Essa é a verdadeira visão do valorizar o que nem sempre tem valor, é mais um 
elemento da cadeia produtiva de "cultura". É nivelar por baixo a qualidade 
desse produto cultural. Ainda não vi um baiano criticar outro baiano.
Não é preciso elitizar a produção cultural, mas é preciso sim, filtrar as 
produção de má qualidade, a produção em série, a produção do HIT da vez, do 
consumo ditado pelos pseudo intelectuais que querem se travestir de povo para 
se tornar simpático, apenas. É lastimável.

Um abraço.
Caio Pontual

  ----- Original Message ----- 
  From: Marcelo Neder 
  To: [email protected] ; JL Vivas 
  Sent: Monday, March 28, 2011 11:19 PM
  Subject: Re: [S-C] Samba da Bahia


        Excelente texto JL, vou jogar um pouco de lenha na fogueira com um 
texto do ex-secretário de cultura que acabou de sair do cargo em 2010, Márcio 
Meirelles, em que entre outra coisas ele alerta: "...é preciso diferenciar 
cultura, de produto cultural..."


        Abs


        Marcelo Neder


        Meu gosto pessoal é inclusivo: gosto tanto de ouvir Rebolation quanto 
Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht e 
leio histórias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afoxés. Não tem 
que ser isso ou aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua poética.

        Cada coisa é cada coisa. Por exemplo: letra de música não é poema, 
apesar de usarem ambos a mesma matéria prima: palavras. Nas letras de música, 
as palavras precisam ser associadas a rítmos, melodias e harmonias para criar 
imagens, reflexões, deleite, diversão... Nos poemas, as palavras sozinhas criam 
ritmos, harmonias, melodias e imagens, dependendo do talento do poeta. Isolar a 
letra da música, às vezes, é como tirar um peixe da água. Mas musicar um poema 
pode resultar numa superposição desastrosa. Mesmo que as duas experiências, 
eventualmente, possam resultar em sucesso.

        Para adentrar no debate, precisamos diferenciar cultura, produto 
cultural, arte e indústria cultural. São coisas distintas que se complementam. 
Não se desmerecem nem há hirarquia. Há, sim um “ecosistema” cultural. Redes 
produtivas que tornam tudo isso rico, diverso, viável e sustentável.

        A cultura – nossos comportamentos, saberes e fazeres – nos alimenta de 
modos e símbolos que nos identificam e permitem dialogar com o outro. E quanto 
mais consigamos tocar outros, melhor. Podemos ter duas sensações distintas: a 
de que podemos melhorar o mundo, partilhando valores comuns; ou a de que 
podemos dominar o mundo.

        E esse universo simbólico, vocábulos e repertórios identitários, 
traduz-se e se condensa em produtos culturais: objetos materiais ou imateriais, 
frutos dos relacionamentos do indivíduo com a natureza, do cidadão com a 
sociedade e da preservação dessas relações pela memória coletiva.

        A arte – ato de fazer com esmero – ressignificando os mesmos processos, 
muitas vezes com lógicas subvertidas, constroi objetos artísticos que viram 
referências, ícones, acervos, a patir de um consenso que envolve academia, 
mídia, mercado.

        A indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o acesso 
a ela, gerando, a partir da apropriação das linguagens e produções artísticas, 
novos ícones e produtos artístico-culturais. Produzidos ou reproduzidos em 
série e, cada vez mais, oferecidos ao público por engenhosos sistemas de 
marketing, são transformados em objetos de desejo e de consumo coletivo, 
democratizando/massificando o acesso ao que era exclusivo domínio de um grupo.

        Por mais que nos choquemos, a arte é objeto de consumo e produto de 
troca desde sempre. A renascença começou a descentralizar isso, deslocando o 
eixo de produção e patrocínio da esfera do público, determinados pelo Estado e 
pela Igreja, para a do privado, com o surgimento da burguesia e dos mecenas. E 
também deu início a popularização de alguns setores, como o da literatura e das 
artes visuais, com as tecnologias de reprodução em série. Hoje, ingressos no 
teatro ou cinema, livros, cds, dvds, quadros, gravuras e todos os conteúdos 
veiculados pelas indústrias da comunicação e da informação são comprados – ou 
seja, o acesso à produção artística se dá através de troca, ainda que essa 
troca possa ser subsidiada ou totalmente financiada pelo Estado ou por 
patrocinio da iniciativa privada. O que gera recursos e valores.

