supostos arautos da modernidade?
Os argumentos podem ser frouxos ou fundamentados, variando conforme a
circunstância e o interlocutor. Mas uma avaliação correta desta afirmação só
pode ser feita após refletirmos sobre a permanência dos gêneros musicais
predominantes no século XX nos dias de hoje. E isso não se refere só ao Brasil,
certamente.
Desde os anos 1950, com o crescimento exponencial dos meios de comunicação,
principalmente a televisão, a permeabilidade entre culturas distintas foi
fortemente ampliada. O impacto destas transformações, no campo musical, se deu
em escala mundial. O rock influenciou o reggae, o blues se misturou com o folk
inglês, a canção de protesto se tornou poliglota, e o jazz se cruzou com o
samba, gerando a bossa nova. Foi a primeira grande renovação estrutural do
samba, desde que este se afastou do maxixe, passou pelas escolas e orquestras,
se dividiu em sub-gêneros, como samba-enredo, samba-canção, samba-de-roda,
pagode, etc.
Surge aí a primeira dificuldade. Qual samba não se modernizou? O samba não é um
só. Dizer que o samba-canção não evoluiu é uma coisa (discutível, se levarmos
em conta a amplitude temática, o alargamento do horizonte poético, a
incorporação timbrística de novos instrumentos). Afirmar que o samba-enredo não
se modernizou é coisa bem diferente. Evoluiu tecnica e formalmente (sem entrar
em juízos de valor). Ninguém confunde um samba-enredo atual com um dos anos 60.
É certo que algumas correntes mantêm fidelidade às origens, enquanto outras
desapareceram. Existem sambas de diferente sotaque em regiões diferentes do
país. As primeiras gravações dos caipiras paulistas, como Raul Torres, João
Pacífico, Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho, revelaram um tipo de samba
sacudido e bem humorado, puxado pela viola. Esta ramificação do samba parece
extinta, mas os sambas nordestinos da mesma época, puxados pelas emboladas de
Manezinho Araújo, vingaram na voz de Jackson do Pandeiro na forma de rojão, e
influenciam até hoje muita gente boa, sendo reinventado nos anos 70 pelos Novos
Baianos, nos 80 pelo pessoal do Mangue Beat e no século XXI pelos grupos
nordestinos contemporâneos, que produzem um samba estilizado com forte acento
percussivo e eletrificado.
Claro que Jorge Ben, antes de virar Benjor, já havia indicado este caminho, lá
nos anos 60. Um samba “esquema novo”, que flertava com o soul e o funk, e que
abriu uma trilha própria na música brasileira, com vários seguidores. Num
estilo que se convencionou chamar de sambalanço, e posteriormente, samba-rock,
uma série de artistas arriscou um gingado. Grupos vocais como os Incríveis,
Mutantes e Fevers, intérpretes como Simonal, Luiz Vagner, Bebeto e Tim Maia,
arranjadores como Erlon Chaves, José Briamonte e Amilton Godoy (Zimbo Trio). No
exterior, com diferentes pegadas, Baden Powell, Moacyr Santos e Sérgio Mendes
lapidaram ainda mais a cara do samba, revelando novos brilhos.
Os grandes festivais de música dos anos 60 e 70 foram férteis em
experimentações vinculadas ao samba. A influência da imagem televisiva sobre o
gênero foi marcante, determinando o caráter cênico de algumas apresentações. Só
Quero Mocotó, de Erlon Chaves, ou a performance de Maria Alcina (Fio Maravilha)
foram marcos na história musical do Maracanãzinho. A televisão colorida, a
partir dos anos 70, vai influir de forma contundente os desfiles de escolas de
samba, causando alterações essenciais na estrutura dos sambas-enredo.
Longe das quadras, autores do porte de um Paulinho da Viola também cruzaram
limites. Cantar um samba acompanhado de caixa de fósforos e cravo em 1971 (Para
Ver as Meninas) pode ser visto como um ato de ousadia frente à tradição. Em
outras obras do período Paulinho utiliza tensões harmônicas incomuns,
distendendo os nervos da tradição. Tom Zé, muito antes de bulir nas ancas da
velha senhora, já fazia da parceria com Elton Medeiros – pilar do samba
tradicional – um trampolim para criativas evoluções no disco Estudando o Samba,
de 1975. Nesta década, as rádios mandavam ver os sucessos de Marcos Valle e
Ivan Lins, calcados na batida primordial do samba, mas buscando nos teclados
uma sonoridade mais pop. E mesmo um cultor do samba clássico, como Chico
Buarque, contribuiu pontualmente com pinceladas que elevaram o patamar de
qualidade para os aspirantes ao título de sambista.
É também nos anos 70 que surge uma grande dupla de renovadores: João Bosco e
Aldir Blanc. O violão do mineiro Bosco explorava com maestria todas as
modalidades conhecidas de samba, apoiados nas ardilosas crônicas em verso do
carioca Aldir. Posteriormente, Bosco se aprofunda na matriz afro-rítmica,
criando complexas texturas onde a voz também soa como instrumento percussivo.
