computador pra definir gênero musical... que época é essa que agente vive? 
aff...

--- Em seg, 19/7/10, Leonardo Galvão <[email protected]> escreveu:

De: Leonardo Galvão <[email protected]>
Assunto: [S-C] O SAMBA AGONIZA OU NUNCA AGONIZOU?
Para: "Tribuna Samba-Choro" <[email protected]>
Data: Segunda-feira, 19 de Julho de 2010, 19:01





Caros Tribuneiros,

ótimo texto de Nei Lopes, sei que o assunto já deve ter sido debatido sobre o 
samba agonizar ou não, mas a reflexão merece a leitura.

Abraços

Leonardo - Natal



                        COMPUTADOR DA USP, BÊBADO-EQUILIBRISTA, DELETA O SAMBA. 

(Nei Lopes & Samba – O Estado de S.Paulo – sábado, 5 de junho de 2010) 




Volta e meia aparece alguém decretando a morte do samba, ou achando
que ele é alguma coisa difusa e antiga que existiu musicalmente em
tempos idos. Isso já motivou letras e letras, tentando mostrar o
contrário. Em uma delas, por exemplo, Nelson Sargento diz que o nosso
gênero-mãe “agoniza, mas não morre”, numa afirmação da qual pedimos
licença para discordar, pois o samba, desde o Pelo Telefone, nunca
esteve agonizante. Muito pelo contrário! 

Semana passada, mesmo, estivemos lá no Espaço Anhanguera, na Barra
Funda, no terceiro aniversário da roda de samba dos Inimigos do
Batente, turma que lê Bourdieu e sabe que nas trocas simbólicas do
samba tem muito mais negociação do que conflito. Pois a festa “botou
pelo ladrão”, com pelo menos mil pessoas cantando e dançando até quase
de manhã ao som do batuque ancestral. 

Fora dali, outras provas eloquentes da vitalidade e da diversidade
do nosso ritmo poderiam ser claramente vistas ou ouvidas, por exemplo:
na contemporaneidade do Clube do Balanço, com seu samba-rock; no
Quinteto em Branco e Preto, que trafega entre a modernidade elegante e
a tradição engajada, nos palcos e no disco, já há quase 15 anos; no
trabalho espiritualizado e reverente da cantora Fabiana Cozza – e isso,
falando só da Pauliceia. 

Pois é. Desde 1917. E, assim, historiando, lembremos de Tempos Idos,
obra na qual o grande Cartola se orgulhava de o samba ter saído do
morro e chegado aos salões, indo exibir-se “pra Duquesa de Kent no
Itamarati”, como de fato aconteceu nos anos 50. Essa trajetória,
anotada pelo genial compositor, simbolizaria a ascensão social do
gênero e da cultura que o gerou. Coroada em 2001 com a outorga da Ordem
do Mérito Cultural a quatro das escolas de samba cariocas pelo
Ministério da Cultura, em solenidade palaciana de Brasília, essa
ascensão culminaria logo depois com o tombamento do samba como
patrimônio imaterial da humanidade. 

Medalhas e brasões todos sabemos quanto custam. Da mesma forma que
sabemos que o tombamento de um bem cultural tanto pode protegê-lo
contra dilapidações quanto propiciar o engessamento de possibilidades
desse bem, seja ele tangível ou imaterial. Além disso, a cultura
brasileira, quando fala de samba, está quase sempre se referindo às
escolas, numa generalização ingênua. 

Sabemos que é difícil, para quem não é do ramo, perceber a diferença
que hoje existe entre samba e escola de samba, e o grande fosso que se
cavou entre essas duas instituições. As escolas nasceram bem depois do
samba, com a intenção de desestigmatizá-lo e legitimar sua aceitação
pela sociedade dominante. Mas elas hoje, embora deslumbrantes, cada vez
mais se distanciam do universo que as criou. 

Se o leitor ainda não compreendeu a diferença, compare, por exemplo,
certos aguerridos conjuntos de “velhas guardas” com as agremiações que
lhes emprestam os nomes. E, de quebra, evoque um grande sambista,
principalmente falecido, e veja se seu nome é sequer lembrado nas
“quadras” de hoje, cheias de gente “famosa”. 

E é em meio a essa reflexão que nos chega a notícia de que um
programa de computador desenvolvido por pesquisadores da USP e da
Universidade de São Carlos, visando a acabar com as “atuais, e
subjetivas, definições de gêneros musicais”, está promovendo uma
reclassificação. Por meio de espécies de partituras digitais, tomando
como base a percussão e abolindo as categorias tradicionais,
estabeleceram-se padrões que serviram para reclassificar 400 músicas,
geralmente agrupadas nas categorias rock, reggae, bossa nova e blues.
E, aí, a máquina, reconheceu como “100% bossa nova” o grande samba O
Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco & Aldir Blanc, conforme
matéria publicada pelo jornal O Globo. 

Confundir samba-enredo com bossa nova não é culpa da máquina, claro,
e sim de quem, ao alimentá-la, não teve a sensibilidade de entender que
o gênero é o samba, e que a bossa nova é apenas um belo estilo
interpretativo nascido dele ou, quando muito, um subgênero. 

Nesta, Candeia, que sabe das coisas, já deve ter pensado lá do outro
lado: “Meu Deus! O samba apanhou da polícia, foi garfado pelas múltis,
e agora é deletado pelo computador…”

                    
                                          
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