        Para uma elite manter sua posição não basta apenas o domínio e acúmulo 
de recursos econômicos. É preciso também um domínio e acúmulo de bens 
simbólicos. E, sendo a linguagem também poder, essa elite constroi códigos 
restritos para a comunicação entre alguns, seus pares. A intimidade com esses 
códigos cria um grupo “culto” ou seja cultivado que se pretende cultuado 
sempre. As elites excluem evidentemente de seu círculo aquilo que é popular. Ou 
seja com o qual todo o povo – de qualquer classe – se identifica, entende, 
gosta e tem acesso. Podemos só lembrar a reação da elite branca brasileira ao 
lundu, ao candomblé, ao samba, à capoeira: expressões simbólicas dos pretos, 
das “classes inferiores”. Poderia citar outros exemplos de rejeição. Mas 
fiquemos por aí.

        Isso acontece nas sociedades até um Picasso reconhecer e se apropriar 
dos valores estéticos das máscaras africanas, por exemplo. Até a indústria 
transformar o lamento do blues em discos, vendáveis. Até o cinema perceber o 
potêncial dramático e catártico das vidas nos guetos sociais. Aí a coisa muda.

        Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produção simbólica da 
classe média e seus artífices. Cansou de ver sua própria produção simbólica 
retrabalhada em nova embalagem e seus artístas ascenderem e decaírem por força 
de um mercado consumidor. Cansou de ver os seus objetos – música, literatura, 
etc – serem considerados sub cultura...

        As periferias resolveram tomar atitude e cultivar seu próprio discurso, 
comunicar-se com seu igual através de seus próprios códigos estéticos. Virar as 
costas para uma sociedade que sistematicamente se recusa a encarar de frente a 
situação.

        A criação desse novo discurso inclui novos agentes culturais, novo 
vocabulário, novas mídias, novo mercado. Uma nova cadeia produtiva que não faz 
questão de dialogar com o centro. Que vive independente da vontade ou 
interferência dos veículos ou agentes da indústria cultural central. Isso é 
possível agora, graças às novas tecnologias digitais.

        E as elites, através de sua juventude, que – questionando valores 
geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe – passam a consumir 
essa nova produção cultural, a vestir, falar, andar como os jovens das 
periferias. A cultuar esses novos valores. Integrando esteticamente, de alguma 
forma, a periferia ao centro.

        Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuitição ou consciência 
coletiva, de classe, percebe o perigo que suas posições correm, quando os 
pretos e pobres saem das páginas policiais e ocupam o caderno de cultura. Sabe 
também o perigo que corre quando seus jovens começam a frequentar as páginas 
policiais, atraídos pela mítica da periferia (“seja marginal, seja herói”) e 
buscar aventura no lado B da cidade, que inclui também, como bônus track, as 
drogas e seu discurso completo, sua nova sintaxe vernacular e comportamental. 
Essa elite passa então a execrar a estética produzida na periferia, suas 
expressões e produtos.

        Mas não tem jeito, a indústria cultural e a mídia abrem espaço para os 
novos produtos extremamente vendáveis que, pelo seu apelo popular, já 
construiram um mercado paralelo. É o que está acontecendo. A juventude se 
veste, fala, se comporta como garotos de favela. As gírias vem do mundo das 
drogas e as músicas, danças e meios de curtí-las são também modos vindos da 
periferia. O exótico, o erótico, vêm com carga transgressora poderosa e 
promessas de vivências culturais inéditas.

