Este texto é uma
colaboração aos companheiros (as) da Direção Nacional e do Partido, na
busca de alternativas para superar a crise que vive o PT. Como os
acontecimentos surpreendem dia após dia, datar este texto é importante: 25
de julho de 2005.
1 - Em menos de dois meses de ataques sistemáticos da oposição, fomos
achincalhados e jogados na defensiva completa. O símbolo mais recente
deste PT humilhado e atordoado foram os depoimentos de Delúbio Soares e
Sílvio Pereira na CPI. Ambos, militantes aguerridos desde a fundação e até
há pouco dirigentes de peso do PT, fizeram uma defesa jurídica, que foi um
desastre político. Eles se comportaram como réus submissos suportando as
ofensas e os deboches dos juízes do PFL, do PSDB, que posam como guardiões
da ética. Algo de muito grave aconteceu com o nosso PT. Ele está
irreconhecível.
2 - Membros da antiga direção do PT e talvez parlamentares, como provas
e indícios começam a sugerir, agiram ao contrário do que recomenda a boa
estratégia, na guerra ou na política, que é cortar os suprimentos dos
adversários. Através destas lideranças, o próprio PT forneceu os
suprimentos para nossos adversários nos atacarem. Os adversários não mais
contestam a nossa política econômica (até esqueceram dos juros e da carga
fiscal), não mostram mais interesse em atacar nossa política social
(esqueceram de falar de gastança em programas sociais ou de criticar o
Bolsa-Família), porque conseguiram abrir uma imensa brecha em nossa
muralha ética. É por aí que estamos perdendo a guerra.
3 - Como foi possível que alguns dirigentes desenvolvessem ações que
nada tem a ver com nossos princípios? Quando lhes foi dado o mandato para
arrecadar e distribuir recursos do jeito que fizeram? Quem lhes permitiu
terceirizar nossas finanças, colocando-as nas mãos de um aventureiro de
fora do partido, desconhecido de nós, e sem nenhum compromisso com a
história e os objetivos do PT? O que pensavam estes dirigentes quando
comprometeram com suas ações a militância e a imagem de tantos
companheiros? Quem agiu conscientemente, e quem foi envolvido de boa fé?
4 - Eis nosso drama: o PT não sabe o que os seus dirigentes fizeram.
Vale lembrar o que já dizia o mais conhecido dos clássicos sobre a guerra,
escrito há 2.500 anos: "Conhecer o outro e conhecer a si mesmo, em cem
batalhas nenhum perigo. (...) Não conhecer o outro e não conhecer a si
mesmo, em cada batalha uma derrota certa". Por isso é que estamos perdendo
todas: não conhecemos mais a nós mesmos. Nossos adversários é que nos
informam sobre nós, a cada dia, a cada semana, na CPI e na mídia. E, para
agravar a situação, de repente, perdemos a memória sobre o passado deles.
Quando o PFL através de ACM Neto, ou o PSDB através de Álvaro Dias, ou a
extrema esquerda através de Heloísa Helena, humilhavam Silvinho, Delúbio e
o PT, nenhum de nós conseguiu reagir para mostrar o grande rabo de palha
que todos eles têm.
5 - O PT, ferido, está cada vez mais desarticulado. O próprio Campo
Majoritário, que dava estabilidade às decisões partidárias, cindiu-se
(como se viu na questão crucial de Genoino permanecer ou não na
presidência do partido). As nossas bancadas no Congresso estão divididas
(como demonstraram na eleição da Mesa da Câmara e na decisão sobre a CPI).
E agora vem mais desagregação, patrocinada por nós mesmos, com o processo
de eleição das direções, o PED, que vários grupos não admitem adiar: são
milhares de chapas (nacionais, estaduais e municipais), se dedicando a
disputar entre si, quando as sirenes tocam emergência, e os tanques
adversários, já tendo rompido nossas defesas, estão entrando em nossa
cidade.
