Uma coisa é certa: independentemente de qualquer fraude, o segundo turno
foi decidido - em certa escala - pelo "analfabItismo" dos eleitores de
Lula, especialmente nos rincões do interior do Nordeste.
O artigo abaixo tangencia o assunto. Fiz um comentário no site
aprofundando o tema.

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Ousadia e risco
Consultor Jurídico previu que haveria segundo turno
por Márcio Chaer

Entre o momento em que uma reportagem é planejada e a hora que seu texto
vai ao ar, leva algum tempo. Nos dias que antecederam a eleição de domingo
(1º/10), era impossível afirmar qual seria o desfecho do pleito. Na noite
de sábado, dois institutos de pesquisa (Ibope e Datafolha) sinalizaram um
empate entre Lula e Alckmin.

Frios, os números, aparentemente, não permitiam mais que palpites. O clima
era o mesmo que antecede a maior parte dos grandes julgamentos: a
possibilidade de vitória de cada parte era de 50%.

Este site, contudo, cometeu uma aparente irresponsabilidade. Em dois
textos (Empate perdido: Lula ganha mas não leva no primeiro turno e
Matemática eleitoral: segundo turno está nas mãos dos nordestinos), a
revista eletrônica Consultor Jurídico mostrou algo que os números dos
institutos não mostravam: a distância entre o que o pesquisador apura com
a prancheta na mão e a prática do voto na urna eletrônica. O primeiro
texto foi ao ar à tarde — antes da divulgação das pesquisas — o segundo à
noite, depois de se saber dos números. Ambos com o mesmo teor.

O mérito do acerto na previsão é do cientista político Antônio Lavareda
autor de obras importantes como A Democracia nas Urnas: o Processo
Partidário Eleitoral Brasileiro, a fonte certa para o assunto. Mas não
deixa de homenagear também quem acertou na escolha do Consultor.

É esse fator que diferencia um veículo de comunicação de outro: as opções
que faz. Mas, principalmente, o respeito ao leitor. Um respeito que não se
mostra com adjetivos, mas com lealdade, mesmo diante do desafio arriscado
de veicular notícias delicadas. Vencer esse desafio é o ponto alto da
missão de bem informar.

Ainda que soe estranho gabar-se por uma previsão que não se verifica
exatamente no campo jurídico, cabe o registro de um exemplo do paradigma
que perseguimos: antecipar tendências, entregar ao leitor que confia no
seu veículo de comunicação o que ele procura — informação estratégica,
confiável e segura.

A tal margem de erro (de 2% a 3%) para cima e para baixo, com índices em
torno de 50% para cada lado não dizia muita coisa. Era cara ou coroa nas
24 horas que antecederam a eleição.

Ovo em pé

Com as lições de Lavareda, contudo, o site mergulhou na interpretação
humana dos números. A fatia mais gorda do eleitorado lulista se encontrava
no Norte e no Nordeste, encantada com os auxílios monetários que o governo
providenciou ao longo da gestão. A chamada “taxa de alienação” (soma das
abstenções, votos nulos e em branco), que vigora em todo o país, grita
mais alto exatamente nesse universo.

Com essa leitura, mesmo considerando que 70% desses bolsões preferiam Lula
— num conjunto em que se encontram 27% dos eleitores brasileiros —
constatou-se que o fato de a média da alienação norte-nordestina ser dez
pontos percentuais acima da média nacional, refletiria no débito de 2% da
votação petista. Ou seja: se os institutos mostravam 50% das intenções de
voto em Lula, a realidade o deixaria com 2% a menos na vida real.

O fator lamentável a apontar não tem a ver com a frustração da ausência de
Lula no principal debate programado nem com a repercussão das
transgressões petistas com o seu famigerado dinheiro “sem origem”. Mas com
um dado da cruel da realidade: os brasileiros de baixa instrução e baixa
renda simplesmente erram na hora de digitar seus votos — e era preciso
acertar 21 números para expressar a vontade do eleitor, o que não é fácil
para qualquer um.

