Tribuneiros,
 A "Crônica da Cidade", da edição do jornal Correio Braziliense de
hoje, assinada pelo competente Severino Francisco, abaixo transcrita,
foi oportunamente denominada "As plantas e o chorinho".
 A Crônica fala da bela flautista  Odete Ernest Dias, da
participação dela em  rodas que antecederam o Clube de Choro de
Brasília; e da íntima relação do chorinho com as plantas, com os
passarinhos, com a vida ...  
 Caio Tiburcio
 Brasília, segunda-feira, 02 de novembro de 2009   
 Crônica da Cidade
     [1]
 As plantas e o chorinho
 Por Severino Francisco
 [email protected] 
 Tudo fica mais elegante, delicado, livre e leve quando a flautista
Odete Ernest Dias sopra a sua flauta. Ela tem alma de chorinho. Odete
é uma francesa muito brasileira, nascida nas ilhas Maurícias, filha
de pai indiano, amiga de Villa-Lobos, de Pixinguinha e de Tom Jobim.
Essa dama elegante da música brasileira formou várias gerações de
instrumentistas em Brasília e teve participação decisiva na
criação do Clube do Choro, um dos endereços da boa música na
cidade. E, na verdade, Odete tem uma orquestra sinfônica em casa: os
filhos Beth, Deda (flautistas) e Jaime (violinistas) tocam em shows e
gravam com os melhores músicos brasileiros. 
 Quando Odete chegou a Brasília em 1974 já existia um núcleo forte
do chorinho na cidade, comandado por Waldir Azevedo, Avena de Castro,
Pernambuco do Pandeiro e Bide da Flauta. Era um respeitável time de
craques da música instrumental brasileira que faria bonito em
qualquer palco do mundo. Waldir parecia um Mané Garrincha do
bandolim, buliçoso, veloz, manhoso e arisco, driblando tudo o que
passasse pela frente. 
 Pois bem, em 1974, Odete se encontrou com o clarinetista Celso Cruz,
que a convidou para participar das rodas de choro na casa do
jornalista Raimundo Brito. Odete compareceu, mas, logo em seguida,
Raimundo morreu e ela convidou todo mundo para fazer a roda de choro
no amplo apartamento em que morava na 311 Sul. Aí apareceram por lá
Waldir Azevedo, Avena de Castro, Pernambuco do Pandeiro, Valério,
Alencar Sete Cordas, entre outros. Já imaginou esse time tocando em
sua casa? 
 Todo sábado o apartamento virava uma festa muito animada. Logo,
alguém providenciou a cerveja e a feijoada. A festa cresceu tanto
que vinha gente de outros estados para apreciar. Mas chegou um
instante em que o apartamento de Odete ficou pequeno para tanta
animação. Havia gente tocando na sala, na cozinha, nos quartos e no
banheiro. E, neste ponto, Odete e seu marido Geraldo se mobilizaram,
chegaram até o então governador Elmo Serejo e conseguiram uma sede
para o Clube do Choro. 
 Contudo, um detalhe nada desprezível é o da participação das
plantas na história do choro em Brasília. Odete cultivava avencas e
jiboias em vasos no seu apartamento. A audição contínua daqueles
bambas do choro fez com que as plantas vicejassem com um esplendor
extraordinário. As jiboias subiram até o teto, chegando inclusive a
atrair um pássaro preto, que morou no apartamento durante certo
tempo. As plantas revelaram um ouvido musical apuradíssimo, pois
quando cessaram as rodas de choro, elas feneceram. 
 Atualmente, Odete mora no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Tereza.
Sempre que ela sopra sua flauta aparece um beija-flor adejando pelo
apartamento. Com certeza, Odete se lembra dos sabadões musicais na
311 Sul, pois os voos caprichosos, ziguezagueantes, velozes e leves
do beija-flor se parecem com os chorinhos de Waldir Azevedo.
 http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/colunas/col_cro.htm
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