6 - Estamos perdendo de goleada a batalha pela opinião pública na
mídia. Há na maioria das empresas de comunicação uma ação deliberada para
corroer o capital político do PT e do governo. O conjunto da imprensa
entrou numa disputa de manchetes, na qual basta uma acusação ser
verossímil para virar notícia e ser replicada nos meios de comunicação. O
PT e seus militantes são culpados de antemão. Os outros partidos são
poupados, ou aparecem marginalmente nas acusações. As CPIs viraram um
espetáculo de mídia, onde PSDB, PFL, PMDB, e seus aliados, inclusive a
extrema esquerda, são os inquisidores e juízes de um PT sentado no banco
dos réus.
7 - A blitzkrieg da oposição, que já destruiu lideranças importantes de
nosso partido, vai continuar. Novos e grandes ataques se esperam. Os
adversários estão procurando colar a imagem de corrupção no partido em
todo o país. Vão continuar, com ou sem motivos, atacando parlamentares
nossos - em Brasília e nos estados - governadores, prefeitos, vereadores,
candidatos, dirigentes partidários, levantando acusações novas ou
requentando antigas. Seu objetivo é não nos dar fôlego, isolar-nos da
sociedade, provocar perdas entre nossos quadros, afastar aliados, abater
ainda mais o nosso ânimo de luta, para nos derrotar no momento em que
tiverem certeza de nossa incapacidade de resistir.
8 - Agora a guerra-relâmpago da oposição se volta rapidamente contra o
presidente Lula. Querem quebrar a confiança da sociedade na figura do
presidente. O objetivo é derrotar o nosso governo, agora, mais adiante, ou
nas eleições. A tendência principal é que seja nas eleições, por ser a
opção de menor risco para as elites econômicas e políticas brasileiras.
Para quê criar agora um cenário de incertezas e de lutas sociais,
desestabilizando a economia que está indo bem? Para quê a guerra de
destruição completa do exército adversário, com os perigos do ódio que lhe
será conseqüente, se é possível derrotá-lo de maneira mais econômica e
segura? Esta tendência principal de cozinhar em fogo brando se manifesta
principalmente quando alguns deles querem a capitulação de Lula, como fez
o ex-presidente FHC, sugerindo a ele desistir já agora da reeleição;
quando outros sustentam Lula porque não querem mexer na economia e nos
negócios que estão indo bem; ou o poupam porque não desejam na presidência
o vice José de Alencar, que poderia alterar a política econômica e ainda
se cacifar para a sucessão; ou quando simplesmente temem uma imprevisível
reação popular em defesa do presidente.
9 - No entanto, fiquemos no alerta máximo, pois no campo da política e
no campo pessoal, nem tudo é calculado e racional (como não foi calculado
e racional elegerem Severino Cavalcanti para presidente da Câmara). Forças
difíceis de segurar pelas próprias elites podem ser precipitadas por um ou
alguns outros Robertos Jeffersons; por um grande órgão de mídia que queira
passar para a história e os outros que não queiram ficar para trás; por
uma crise no Congresso nervoso onde um amplo leque pluripartidário aparece
envolvido; ou até por um acontecimento fortuito. O governo Lula, com a
perda de maioria parlamentar na Câmara, com as denúncias que enfraqueceram
intensamente o PT e atingiram o governo, está passando a depender, cada
vez mais, da boa vontade dos adversários. Poderíamos descrever assim a
situação atual: os nossos adversários reunidos entre si, numa sala
reservada, discutindo e decidindo sobre nosso destino, enquanto nós, do
lado de fora, aguardamos perplexos pelo seu veredicto. Ou, como se
estivéssemos num campeonato de futebol onde o rebaixamento ou não do nosso
time passa a depender apenas do resultado de jogos dos outros times.
10 - Apesar de grandes diferenças, é bom lembrar o comportamento das
elites nas vésperas do golpe militar de 1964. O presidente João Goulart,
cujo governo se sustentava numa aliança das elites nacionais com a força
política do PTB, com o movimento sindical e a esquerda, foi abandonado
pelas elites. Tentou então manter-se no poder apelando à mobilização de
seu partido, o PTB, dos trabalhadores e da esquerda. Já era tarde. A
intervenção militar não encontrou resistência consistente. Hoje a economia
vai bem (não era assim naquela época), o PT é um partido de grande
experiência de luta e está enraizado em todo o Brasil (o PTB não tinha
essa força), Lula é uma figura de fortes raízes populares e faz um bom
governo (Jango não tinha tanta força), os militares no Brasil e na América
Latina estão afastados da política (naquele tempo virara moda eles
intervirem nos governos). A grande semelhança está na força que as elites
nacionais continuam tendo na política brasileira. Hoje o golpe poderia vir
pelo Congresso, o que é mais complexo, mas não impossível.
