Com cumprimentos

 

Posso saber em quem votei? 

 

Adriano Benayon * 20.10.2014

 

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, o Brasil tenta
sobrenadar num mar formado pela caudal dos factoides e da desinformação,
combinada com a avalanche da exploração de preconceitos ideológicos.

 

2. Para não nos afogarmos, é conveniente estar atentos aos fatos, pois estes
costumam receber dois tipos de tratamento da grande mídia, das cúpulas
profissionais e mesmo da maioria dos acadêmicos: a) ser deliberadamente
ocultados e, assim, ignorados por muitos; b) ser errônea e/ou
incompletamente contados, além de deformados, ao serem interpretados em seu
conjunto.

 

3. Um fato importante é que a urna eletrônica “brasileira” não é, nem um
pouco, confiável, pois ela depende  do programa (software), sendo impossível
detectar qualquer fraude nele inserida. 

 

4. Baseio-me no que tem sido demonstrado por professores de ciência da
computação, da mais inquestionável competência.

 

5. Eles explicam que, sem mudar para urnas de geração mais avançada,  o
próprio voto impresso, a última linha de defesa dos que pugnam  por eleições
livres, só possibilitaria comprovar, por amostragem, ter havido fraude em
determinada seção ou zona eleitoral.

 

6.  Mas os tribunais eleitorais não admitem sequer a impressão do voto, e o
próprio STF chegou a ponto de considerá-la inconstitucional, alegando que
isso quebraria o sigilo do voto, princípio constitucional com valor de
cláusula pétrea.

 

7. Ora, para assegurar o sigilo, basta que o eleitor guarde o impresso, para
eventual conferência,  do mesmo modo que, antes da eletrônica, não ficava
dizendo em quem votou, se não quisesse.  

 

8. A Revolução de 1930 instituiu eleições livres, causa justa para derrubar
a República Velha: o País clamava por acabar com o voto de cabresto, no
contexto socioeconômico semicolonial descrito no clássico de Victor Nunes
Leal, Coronelismo, Enxada e Voto.

 

9. Contava-se então esta estória: um fazendeiro chama os peões e
distribui-lhes papeis dobrados em envelopes para colocar na urna. Um dos
peões pergunta ao patrão se poderia saber o que está escrito no papel.
Resposta: “Não pode, não. Você não sabe que o voto é secreto?”

 

10. Seria de valia para quem deseja conhecer a questão, acessar o site
<http://www.votoseguro.org> www.votoseguro.org e ler a ata de reunião da CCJ
da Câmara dos Deputados, de 08.05.2012, na qual falaram os principais
especialistas em  segurança eletrônica do País.

 

11. Há um excelente resumo (12.05.2012) desses depoimentos por Osvaldo
Maneschy, que começa assim: 

Na audiência pública para discutir se o voto eletrônico deve ser impresso ou
não, na última terça 8/5, na CCJ da Câmara, ficou claro: o TSE bate de
frente com os especialistas em informática que garantem que a impressão é a
única forma de tornar segura a urna eletrônica que usamos no
<http://www.fraudeurnaseletronicas.com.br/2012/05/prof-diego-aranha-da-unb-c
onfirma-urna.html> Brasil, de 1ª geração, ultrapassada, diferentemente de
máquinas modernas – como a urna eletrônica argentina, de 3ª. geração - que
imprime o voto e permite que o eleitor o confira.”

 

12. Maneschy cita o o professor Diego Aranha,  hoje na UNICAMP, e que fizera
importante demonstração pública disto: “Tivemos apenas uma hora de
<http://www.fraudeurnaseletronicas.com.br/2012/05/prof-diego-aranha-da-unb-c
onfirma-urna.html> acesso ao código-fonte da urna eletrônica brasileira, mas
foi tempo suficiente para quebrarmos o único dispositivo que ela usa para
garantir o sigilo do voto.”

 

13. Aranha foi, na UNB, aluno do Prof. Pedro Rezende. Este, em um de seus
artigos magistrais, publicado no Observatório da Imprensa, 15.04.2014,
esclarece que um sistema eletrônico de votação como o do TSE, baseado em
urna modelo DRE, caracterizado por não permitir recontagem dos votos,
potencializa ao máximo os problemas decorrentes da informatização, por
implicar dependência absoluta em relação ao software.

