Olá,
Ganhou valor histórico e vale a pena ler o relato abaixo escrito em 1964 pela
então jovem Raquel de Queiroz que participou como observadora das eleições
mecanizadas dos Estados Unidos.
A máquina de votar que ela descreve são máqinas mecânicas mas ao final ela fala
maravilhada sobre a rapidez da totalização dos votos feita por "cerebros
eletrônicos".
[ ]s
Amilcar Brunazo Filho
www.votoseguro.org
EU SEI EM QUEM VOTEI.
ELES TAMBÉM.
MAS SÓ ELES SABEM QUEM RECEBEU O MEU VOTO.
-------- Mensagem Original --------
*O Cruzeiro - 12 de dezembro de 1964
<http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro/121264su.htm>*.
*As eleições americanas (II)*
*Rachel de Queiroz*
CHEGA o dia da eleição e então é muito parecido com o nosso.
Curiosamente, contudo, aqui não é feriado para o comércio. As lojas
abertas, tudo funcionando normalmente. Grande calma nas ruas; mais
movimento nos bairros pobres. Por quê? porque nêles anda mais gente a
pé, e se deixa ver, enquanto nos bairros abastados só há o rolar
silencioso dos carros.
Assisto à eleição em St. Louis, Missouri, grande cidade às margens do
Mississipi. Primeiro nos levam a uma repartição que equivale mais ou
menos à nossa sede de zona eleitoral. Mas não tem juiz, tem um cidadão
que se diz /chairman/, chefe não sei bem de que. Para ali vão as pessoas
que, por qualquer motivo, não receberam o seu título de eleitor, ou
tiveram o seu nome exluído das listas eleitorais, ou sofreram qualquer
outro êrro ou omissão no seu direito de votar. Esperam nos guichês em
fila, pacientemente. Na maioria gente modesta, mal vestida. Pessoas de
côr. Se reclamam, o fazem em voz baixa, que nem parece reclamação. Lá
dentro uma espécie de barafunda calma, se posso dizer. Funcionários
andando depressa, abrindo fichários e gavetas, rabiscando listas,
colidindo, pedindo desculpa, mas sempre em voz sumida, sem barulho.
O /chairman/ nos mostra a máquina de votar e todo o seu mecanismo. E
aquela máquina tão falada, que parecia a solução para todos os problemas
eleitorais, decepciona a gente. É imensa, da altura de um homem, um
grande painel prêto com talvez umas cem manivelas, - e cada manivela
corresponde a um candidato. Nesta eleição de 1964 escolhia-se Presidente
da República, governador (em alguns Estados) senador, deputados
federais, deputados e às vêzes senadores estaduais, prefeitos,
vereadores, e mais todos os funcionários estaduais e municipais cuja
escolha aqui se faz por eleição, - juízes, promoteres, chefes de
polícia, xerifes etc. Cada partido apresenta lista completa e, a cada um
dos nomes, corresponde uma manivela própria. Como não há nomes na
máquina, só números, o eleitor leva consigo uma lista impressa e vai
votando. É verdade que há uma manivela geral para cada partido; se o
eleitor quer votar partidàriamente, é só puxar a manivela democrática,
ou republicana ou independente, e está pronto. Mas quem quer dividir o
voto - e nesta eleição a maioria o fêz em tôdas as combinações
possíveis, tem que escolher de um em um os números dos seus candidatos
na lista, depois os localizar na máquina, para então acionar a manivela
correspondente. É muito complicado e exaustivo, mormente para pessoas de
poucas letras, desabituadas a puxar tanto pela cabeça.
Aliás, as máquinas só funcionam nas cidades grandes. Nas cidades menores
e nas regiões rurais, o voto é de urna mesmo, como o nosso. É pelo menos
o que afirma o obsequioso /chairman/.
