> [Weber Figueiredo:] Não sabia do ocorrido na Unicamp.
Pois é, a universidade obviamente não colocou isso no portal dela.
Mas a tanto a escolha inicial pela votação eletronica quanto a
volta ao papel foram discutidas e votadas no Conselho, e está tudo
verbatim nas atas. Se tiver tempo vou procurar e postar os
trechos relevantes.
Aliás, a universidade fez uma sindicância interna para apurar as
causas do fiasco (no início havia suspeita de sabotagem); mas o
resultado nunca foi divulgado, nem entre os membros do Conselho.
A história que eu ouvi é a seguinte. A entrada de votos seria feita
através de um PC instalado em cada faculdade. Para diminuir o risco de
fraude externa ou sabotagem (tipo alguém apertar CTRL-ALT-DEL, ou
plantar vírus no PC), o software de votação era butado de CD-ROM, e
logo de cara desabilitava o teclado. A votação seria feita toda com o
mouse: o eleitor usaria um teclado simulado na tela para digitar seu
número funcional, senha, e número do candidato.
A estréia do sistema seria a votação dos representantes de
funcionários não-docentes no Conselho (uns 8000 eleitores no total,
dos quais metade na área médico-hospitalar). Era uma votação
politicamente delicada, pois os representanets de funcionários são
tradicionalmente líderes sindicais, e o centro de computação da
universidade é subordinado a um pró-reitor que já foi administrador do
hospital, e que tem com esses líderes uma relação de ódio mútuo.
(Aliás, a única troca de insultos pessoais que presenciei nos meus 4
anos de reuniões do Conselho foi justamente entre esses dois.)
Um diretor (não eu) ofereceu sua faculdade para fazer uma votação
simulada, como de teste final do sistema. Esse teste foi um sucesso. A
comissão encarregada (da qual eu, obviamente, não fazia parte) então
aprovou o sistema, com todos os devidos rituais e assinaturas.
No dia da votação real, entretanto, o sistema deu pau. Não vi
pessoalmente o que aconteceu, pois a votação começou às 06:00 da manhã
no hospital, a fim de atender os enfermeiros do turno da noite. Ouvi
dizer que a máquina travava, e/ou que o funcionário digitava um número
com o mouse e aparecia outro (ou tudo zero) na tela. Enfim ninguém
conseguiu votar. Todas as outras unidades foram avisadas para adiar o
início da votação das 09:00 para as 11:00, depois para as 13:00, e no
fim a votação foi cancelada.
A explicação que ouvi (só boatos, nada oficial) é que, *depois* do
teste de votação simulada e da aprovação do softwre pela comissão,
alguém decidiu "reforçar" o software com uma rotina de criptografia. E
foi aí que o Murphy atacou.
Ou seja, o software que estava rodando no dia da votação não era o que
rodou no teste simulado e que foi aprovado pela comissão. Sorte nossa
que a pane foi visível. Se o efeito do bug fosse mais sutil --- por
exemplo trocar os votos de dois candidatos, quebrar o sigilo do voto,
ou desabilitar a verificação da senha --- ninguém teria percebido.
Ouvi dizer que um funcionário do CPD recebeu uma punição
administrativa por conta desse fiasco. Claro que os gênios que
encomendaram e aprovaram esse sistema não foram nem sequer revelados,
quanto mais punidos...
Esse sistema na verdade havia sido desenvolvido para substituir o voto
em papel tradicionalmente usado na eleição para reitor --- que
aconteceria dali a poucas semanas, e prometia ser muito mais delicada.
Porém, depois desse fiasco, até mesmo os faxineiros analfabetos se
deram conta da facilidade com que esse tipo de sistema poderia ser ser
adulterado para desviar votos, sem ninguém perceber. A eleição para
representantes funcionais no Conselho foi refeita em papel, vinte dias
depois; e o Conselho, com apenas alguns protestos, decidiu manter o
método tradicional também na votação para reitor.
Por outro lado, há muitos anos que a eleição de representantes
*docentes* ao Conselho tem sido feita via internet. Até 2008 era usado
outro sistema, bem mais simples e antigo. Nesse sistema, a votação
também é feita em um PC dedicado em cada faculdade, plugado na rede
comum do prédio, e a totalização é centralizada no CPD da
universidade. Porém nesse sistema não há software local; a interface é
um browser WWW comum rodando sobre o Windows padrão. (Pode rir à
vontade...)
Desde o caso do "laudo da Unicamp" eu tenho me recusado a
votar nesse sistema, e em cada eleição entrego uma carta
de protesto/justificativa ao Reitor (que naturalmente é ignorada).
Duas vezes no Conselho argumentei contra o uso desse sistema,
mas sempre fui o único voto contra.
A última eleição de representantes docentes aconteceu antes do
fiasco acima, portanto ainda via internet. Não sei o que
vai acontecer nas próximas.
> [Weber Figueiredo:] Aqui na Uerj não travou.
O milagre ainda pode acontecer aí também.
Reze com mais fé.... 8-)
--stolfi
--
Jorge Stolfi
Full Professor/Professor Titular
Instituto de Computação/Institute of Computing
UNICAMP
--
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O Forum do Voto-E visa debater a confibilidade dos sistemas
eleitorais informatizados, em especial o brasileiro, e dos
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