FORMAR UMA DIREÇÃO AMPLIADA E DAR NOVO ÂNIMO AO PARTIDO
11 - O PT e o governo Lula não podem aguardar perplexos pelo veredicto
dos adversários. É hora de reagir, deter o avanço deles e reconquistar o
que for possível do terreno perdido. O debate que conta no PT é o que
fazer e como nos unir, de imediato, para isso. Todo o resto, neste
momento, é dispersão indevida de esforços.
12 - As únicas boas notícias recentes para nosso partido, entre tantas
más, foram as mudanças no comando nacional com a entrada de Tarso Genro,
Ricardo Berzoini, Humberto Costa, José Pimentel. E algumas medidas que a
nova Executiva Nacional tomou. A nova equipe na direção partidária renovou
a esperança dos petistas de enfrentar adequadamente a crise.
13 - A modificação parcial feita na Executiva Nacional - um início de
reação do partido, com bons resultados no ânimo militante - nos mostrou o
caminho. Propomos que o novo passo seja formar uma direção ampliada, de
emergência, para melhorar as condições de sair da crise. Esta direção de
emergência já precisa surgir na próxima reunião do Diretório Nacional.
Propomos que o Diretório transforme sua reunião em ampliada, com a
presença dos presidentes estaduais, dos ministros petistas, dos
parlamentares federais, dos governadores, com as principais lideranças
petistas do movimento sindical, dos movimentos populares, e da
intelectualidade, com representantes dos prefeitos, dos deputados
estaduais, dos vereadores. Cada um pagando sua passagem e estadia, em face
da aguda crise de finanças que vive o partido. Sem pretender direito a
voto, para não criar mais um complicador ou mais um motivo de disputa. Com
a pretensão exclusiva de contribuir e assumir tarefas na dramática luta
política atual. Seria adequado que este modelo de direção ampliada se
expandisse para estados e municípios, pois a cada passo, novas iniciativas
precisam mostrar a vitalidade de recuperação do partido, injetar novo
ânimo aos militantes, filiados e simpatizantes.
14 - Quanto aos nossos companheiros que são acusados, não vamos
condená-los só porque são acusados, nem vamos municiar os adversários para
condená-los, mas temos que pedir a eles um grande espírito de sacrifício
pelo partido que ajudaram a criar. Na medida em que aparecem fortes
indícios de erros graves que cometeram, temos que pedir-lhes que se
afastem de qualquer cargo dirigente, apesar de sua brilhante história, de
sua importante liderança, de sua contribuição na construção do partido. E
que, em casos extremos, se afastem do próprio partido. É uma questão de
sobrevivência do PT e de seu papel no país.
15 - Quanto ao processo de eleição das direções, marcado para 18 de
setembro, embora a medida mais correta, em face da situação, seria adiar o
PED até a superação da crise, a posição possível agora é a que tiver apoio
entre a maior parte dos grupos que o disputam. Como a divergência é um dos
elementos integrantes e debilitadores em qualquer crise, não devemos
agravar nossa situação criando impasses. É improvável a concordância de
todos em tudo, pois algumas lideranças já perderam sua confiança no PT,
preparam-se para migrar em direção a outros partidos, aproveitando o PED
para, com o apoio logístico e os debates do partido, enfraquecê-lo ainda
mais por dentro, e convencer outros a aderirem a seus objetivos.
16 - Cabe-nos ainda agir para prevenir e minorar o efeito de futuras
crises, como fazíamos durante a campanha eleitoral. O comitê anticrise
criado pela nova Executiva certamente fará, com dirigentes nacionais e
pessoas bem preparadas, o levantamento de informações que podem ser usadas
contra nós, o mapeamento do terreno e das armadilhas que poderemos ter
pela frente, seja para desativá-las, seja para diminuir a intensidade do
estrago possível.