Levados pelas amáveis senhoras da “Liga Eleitoral Feminina”, vamos ver
como funcionam as seções eleitorais. Trata-se de instalação provisória
numa escola, numa igreja e até mesmo em prédio. A cabina de lona, lá
dentro a máquina. Na mesa eleitoral os mesmos presidente, mesários,
fiscais. Mas ao contrário do que se faz entre nós, não são voluntários
escolhidos pelo juiz eleitoral, porém funcionários, pagos para isso. E
ainda há, fora os que trabalham na mesa, um camarada que toma conta -
fica à porta, de chapéu e charuto, não sei bem sua função. Dentro do
recinto um ou dois policiais, para manter a ordem. O trabalho de procura
de nome na lista e verificação de assinatura é lento, sem muita
eficiência. Entra uma mãe de família com dois meninos que andam e um
terceiro no carrinho, mete-se tudo dentro da cabina, e Deus que me
perdoe se um dos garotos não puxou a manivela errada. Vem uma cega e um
dos mesários se levanta para a ajudar a votar: evidente que não pode ser
voto secreto; a cortina da cabina mantém-se erguida, a cega sussura ao
ouvido do funcionário e todo o mundo o vê segurar-lhe a mão e baixar a
manivela republicana. Votou no Goldwater, a tonta. Votou no sujeito que
pretende proibir o govêrno de dar ajuda a velhos e incapacitados, diz
alguém enquanto ela passa, com um arzinho de desafio, nariz para o ar.
Variando de local e de bairro - zona de /income/ (ou rendimento) baixo,
de rendimento médio, de rendimento alto, - lá dentro faz pouca
diferença: tôdas as seções se parecem. Do lado de fora, a uns cinqüenta
metros da porta, a velha propaganda, sempre presente, procurando
arrastar os indecisos de última hora. Trabalham lado a lado, democratas
e republicanos, aparentemente sem atritos. Os de Johnson se distinguem
pelo chapéu texano claro, de abas largas. Mas o material que distribuem,
junto com as listas eleitorais, é dos mais explosivos. Um de chapelão
oferece caricaturas de Goldwater surrando negros e chutando velhos, ou
com o capuz da Ku-Klux-Klan (alusão à lei dos direitos civis e à lei de
aposentadoria que Barry combate). E os rivais nos entregam papeluchos
idênticos, mas onde se vê o Presidente a abraçar o urso soviético, ou a
atirar pela janela os dólares do contribuinte. Um observador iugoslavo
que está no nosso grupo olha os boletins com cara admirada, mas não acha
graça.
Mas se a máquina de votar decepciona, se a rotina eleitoral é semelhante
à nossa, o sistema de apuração é realmente maravilhoso. Dizem que a
apuração é tôda feita por cérebros eletrônicos e tem que ser assim
mesmo, para garantir tal rapidez com tão imensa quantidade de votos e
computar. (Votaram êste ano nos Estados Unidos mais ou menos 70 milhões
de leitores - o equivalente ou pouco menos da população total do
Brasil). Antes da meia-noite já se sabe quem é o vencedor, no dia
seguinte já está tudo liquidado.
Novamente se concentra todo o mundo diante da TV para acompanhar os
resultados. Êste ano as estações de televisão americanas se reuniram e,
em vez de haver concorrência e disputa, trabalharam em equipe, cada
grupo encarregado de um determinado setor do território. Foi uma
cobertura perfeita, impressionante. Logo nas primeiras contagens
publicadas via-se que o Presidente ganhava, disparado. E às dez horas da
noite já era certo que Lyndon B. Johnson continuava na Casa Branca, não
mais cumprindo o resto de mandato do môço assassinado em Dallas, mas com
mandato seu, próprio, novinho em fôlha.
*Eleições americanas (II)
<http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro/12121964/rq0512.htm> |
Eleições americanas (III)
<http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro/12121964/rq1912.htm>*
*O Cruzeiro* on line é um trabalho de preservação histórica do site
*Memória Viva* <http://www.memoriaviva.digi.com.br>
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