| |
Escândalos que não aparecem
MARIA AUGUSTA TIBIRIÇÁ MIRANDA
Presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (Modecon)
É difícil abrirmos um jornal atualmente - ou ouvimos
um telejornal - sem que nos estarreçamos diante de fatos
da maior gravidade. Eles preenchem páginas e páginas
dos diários ou revistas, ocupam os noticiários de
TV e mantêm a população mobilizada. Isto é
perfeitamente compreensível, e mesmo desejável, especialmente
quando os personagens são grandes caciques da política.
Todavia, o que nos intriga é que, por mais que os fatos se
aproximem da Presidência da República, nunca a atingem.
Eduardo Jorge era secretário de FHC. Todas as acusações
pararam nele. Agora, vemos o líder do Governo no Senado,
o senador José Roberto Arruda, infringir frontalmente uma
norma ética e moral, aparentemente apenas envolvido com o
senador Antônio Carlos Magalhães, sem que a sua liderança,
ou seja, o Governo - mais claramente, FHC - participasse ou usufruísse
da lista de votação. Mais, e pior: só ousasse
a exigir a completa apuração de fatos que, obviamente,
não poderia desconhecer! Afinal de contas, para que serve
um líder de Governo?
Esta linha de raciocínio nos leva mais longe: por que a obstinada
obstrução do Governo a uma CPI da corrupção?
Isto não engrandece a sua imagem!
Poderíamos - e até deveríamos - ir mais longe,
recordando o episódio tão comentado da compra de votos
para a reeleição.
'Aranjos'.
Muitos comentários poderiam ser feitos quanto ao episódio
do painel. Inclusive os abertos "arranjos" para uma renúncia
salvadora dos direitos políticos dos implicados. Outra pergunta:
como fica a parte mais fraca, a funcionária Regina Célia
Pereira Borges? "Obediência devida"? Episódios
recentes da ditadura nos fizeram lembrar dessa frase. Por falar
nisso, se o painel do Senado pode ser violado, por que não
as urnas eletrônicas? As eleições vêm
aí.
Na realidade, estamos certos de que toda essa grande cortina - que
tem de ser desvendada - encobre problemas mais sérios, como
as privatizações indiscriminadas de estatais rentáveis
e estratégicas; da cega obediência do Governo aos ditames
do FMI, com graves prejuízos para o Brasil e seu povo; com
a Alca, que só interessa aos EUA e já derrubou de
seu cargo o brioso embaixador Samuel Pinheiro Guimarães que,
de peito aberto, a condenou, embora em caráter apenas pessoal,
na defesa do seu país.
Espaços.
Destes e de outros problemas de grande monta, a mídia pouco
fala. Se os mesmos espaços fossem abertos, não teríamos
ouvido a célebre revelação estarrecedora: "Estamos
vendendo o Brasil", do ministro Mendonça de Barros em
seu depoimento ao Senado em 1998. Na ocasião, retruquei no
Jornal da ABI: "nós, que vimos denunciando o crime de
lesa-Pátria que se comete com as privatizações
indiscriminadas - Barbosa Lima Sobrinho à frente - confirmamos
que eles (leia-se Governo) sabem o que fazem: estão vendendo
o Brasil. Mais exatamente: doando o Brasil. Isto ainda não
confessaram". Mais adiante voltamos ao tema, que é o
de hoje: "Desde Collor de Mello, os governos acentuaram sua
fidelidade às normas do FMI, do neoliberalismo. FHC se destaca,
impedindo investigações e conseqüente transparência,
nas privatizações. No recente episódio dá
força total para a apuração... de quem instalou
os grampos. O mérito do problema nem é com ele! Esforçou-se
para manter o seu amigo ministro, mas não deu! Rolaram cabeças.
E o presidente, também apontado nas fitas gravadas, como
fica? Fica? E os empresários comprometidos, são intocáveis?"
Essas considerações que fiz em 1988 estão atualíssimas.
No final da apuração de todos esses escândalos,
como fica FHC? Na posição de Deus? Deus que me perdoe!
|
|