Um fator desprezado na análise, contudo, acabou ameaçando essa leitura. A
campanha do TSE (Vota Brasil), provavelmente (e vai aí uma dose de dedução
pouco científica), atingiu seu objetivo. A soma de votos nulos
(intencionais ou não), em branco e abstenções caiu bastante em relação ao
parâmetro mais recente (as eleições de 2002). Mais um dado a ser
considerado nas futuras eleições.

O presidente do TSE, ministro Marco Aurélio, personagem de proa do
Judiciário nacional — apesar da fúria contra ele por parte dos mais
desinformados — captou, logo ao assumir o cargo, que a frustração do
eleitorado, somada à redução da propaganda política, poderia redundar num
alto índice de votos inválidos e abstenções. E empreendeu uma sincera
campanha contra essa onda. Se correta a análise, bem ao revés do que
protestaram muitos petistas, Marco Aurélio terá livrado Lula de uma sova.

Em relação às eleições de 2002, houve uma redução da taxa de alienação. No
campo do voto nulo, a fatia caiu de 7,35% para 5,68%; os votos em branco
baixaram de 3,03% para 2,73% e as abstenções que na eleição passada foram
de 17,75% caíram para 16,75%. Ou seja, a alienação baixou de 28,13% para
25,16% na média nacional. Pode parecer pouco, mas esses 3% são quase 4
milhões de eleitores que, comparecendo e votando fazem grande diferença.
Da mesma forma que, encerrada a votação, pode não parecer muita coisa ter
dado a informação certa na hora certa. Mas é o tipo de referencial que
credencia um veículo de comunicação perante seus leitores.

Revista Consultor Jurídico, 3 de outubro de 2006

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Meu comentário:

Paulo Gustavo Sampaio Andrade (Advogado Autônomo - - ) 04/10/2006 - 09:58
Diferentemente da declaração de imposto de renda pessoa física - em que o
uso do método informatizado é opcional -, na votação é obrigatório o uso
das urnas eletrônicas, mesmo para aquelas pessoas que não têm qualquer
intimidade com meios informatizados.

Basta passar alguns minutos em frente a terminais de auto-atendimento
(caixas eletrônicos) de qualquer banco para constatar que boa parte dos
usuários precisa de ajuda para obter um simples extrato de sua conta - e
olhe que se trata de uma tarefa rotineira. Obrigar tais pessoas a votar,
sozinhas, em uma máquina com a qual só têm contato de 2 em 2 anos, é uma
temeridade.

De forma semelhante à extensão do direito de voto aos analfabetos, a
introdução da urna eletrônica fez surgir uma nova categoria de eleitores:
os "analfabits".

Sou presidente de seção numa capital nordestina, numa região da cidade que
nem é das mais pobres, mas percebo claramente que pelo menos 5% dos
eleitores (na maioria idosos, mas também pessoas de menor grau de
instrução) saem do recinto sem ter a menor idéia de em quem votaram. Nós,
mesários, temos que fazer malabarismos para tentar ensinar a estes
eleitores a votar, decifrando os sons emitidos pela maquininha e
informando a ordem correta de digitação dos números. Neste ano, devido ao
grande número de cargos em disputa, alguns eleitores chegaram a demorar
mais de cinco minutos votando.

Muitos eleitores na fila reclamaram, pedindo que os mesários encerrassem a
votação desses eleitores, suprimindo-lhes o direito ao voto. Contudo, não
é esta minha interpretação. Esses eleitores não devem ser discriminados,
pois têm peso igual a qualquer outro e merecem concluir seu voto no tempo
que for necessário para que possam exercer seu direito. Não podemos
suprimir o direito de eleitores com dificuldades com a informática se o
país não lhes deu o direito à educação e a Justiça Eleitoral não
desenvolveu meios mais eficazes para que tais eleitores recebam um
tratamento especial.



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