        É o que está acontecendo. O repertório é direto, tem novos códigos. A 
qualidade não se mede por letras de músicas que podem sobreviver sozinhas como 
poesia apaziguadora. A beleza é outra beleza. A desistência da aspiração pelo 
eterno vem da consciência da finitude e fragilidade da vida, que acaba com uma 
bala perdida, uma batida policial. Tudo é fugaz e reciclável. Tudo é reposto 
com muita velocidade, como os grafittes. Os novos ídolos que surgem como 
revelação e se extinguem como fogos de artifício, não são ídolos, são objetos 
de desejo que, consumado, os devora. Não é preciso sofisticação para o fast 
food, apenas uma boa campanha de marketing e um sabor impactante.

        Quando as barreiras políticas e sociais são detonadas pela cultura. 
Quando estética e repertório da periferia invadem o centro. Tanto faz onde 
vamos enfiar o que está todo enfiado. Precisamos repensar valores. Incluir. 
Porque é a exclusão que gera a violência. Os parametros estéticos, os 
paradigmas formais, os conceitos dos contemporâneos antenados, a cultura e a 
civilização, eles que se danem. Ou não.

        Viva o Rebolation e a alegria de mexer os quadris.





        Salvador, abril de 2010

        marcio meirelles

        --- Em qui, 24/3/11, JL Vivas <[email protected]> escreveu:


          De: JL Vivas <[email protected]>
          Assunto: [S-C] Samba da Bahia
          Para: [email protected]
          Data: Quinta-feira, 24 de Março de 2011, 10:20


          Extraido de http://ojuobaproducaoturismo.blogspot.com/
          ===========================

          O samba está em alta?

          Essa é uma pergunta que exige uma reflexão. Em 2003,  pouco se falava 
de samba na Bahia, a idéia de se cantar samba era vista com preconceito e havia 
pouquíssimos artistas (dentre eles  Gal do Beco, Barlavento, Neto Bala, Batifun 
, Clécia Queiroz) e casas onde se tocasse esse gênero musical. Hoje, assistimos 
pipocarem grupos e muitos são os espaços criados especialmente ou utilizados 
para abrigar o samba, que aliás ganhou espaço dentro do carnaval e no Festival 
de Verão. Então voltamos para a pergunta: O samba da Bahia está em alta?  Qual 
é o samba produzido na Bahia nos dias atuais? O que é mesmo esse samba da Bahia?

                   Em 2004, o samba de roda  do Recôncavo Baiano foi 
reconhecido como Obra-Prima do Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO e 
algumas medidas foram tomadas para a sua salvaguarda, como oficina da viola 
machete - viola característica do samba-chula do Recôncavo - e produção de CD, 
em realidade um registro maravilhoso de sambas da região. No entanto, será 
mesmo o samba de roda o que tem vigorado na produção dos artistas locais e 
desfilado na avenida no carnaval? Sabemos que a Associação dos Sambadores e 
Sambadeiras da Bahia - Asseba, criada em função do Plano de Salvaguarda para o 
reconhecimento do samba de roda da Unesco, - reúne hoje mais de noventa grupos 
e competentemente tem promovido encontros entre mestres, pesquisadores, rodas 
de samba  e shows no Recôncavo, cidades brasileiras e até mesmo no exterior. No 
entanto, esses grupos visitam pouco Salvador e não são eles que freqüentam as 
páginas dos jornais no final de semana. Quantos são os grupos e artistas das 
mais novas gerações que se dedicam ao samba de Roda na capital?  É o samba de 
roda mesmo o que está se chamando  de samba da Bahia? Ele está nas escolas, nas 
rádios? O samba da Bahia tem uma outra identidade?   Ou será o modismo,  
oportunismo ou vislumbramento de retorno financeiros de muitos grupos, que 
apenas repetem a fórmula do samba urbano carioca (ou brasileiro), sem nem ao 
menos estudar um pouco mais sobre o samba,   o que tem pintado nas rodas da 
Bahia? Questões a serem refletidas...


          -----Anexo incorporado-----


          _______________________________________________
          Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
          Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
          Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
          Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos
       



------------------------------------------------------------------------------


  _______________________________________________
  Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
  Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
  Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
  Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos
_______________________________________________
Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos

Responder a