Pouco depois, com influência bem mais restrita, os paulistas do grupo Rumo
investigaram as possibilidades do samba, principalmente através de Luiz Tatit.
Na dita vanguarda paulistana, o eclético Itamar Assumpção se destacou como fino
criador de neo-sambas, ainda não totalmente assimilados.
O alagoano Djavan também surgiu nos festivais. Sua reinvenção do samba é
notável, nos primeiros discos, tendo conquistado inúmeros seguidores (e
diluidores). Quase-sambistas, como Luiz Melodia, fizeram a ponte entre o morro
do Estácio e os tropicalistas, que revisitavam o samba de forma periódica,
introduzindo pequenas alterações na sintaxe. Principalmente Gilberto Gil, que
grava em 1978 uma curiosa Antologia do Samba Choro, dividindo faixas com o
paulista Germano Mathias. Da Bahia também, refinado cultor e reinventor da
chula e do samba do Recôncavo, Roberto Mendes é um grande criador, violonista
exímio e inventivo. Em alguns momentos evidencia a ligação musical Cuba-Brasil,
que até um defensor do samba tradicional como Nei Lopes reconhece e alardeia,
abrindo a porta para as sonoridades caribenhas.
As mulheres exercem papel fundamental na definição de novas formas de samba.
Joyce, que começou na praia da bossa nova, delineia um jeito feminino de fazer
samba, e marcou posição como compositora. Grandes intérpretes, como Elza Soares
e Elis Regina, expandiram os limites expressivos e criaram um jeito moderno de
cantar, diferente das rodas de samba. Outras cantoras, como Leny Andrade,
tiveram referências jazzísticas, e se tornaram o lado vocal da turma braba que
incendiava as boates cariocas nos anos 60: Tamba Trio, Luiz Carlos Vinhas,
Edson Machado, Meirelles e Copa 5, Dom Um Romão, João Donato, Eumir Deodato e
mais um punhado de craques. Estes instrumentistas representam, para o samba, o
que o bebop representa para o jazz tradicional: invenção acelerada e enérgica,
distanciando-se do formato canção.
E toda essa invenção permanece viva, nas novas gerações? Não do mesmo jeito, é
claro, mas o leque continua aberto. As correntes tradicionais do samba, depois
de um certo refluxo, se acomodaram aos novos nichos da indústria fonográfica, e
mantêm produção constante. A grande novidade dos anos 80 foi o estabelecimento
do pagode como fórmula comercial bem sucedida, calcado em nomes como Almir
Guineto, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Sombrinha e Arlindo Cruz, egressos do
grupo Fundo de Quintal. Não se trata propriamente de invenção, mas nova
encadernação de uma modalidade de samba.
A invenção está, como na década de 60, nas mãos de gente que absorve outras
linguagens musicais, promovendo misturas e decantações de diferentes matrizes.
A aproximação com rap e do hip hop evidencia o trabalho do carioca Marcelo D2 e
o paulista Rappin’ Hood. Os pernambucanos continuam provocativos, seja na
continuação no discurso alucinado de homem-caranguejo, com o Mundo Livre S/A,
seja na dicção macia de um Junio Barreto. Filhos de sambistas famosos,
Jairzinho Oliveira, Max de Castro e Simoninha arriscam misturas com a
tecno-modernidade, nem sempre bem digeridos. Enquanto em São Paulo a herança de
Benjor é trabalhada por Paulo Padilha, Mattoli e o Clube do Balanço, no Rio
grupos como Pedro Luis e a Parede se esforçam pra bagunçar as fronteiras do
ritmo. E surgem novas (porta)vozes femininas, com um pé no samba, como a
quase-carioca Roberta Sá e a maranhense Rita Ribeiro, e outro no mundo, como
Fernanda Porto e seu tecno-samba, e Bebel Gilberto, com sua bossa-lounge, todas
atentas às sutilezas do estilo.
Enfim, experimentações em torno do samba continuam rolando. Quem afirma que “o
samba não se renova” apenas repete um chavão desatualizado. Para o bem e para o
mal, as mutações (naturais ou transgênicas) continuam em movimento. Muito do
que se convencionou chamar de MPB é, na verdade, variação, adaptação e tradução
do caudaloso samba. Um roqueiro empedernido pode fazer coro com um sambista da
velha guarda e dizer que tudo isso é firula e não leva a nada. É natural. Em
qualquer época da história da música, as inovações foram vistas primeiro com
desconfiança. E, convenhamos, um velho roqueiro e um velho sambista são muito
parecidos em uma coisa: no conservadorismo estético.
Tem gente boa que continua gostando do samba “tradicional”, cantados nas rodas,
quadras e botecos. Assim com outros preferem o Traditional Jazz de Nova
Orleans, as óperas de Verdi, Rossini e Donizetti ou o rock dos anos 70. O bom
de vivermos no século XXI é podermos espalhar nossas preferências não apenas
geograficamente, mas também no tempo. Só não podemos negar a evidência de que
todos estes gêneros estão em perpétua renovação.
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