Kika, olá.
Bem vista a tua observação. Aliás já faz um tempão que eu dizia que
isso era possível. Como ninguém sabe como funciona essas maquinetas,
muito menos a população menos favorizada, basta o chefe da quadrilha
local anunciar aos eleitores sob seu controle que o pessoal dele vê tudo
o que se passa naquela telinha que fica na mesa. E que se o sujeito não
votar como ele manda, ai, ai, ai... Dai basta matar uns dois ou três
como "exemplo", mesmo sem saber em quem eles de fato votaram, para que
o resto da população acredite firme como pedra de que a quadrilha sabe
mesmo tudo o que se passa no momento do voto eletrônico.
Isso é um bom exemplo da distância entre as. talvez boas. intenções
iniciais de engenheiros quando confrontadas à realidade. Creio que, no
melhor dos casos, esse projeto de urna-e brasileiro é uma tentativa de
impor uma ordem via um dispositivo que deveria funcionar e assegurar o
exercício do voto no país APESAR do povo que nele habita. Donde o
projeto é contraditório por definição, além de fascista na raiz. E
felizmente gente é gente, sempre encontra um meio para desvirtuar coisas
desse gênero, mesmo se nesse exemplo sejam os bandidos que se aproveitem
mais. Existem outros exemplos, como o pessoal que clona a urna, coloca a
fajuta na seção de voto e carrega a boa. A criatividade humana não tem
limites, para o bem ou para o mau, por isso a única solução é a de se
educar esse povo. O resto, são projetos fascistas utópicos de controlar
melhor o rebanho de 1/3 da população de desnutridos e desdentados, se
possível com alguma aparência de democracia...
Abraços,
Paulo.
Amilcar Brunazo Filho a écrit :
Ao Paulo,
Uma única observação eu gostaria de fazer em relação ao seu texto.
O voto de cabresto no Brasil independe da forma de votar. Ocorria com
o voto manual e continua ocorrendo com o voto eletrônico.
Eu analisei dados de pequenas cidades no interior nordestino e
encontrei casos de 90% de votos para um só candidato a deputado na
eleição eletrônica de 2006. Não tenho dúvida que se procurar em
favelas, como você sugeriu, também se encontrará casos similares.
A identificação eletrônica do eleitor na mesma máquina em que vota
serve até para aumentar a pressão sobre o eleitor desinformado
explorando a idéia que o seu voto será identificado.
No meu livro, eu apresento o caso documentado de exploração em massa
deste erro do nosso sistema, que ocorreu em 1998 no Rio Grande do Sul.
[ ]s
Amilcar
Paulo Mora de Freitas escreveu:
Chadel, bom dia.
Tive a ocasião de discutir algumas vezes com o Pierre sobre isso. O
que ele pensa é que, PELO MENOS NA FRANCA, o voto impresso é uma
solução aos problemas da não solução de um não-problema. Isso porque
na França o voto tradicional com cédulas em papel não levanta
dúvidas, é bem aceito pela população. Já a introdução do voto
eletrônico não apresenta nenhum avanço, só desvantagens para o
eleitor. Donde conclusão, ele defende a volta pura e simples ao voto
em papel.
Já as prefeituras que introduziram essas máquinas de votar alegam que
sim, que existem algumas vantagens, a principal sendo econômica.
Alegam as prefeituras que cada vez mais anda difícil de se encontrar
voluntários para a contagem dos votos de cada urna ao final do dia,
por essa razão as prefeituras são obrigadas a empregar pessoas para
essa tarefa. Segundo essas prefeituras, ao longo do tempo o custo
dessas máquinas de votar seria amortizado rapidamente, levando-se a
uma economia para a cidade. Ou seja, a primeira coisa a se levar em
conta é que a opinião do Pierre não é necessariamente a opinião de
todos os franceses sobre esse assunto. Pessoalmente eu penso que não
é introduzindo cadgets tecnológicos que se revolve problemas de fundo
como esse, de perda de consciência cívica pela população. Fariam
melhor em investir em campanhas cívicas para mobilizar os cidadãos
quanto à importância do processo de voto.
A segunda coisa bastante importante, o Pierre tem a honestidade
intelectual de não se pronunciar sobre outros casos em outros países.
Creio que fica difícil de se afirmar tranqüilamente que o sistema
tradicional de votos com cédulas de papel no Brasil não apresentava
alguns problemas. Dimensões diferentes, História e cultura
diferentes, composição sócio-econômica diferentes, leis (voto
obrigatório no Brasil, por exemplo) e organização diferentes... o
Brasil não é a França, tanto para o melhor quanto para o pior.
Apesar de todas as críticas que temos às urnas eletrônicas
brasileiras e à maneira que se comporta o TSE, temos de convir que um
mundo de tradicionais maneiras de fraudar localmente as eleições
desapareceram com essas arapucas do TSE. Era tão tradicional no
Brasil que já fazia parte da cultura popular. No interior dos estados
os fazendeiros buscavam literalmente de caminhão a peãozada para
votar nos candidatos deles, o voto de cabresto já fazia parte dos
usos e costumes da nação. E não precisa ir tão longe, basta dar um
pulo na favela a mais próxima da tua casa e você verá como se passa
uma eleição onde o chefe dos traficantes local vendeu os votos da
favela para alguns político (aliás prática igualmente utilizada por
todos os partidos sem exceção, inclusive PT, informação de alguém de
dentro do partido...).
Ou seja: essa frase, embora de efeito, exige uma certa reflexão antes
de ser aplicada ao caso brasileiro.
Abraços,
Paulo.
Roger Chadel a écrit :
Eu escrevi uma mensagem longa numa lista de voto eletrônico da França
a respeito das eleições francesas e terminei dizendo que a França
tinha uma grande vantagem sobre o Brasil: lá a escolha do método de
voto é feita pelas prefeituras, dando chance à população de fazer
pressão para que a escolha recaia sobre modelos que imprimem o voto
verificado pelo eleitor.
O Pierre Muller, aquele do www.recul-democratique.org
<http://www.recul-democratique.org>, que agora mudou
o nome para www.ordinateurs-de-vote.org
<http://www.ordinateurs-de-vote.org>, respondeu. Traduzindo
rapidamente, é isso:
É muito tarde para desenvolver uma argumentação complexa, então vou
responder por uma fórmula que vem da Holanda: o voto eletrônico é uma
não-solução problemática para um não-problema. Mandar imprimir um voto
é procurar uma solução aos problemas da não solução de um
não-problema. Um pouco complicado, não? Será que precisamos realmente
do voto eletrônico?
Mesmo os EUA desistem da impressão do voto, como a Flórida que se
volta agora para os scanners de verdadeiras cédulas de papel. Os
problemas informáticos e legislativos não desaparecem por milagre, mas
pelo menos o papel pre-existe à informática, o que é mais sadio.
A respeito do Brasil, e de um aspecto largamente igorado tanto lá
quanto cá, a acessibilidade:
http://www.ordinateurs-de-vote.org/L-ergonomie-dans-l-enjeu.html
Trata-se de um artigo sobre a ergonomia, escrito por Gabriel Michel,
Equipe Transdisciplinar sobre a Interação e a Cognição, Universidade
Paul Verlaine, Metz e Walter Cybis De Abreu, Laboratorio de
Utilizabilidade, Universidade Federal de Santa Catarina
...
--
Paulo Mora de Freitas - Laboratoire Leprince-Ringuet
Responsable du Service informatique du L.L.R.
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