O que estamos fazendo a
respeito???
Folha de S�o Paulo, 10 de Setembro de
2000.
ENTREVISTA COM O
PROCURADOR LUIZ FRANCISCO DE SOUZA
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Folha - Em 1993,
quando senhor entrou para o Minist�rio P�blico,
passava-lhe pela cabe�a a
id�ia de vir a ser retratado elogiosamente
no "The New York
Times"?
LF - � uma limita��o minha, mas nunca tive nas m�os um
exemplar
desse jornal. Essa reportagem n�o � importante por mim, mas
pela
conjuga��o de tr�s fatos. Valoriza o trabalho dos
procuradores.
Comprova que a imprensa � um fator vital para a
moraliza��o
administrativa. Mostra ao Governo o grau de ins�nia e m�-f� que
est�
embutido na sua tentativa de amorda�amento de procuradores,
ju�zes,
policiais e servidores p�blicos. Logo esse governo, que
est�
destruindo os mecanismos de controle do Estado. Desmantelaram
a
Secretaria Federal de Controle. Hoje, quem domina esse servi�o s�o
os
pr�prios ministros. Uma gracinha: o controlado controla o
controlador.
Est�o desmantelando a Receita Federal e agrilhoando os
auditores. O atual
governo tem a pior marca poss�vel no campo das
iniciativas para combater a
corrup��o. Quando o Advogado-Geral da
Uni�o diz que os procuradores usam
m�todos nazistas e s�o
Torquemadas, mostra que n�o sabe direito nem
hist�ria. Tanto
Torquemada quanto os nazistas estavam a servi�o dos
governos. Quando
entrei para o Minist�rio P�blico, como hoje, o que eu
queria era
ajudar a sociedade a se livrar da roubalheira, do
latif�ndio
grileiro, da domina��o imperialista e da explora��o dos
humildes. O
que est� adquirindo notoriedade � essa luta, que � de todos
os
brasileiros.
Folha - O senhor n�o se sente desconfort�vel quando
o "Times" o
elogia? Ele circula em Nova York. � l� que est� a Wall
Street.
LF - O imperialismo s�o umas 200 multinacionais, n�o � o
povo
americano. A base da economia dos Estados Unidos s�o 16 milh�es
de
pequenas empresas. Foi o "New York Times" que botou a boca no
mundo
no caso do assassinato de Chico Mendes. Nos Estados Unidos, a
figura
do promotor atuante � coisa corriqueira. O atual prefeito de
Nova
York, Rudolph Giuliani, foi promotor. As coisas que o
governo
brasileiro est� fazendo s�o in�ditas. Querem passar uma lei
pela
qual se eu disser que o ministro Rafael Greca administrou a
abertura
dos bingos de uma forma que permitiu que a m�fia controlasse
um
quinto das m�quinas ca�a-n�queis do pa�s, perco o emprego e posso
ser
condenado a pagar R$ 200 mil de multa e a tr�s anos de cadeia. O
que o
governo quer � a condena��o, mesmo depois de algu�m dizer uma
coisa e
provar. Isso � coisa de nazista, de torquemada. Nos Estados
Unidos um
auditor quebra o sigilo de um sonegador. A CIA n�o pode se
meter em
assuntos internos. aqui a Abin tem tr�s mil agentes. Para
qu�? Para
informar ao presidente. Para qu�? Para que o governo
controle as pessoas
por meio de dossi�s pol�ticos.
Folha - A notoriedade conquistada
pelos procuradores por meio da
imprensa n�o vai acabar prejudicando a
institui��o?
LF - A liga��o dos procuradores com a sociedade est�
botando os
ladr�es na cadeia. Jornalistas n�o gostam que a gente
mencione
listas de nomes, mas desculpe-me, vou desfilar a lista
dos
procuradores a quem devemos muito. Primeiro, corrigindo um
detalhe
da reportagem do "Times". N�o fui eu quem levantou o caso do TRT
de
S�o Paulo. Foram os Procuradores Maria Luiza Duarte, Isabel
Groba,
Ana L�cia Amaral, Janice Ascari e Jos� Meirelles. Os
atuais
procuradores n�o existiriam sem os exemplos de colegas mais
velhos,
como Sepulveda Pertence, Claudio Fontelles, Paulo de Tarso
dos
Santos, Antonio Fernando, Wagner Gon�alves, Jos� Roberto
Figueiredo
Santoro, acima de tudo, Alvaro Costa. Os procuradores de hoje
s�o
seus disc�pulos. Eles eram diferentes de n�s, talvez mais
retra�dos,
por recato. Nesse sentido deu-se uma mudan�a. Hoje a sociedade
quer
que os procuradores mostrem o que est�o fazendo. Quem n�o quer �
o
Governo, porque tanto nazistas quanto Torquemadas precisam de
segredo.
O problema � um s�: numa democracia, a sociedade controla
o governo e o
atual governo quer controlar a
sociedade.
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Luiz Francisco de
Souza, 38 anos, procurador da Rep�blica no
Distrito Federal.