COL�MBIA - O MEDO DE UM NOVO VIETN�
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- Miguel Urbano Rodrigues

Na Col�mbia aconteceu o que se esperava.

Os historiadores registrar�o futuramente que no final de Agosto do
ano 2000 a visita do Presidente Clinton a Cartagena de �ndias ficou
a assinalar o inicio da interven��o militar dos EUA naquilo que era
at� ent�o um grave conflito interno que assumiria as propor��es de
guerra civil.

� hoje relativamente f�cil esbo�ar o quadro dos acontecimentos que
conduziram a Col�mbia � ca�tica situa��o em que se encontra. Mas
fazer previs�es sobre o desfecho da guerra que ali se desenvolve
seria uma irresponsabilidade.

Clinton chegou anunciando que era um mensageiro da paz. Mas trouxe
com ele a mensagem da guerra. O ramo de oliveira era falso. As
For�as Armadas Revolucionarias da Col�mbia - FARC-EP responderam �
guerra com a guerra. Desencadearam nos dias seguintes, em escala
nacional, uma ofensiva de grandes propor��es respondendo �
interven��o estrangeira que visa a sua destrui��o.

Bases do ex�rcito, 40 quart�is da Policia, instala��es estrat�gicas
foram na primeira semana de Setembro atacadas em doze
departamentos, com especial incid�ncia em Guajira, Cundinamarca e
Quindio. Atrav�s dos comunicados � imposs�vel avaliar o n�mero de
mortos e o montante dos danos materiais. Foram certamente muito
elevados. Mas a pr�pria imprensa de Bogot� � a primeira a
reconhecer que o alto comando das For�as Armadas colombianas mais
numa vez se equivocou ao anunciar que as FARC se encontravam
debilitadas e sem condi��es para lan�ar ataques de grande
envergadura.

Observadores militares admitem que as FARC disp�em atualmente de uns
15 mil combatentes.

A queda de um dos cinco AC-47, os avi�es-espias fornecidos pelos
EUA, provocou desalento entre os militares. Segundo o ministro da
Defesa o aparelho chocou com uma montanha quando cumpria uma miss�o
operacional numa �rea onde a guerrilha acabavam de bombardear uma
base de comunica��es. Mas ningu�m acredita que um avi�o m�gico
concebido para detectar at� a respira��o humana - como diziam os
generais da For�a A�rea - n�o identificasse sequer uma montanha...
As FARC afirmam ter derrubado o aparelho.

TEMOR BRASILEIRO

A escalada na Col�mbia coincidiu com a Reuni�o de C�pula da Am�rica
do Sul, convocada por iniciativa do Brasil para debater a tem�tica
da integra��o. Foi o grande assunto nas conversa��es informais,
embora tenha sido tamb�m debatido no plen�rio.

Logo � chegada, o venezuelano Hugo Chavez manifestou-se preocupado,
prevendo que a visita de Clinton contribu�sse para uma escalada de
viol�ncia, provocando a fuga maci�a de colombianos para os pa�ses
com os quais a Col�mbia tem fronteiras. Id�ntica preocupa��o foi
expressada pelo presidente do Brasil e pelo seu ministro dos
Neg�cios Estrangeiros, Lu�s Filipe Lampreia. Este, numa entrevista a
"El Pa�s", de Madri afirmou que o conflito armado na Col�mbia
"constitui neste momento a mais s�ria amea�a � seguran�a
brasileira". Em Washington essas declara��es ca�ram mal. Sobretudo
porque Lampreia, um pol�tico muito conservador, dissipou d�vidas
sobre a posi��o brasileira.

"J� dissemos claramente - sublinhou - que o Brasil n�o participar�
numa for�a internacional. Mais, somos contr�rios a interven��o de
uma for�a militar estrangeira na Col�mbia". Foi categ�rico: "N�o
queremos envolver-nos nesse conflito. Nem sequer queremos que sejam
usadas as infra-estruturas do Brasil, como as pistas a�reas, por
exemplo, nem direta nem indiretamente (...) E j� o dissemos
publicamente ao governo dos EUA".

FARC APELAM AO DI�LOGO

Contrariando previs�es da direita colombiana, as FARC-EP, enquanto
intensificavam as a��es da guerrilha em resposta � interven��o
norte-americana, reafirmavam o seu desejo de paz.

O comandante Andres Paris, porta-voz da organiza��o, numa
confer�ncia de imprensa, informou que as FARC pretendem discutir no
dia 22 de setembro com os representantes do governo a formula de
negocia��es sobre um eventual cessar fogo. O di�logo ter� mais uma
vez por sede a zona desmilitarizada, uma regi�o maior do que a
B�lgica onde o poder real � exercido pelas FARC. Estas desejariam
regressar � mesa das negocia��es no contexto de uma tr�gua.

N�o se trata de uma iniciativa nova. As FARC, em envelope selado
entregue h� dois meses em Bogot� ao presidente Pastrana, tinham
proposto um cessar fogo que permitisse a ambas as partes negociar
numa atmosfera adequada. A resposta do Presidente foi a forma��o
dos batalh�es especiais, a vinda dos boinas verdes americanos, a
dinamiza��o do Plano Col�mbia. Esse Plano escancarou as portas �
interven��o. O material recebido dos EUA fez da Col�mbia, de um dia
para outro, a primeira pot�ncia militar da Am�rica Latina. Por si
s�, a frota de helic�pteros t�m um potencial de fogo superior a
todas as cong�neres somadas dos pa�ses sul-americanos.