17 - Daqui para frente, precisamos criar, e divulgar que criamos, novos
mecanismos de controle da prática partidária. Entre eles, uma
Controladoria Interna, que auxilie as direções partidárias na detecção e
correção de atividades contrárias às normas partidárias e nocivas às
políticas definidas pelos órgãos partidários. As atuais comissões de ética
não dão conta desta tarefa, pois só agem após os fatos acontecidos.
18 - Precisamos retomar, e divulgar que retomamos, hábitos mais
econômicos, dentro da realidade de arrecadação possível. Chega de
pressionar por recursos as direções partidárias, como havia virado prática
(uma das razões indutoras da gestão temerária de finanças que ocorreu no
partido). E nada de acumular reservas para campanhas longe dos períodos
eleitorais. A experiência da política brasileira e mundial mostra que o
caminho inicial da corrupção pode ser um objetivo político a atingir,
transformado depois, diante das facilidades, numa ocasião de proveito
pessoal. O PT ainda está bastante preservado neste aspecto, apesar de más
notícias recentes.
19 - Por sua vez, as alianças precisam ter afinidade nos objetivos, ao
menos da conjuntura, e os princípios da ética na política devem ser
referencial obrigatório e condição clara presente nos acordos eleitorais e
de governabilidade que fizermos. Não vale a pena tentar acordos com
políticos marcados por práticas não recomendáveis. Nosso governo federal,
e todos os outros governos nossos, devem imediatamente reiterar estas
condições éticas para as alianças presentes e para a relação com a sua
base parlamentar.
CONTRA-ATACAR PARA GARANTIR O GOVERNO LULA
20 - Agora e rapidamente é essencial contra-atacar. Precisamos deixar
claro à sociedade que, a partir de erros de um grupo de companheiros,
formou-se uma campanha para destruir o governo Lula e suas conquistas, e
destruir o PT que é sua principal base de sustentação. Precisamos mostrar
que, enquanto nossos adversários nos põem ao avesso, eles mantêm uma
blindagem, no Congresso e na mídia, sobre as suas práticas nos processos
eleitorais, nos governos, nas alianças. Vamos relevantar e lembrar todos
os principais casos de corrupção de nossos adversários (em especial do
governo Fernando Henrique, dos governos e políticos do PSDB, do PFL e de
seus aliados). Vamos mostrar que eles querem voltar ao poder, se
aproveitar dele como já o fizeram, e lá defender os interesses das elites.
21 - O desafio é como fazer nosso contra-ataque de um modo eficaz,
amplo, sistemático, na hora em que a mídia descarrega sobre nós. O caminho
é resgatar o que aprendemos em nossa experiência de comunicação com os
filiados e com o povo, mesmo sem o apoio da mídia.
22 - Precisamos começar pela remobilização de nossa militância,
urgentemente. Para isso, A Direção Nacional deve municiar a militância com
um corpo formulado e sempre atualizado de argumentos, disponibilizados em
vários formatos jornalísticos (standard, tablóide, ofício, cartaz, etc),
para que os diretórios e os mandatos do PT possam reproduzi-los e os
distribuir. A reprodução deste material precisa ser uma tarefa partidária
de todos os diretórios, que organizem seus dirigentes e militantes para
discuti-los e distribuí-los sistematicamente, ao menos uma vez por semana.
23 - Vamos reagrupar para isso a militância do PT, dos movimentos
sociais, os segmentos da população beneficiados pelas políticas sociais de
nosso governo. Vamos começar por um processo de mobilização interna, com
reuniões, comitês, atos em recinto fechado. O objetivo é depois alcançar
as ruas com atos públicos, encontrando formas e fatos que repercutam na
grande mídia ou na mídia local.
24 - Vamos trabalhar agora em defesa do governo Lula e do PT como se
estivéssemos na maior de nossas batalhas eleitorais. Uma batalha eleitoral
sem candidatos.
(*) Prefeito de Guarulhos.