Olá,
Embora eu seja suspeito para elogiar, já que sou citado de forma
positiva, achei exemplar este artigo do Marcelo Soares.
Devia ser matéria dada em curso de jornalismo eleitoral.
O artigo está em:
http://deunojornal.zip.net/arch2007-01-21_2007-01-27.html#2007_01-22_17_44_45-10284078-0.
junto com outros artigos e o texto segue abaixo.
[ ]s
Eng. Amilcar Brunazo Filho - Santos, SP
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Segunda-feira , 22 de Janeiro de 2007
Uma questão técnica e três inversões de lógica
Depois de mais de um mês sendo coberto apenas pelo jornal do maior
interessado no assunto (O Jornal, de João Lyra, candidato derrotado a
governador), o caso das falhas das urnas eletrônicas nas eleições deste
ano em Alagoas ganhou dimensão nacional após reportagem da Veja a
respeito, publicada no sábado. Todos os principais jornais repercutiram.
Este blog já tinha tecido comentários a respeito no dia 4 de janeiro.
O cruel da coisa toda é que o TSE só topou pedir uma perícia nas urnas
alagoanas depois que a questão se nacionalizou. Houve outros casos, que
não chegaram às revistas semanais, que foram solenemente deixados de
lado nos últimos anos. Como o TSE regulamenta, executa e julga as
eleições, é compreensível que relute em aceitar questionamentos sobre a
pièce de resistance digital de seu trabalho. Mas recentes problemas com
o voto eletrônico nos EUA sugeririam maior atenção.
Um dos assuntos mais complicados de cobrir, no jornalismo político, é a
questão da segurança da urna eletrônica. Isso porque para cobri-lo
direito o jornalista tem que fugir de três características muito comuns
do jornalismo político:
1) A fonte institucionalmente mais importante não é a melhor.
Quando entrevistado, qualquer ministro do TSE vai dizer que a urna
eletrônica é perfeitamente segura. Porque é isso que a lei diz que ela
deve ser, e sendo juízes os ministros conhecem a fundo a lei (aliás: o
advogado de Lyra é ex-ministro do TSE). O problema é que a questão
envolve informática, essa ciência arcana para tantos jornalistas. Quando
eu fazia reportagens sobre a urna, as melhores fontes que entrevistei no
TSE para obter informações sobre como o aparelho funciona (até mesmo
para rebater críticas tecnicamente, não politicamente) foram os técnicos
de informática responsáveis pelo sistema.
[Aliás, para enriquecer o folclore político em torno da urna
eletrônica, cabe registrar que, logo após as eleições de 2006, o
ex-ministro do TSE Edison Vidigal, então coordenador de campanha
eleitoral no Maranhão, questionou a segurança das urnas. Quando
presidente do tribunal, em 2004, louvava a segurança da urna, fazendo
reparos apenas ao cadastro eleitoral. Ele só descobriu as fragilidades
depois de sair do tribunal? Já sabia antes? Ou aproveitou o ensejo para
usar a urna como bode expiatório de perdedor?]
2) A notícia não está no Gre-Nal. Não adianta muito ouvir o
candidato supostamente beneficiado, até porque ele vai negar
peremptoriamente (como acontece hoje no noticiário publicado). Os
personagens políticos importam pouco. A notícia não está em quem foi
beneficiado ou prejudicado pela falha da urna, e sim na natureza e
efeitos da falha. Mesmo que a falha não tenha natureza fraudulenta para
deliberadamente favorecer alguém, ainda assim é grave. Muitos votos são
simplesmente desconsiderados nas urnas atingidas pela falha, o que no
mínimo arranha o princípio defendido em campanhas da própria Justiça
Eleitoral segundo o qual a participação de cada cidadão por meio do voto
é fundamental. Como funciona a fiscalização por parte dos partidos?
Aliás, funciona? Na eleição de 2000, vários fiscais de partido preferiam
ficar tomando cafezinho nos botecos em frente ao TRE-SP a acompanhar a
apuração, já que o computador faz tudo sozinho...
3) Não adianta ouvir os intelectuais de sempre. Os cientistas
políticos, estrelas do noticiário eleitoral, serão de muito pouca valia
para ajudar a compreender a situação, que é mais técnica do que
política. Advogados especializados em questões eleitorais também não
ajudarão muito. Mas o japonês que conserta os computadores de sua
redação pode ser muito mais útil para mostrar algum contexto da situação
e ajudar a elaborar boas perguntas. Certa vez, entrevistei um perito da
Polícia Civil especializado em crimes eletrônicos, e foi muito
interessante. E é importantíssimo ouvir os peritos responsáveis pelas
avaliações da urna. Neste link está o estudo feito por Clóvis Torres
Fernandes, do ITA, sobre o caso alagoano. É o estudo que embasa a
reportagem da Veja. Amilcar Brunazo Filho, que participou da equipe que
impugnou as urnas alagoanas, é uma ótima fonte porque está debruçado há
anos sobre o assunto.
Para resumir minha contribuição ao debate: se a cobertura do caso ficar
restrita ao jornalismo declaratório, não vai avançar um milímetro além
do diz-que-diz.
Escrito por Marcelo Soares às 18h44
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