Uma das primeiras conseq��ncias da generosa ajuda militar dos EUA �
Col�mbia foi uma imediata corrida armamentista em muitos pa�ses
latino-americanos. No Chile, o Ex�rcito, a Marinha e a For�a A�rea
j� se reuniram com o presidente Lagos para lhe pedir novos e caros
armamentos. A Armada, por exemplo, quer agora investir mais de 1600
milh�es de d�lares em novas fragatas. At� no Equador os militares
exigem mais armas. Na Argentina, considerada pela NATO "aliada fora
da zona", os generais tamb�m come�am a apresentar as suas
reivindica��es.

AUGE NO NARCOTR�FICO

O governo de Pastrana, insens�vel ao rid�culo, insiste em repetir
que o poderoso arsenal recebido dos EUA, e por eles financiado, se
destina ao combate ao narcotr�fico.

A argumenta��o utilizada, em vez de o favorecer, contribui para
aumentar o descr�dito da Administra��o, cujo desprestigio aumenta �
medida que se confirma aquilo que o povo tinha por inevit�vel: a
escalada da viol�ncia. Os fatos demonstram, ali�s, que a ajuda
norte-americana no combate �s drogas produziu at� agora, pelo menos
na Col�mbia, efeitos opostos aos pretendidos. Nos �ltimos cinco
anos, os EUA aplicaram no pais um plano antidrogas cujo malogro foi
reconhecido pela comunica��o social. Sob a supervis�o da famosa
Drug Enforcement Autority (DEA), foram submetidos a fumiga��o mais
de 950 mil hectares de planta��es de coca e de papoulas. O custo
por hectare dessas opera��es rondou os 30 mil d�lares. Qual foi o
resultado?

No in�cio da opera��o havia no pais uns 12 mil hectares de
planta��es il�citas. Hoje, segundo uma estimativa oficial, essas
planta��es ocupam 120 mil hectares, uma �rea dez vezes maior. No
terreno ecol�gico, o custo da agress�o ao ambiente � incalcul�vel.

Entretanto, a exporta��o de coca�na e heroina para os EUA, primeiro
consumidor mundial, aumentou.

Milhares de pequenos propriet�rios n�o podem utilizar as suas
terras, agora envenenadas pelos desfolhantes t�xicos. Sobretudo nas
�reas do Putumayo e de Caquet�, esses camponeses foram obrigados a
vender por pre�o vil as suas quintas aos grandes fazendeiros, cujas
fazendas, com poucas excep��es, n�o foram pulverizadas e continuam a
produzir coca.

O governo e os militares t�m conhecimento da engrenagem. A CIA
tamb�m. Mas ambos simulam ignorar a realidade. Porque o inimigo a
abater � outro: as FARC-EP.

A SERENIDADE DAS FARC

Em artigo anterior, chamei a aten��o para o temor existente na
Venezuela, no Brasil, no Peru, no Equador e no Panam� para as
conseq��ncias do p�nico das popula��es colombianas nas �reas que
ser�o mais duramente afetadas pela escalada de viol�ncia, se esta
prosseguir, em conseq��ncia da aplica��o do Plano Col�mbia.

A imprensa norte-americana e o general Fernando Tapias, comandante
chefe das For�as Armadas, numa tentativa de atribuir � guerrilha
inten��es que ela nunca manifestou, t�m insinuado que as FARC se
preparam para instalar "santu�rios" em pa�ses vizinhos, promovendo
assim um alastramento da guerra.

At� agora, essas acusa��es encontraram pouca receptividade no Brasil
e na Venezuela, os vizinhos cuja posi��o mais preocupa Washington.
As FARC-EP, reagindo a essa campanha, convocaram uma confer�ncia de
imprensa em San Vicente de Caguan, na zona desmilitarizada. O
comandante Jairo, falando pela Organiza��o, afirmou que nunca foi
sequer considerada a hip�tese de um alargamento das frentes de
combate a qualquer pa�s vizinho. Denunciou a manobra como uma
cal�nia.

Quanto �s elei��es municipais de 29 de Outubro, outro tema que tem
motivado especula��es sobre a atitude da guerrilha, Jairo informou
que as FARC n�o intervir�o no processo das aut�rquicas... Os
candidatos poder�o realizar sem entraves as suas campanhas nas
regi�es controladas pela guerrilha, com excep��o daqueles que s�o
comprovadamente respons�veis de crimes contra o povo.

A guerra, entretanto, prossegue.

O povo colombiano quer a paz. Por ela se manifestou maci�amente nas
ruas ao protestar contra a visita de Clinton.

O sistema de poder norte-americano, respons�vel pela atual escalada,
n�o parece, por�m, disposto a deter a m�quina que p�s em movimento
com a cumplicidade da oligarquia colombiana.

A atmosfera de apreens�o que dominou a Reuni�o de C�pula de Bras�lia
� expressiva do receio de que as chamas ateadas na Col�mbia
ultrapassem as fronteiras daquele pais, abrasando o Continente.

Washington, mais uma vez, atua como aprendiz de feiticeiro. �
significativo que em diferentes capitais da Am�rica Latina,
sindicatos, intelectuais, estudantes, organiza��es camponesas
coincidam no temor de que o Plano Col�mbia se transforme em pr�logo
de um novo Vietn�.

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Miguel Urbano Rodrigues � jornalista portugu�s especializado em
an�lise pol�tica internacional. (06/Set/00)



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