 

14. Rezende  cita pesquisas da agência oficial dos EUA, U.S. Election
Assistance Commission, (diretrizes
<http://www.eac.gov/testing_and_certification/voluntary_voting_system_guidel
ines_fact_sheet.aspx> VVSG - Voluntary Voting System Guidelines) e o Brennan
Report, da Universidade de Nova York. 

 

15. Elas descrevem 128 formas de fraude em sistemas de votação eletrônica e
recomendam a diretriz VVPAT (Voter-Verifiable Paper Audit Trail), que dota o
sistema de trilha de auditoria com registro material de cada voto,
verificável  pelo eleitor.  

 

16. Esse registro serve para entrada do voto eletrônico na urna, em cujo
modo é escaneado, ou como saída do voto eletrônico, em cujo modo é impresso;
depois, para depósito manual ou automático, para possível auditoria. 

 

17. Ainda Rezende: “Dos países que  testaram ou usaram sistema baseado em
urna DRE ... todos, à exceção do Brasil, já a abandonaram. Bélgica, Russia,
Índia, EUA, Canadá, México, Venezuela, Peru, Equador, Argentina usaram e
trocaram ou adaptaram seus sistemas para algum modo VVPAT. Por fim, EUA
Israel, Equador e Argentina, em eleições locais ou regionais, já usaram ou
usam sistema E2E, cujas trilhas virtual e material de contagem e de
auditoria dos votos são interdependentes.”

 

18. Outro expoente da matéria, o  Eng. Amilcar Brunazo Filho diz:  “O
eleitor argentino pode ver e conferir o conteúdo do registro digital do seu
voto. O eleitor brasileiro não pode!. No Brasil, o voto é secreto até para o
próprio eleitor.”

19. Não é aceitável, portanto, a postura do STF, TSE e muitos TREs, que têm
indeferido pedidos de se demonstrar, perante essas autoridades, a completa
vulnerabilidade da urna eletrônica à fraude.

 

20. Menos ainda, que ministros do STF tenham interferido no poder
legislativo, seja para impedir a aprovação do voto impresso, seja para
cassá-lo, quando leis foram promulgadas para assegurá-lo.

 

21. Em 2004, Nelson Jobim, então presidente do STF, fez convocar reunião de
líderes da Câmara dos Deputados, na qual os intimidou (todo político tem
processos nas altas cortes),  para, por voto de liderança, decidirem
suprimir da lei a impressão do voto.

 

22. Chegou a viger, mas quase não chegou a ser aplicada,  Lei do Voto
Impresso, de autoria do Senador Requião, e, em 2009, foi promulgada  por
Lula, lei dos deputados Brizola Neto e Flávio Dino, que teve este destino,
selado pelo STF, em 06.11.2013: 

“O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a
inconstitucionalidade do artigo 5º da Lei 12.034/2009, que cria o voto
impresso a partir das eleições de 2014. Na sessão plenária realizada nesta
quarta-feira (6), os ministros confirmaram, em definitivo, liminar concedida
pela Corte em outubro de 2011, na qual foram suspensos os efeitos do
dispositivo questionado pela Procuradoria Geral da República (PGR) na Ação
Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4543.”

23. Após o 1º Turno das Eleições de 2014, o que já era mais que suspeito,
tornou-se flagrante. Nunca se viram discrepâncias tão grandes entre as
pesquisas de boca de urna e os resultados finais.

24. Em geral, a favor dos candidatos afinados com o sistema de poder
comandado pelas oligarquias financeiras mundial e local,  e em prejuízo dos
políticos com currículo de defesa dos interesses nacionais, como Requião, ou
críticos de sustentáculos daquele sistema (Globo), como o mesmo e Garotinho.

25. O professor Gustavo Castañon, da UF Juiz de Fora,  publicou em “O
Viomundo”, 11.10.2014, artigo em que define a ‘urna eletrônica brasileira’
como a única do mundo totalmente invulnerável à fiscalização.

26. Castañon assinala que o
<http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/10/07/interna_politica,57701
3/credibilidade-dos-institutos-de-pesquisa-ficou-abalada.shtml>  resultado
de Aécio foi muito além da margem de erro do Ibope, 1,5% além do previsto, e
o de Dilma, aquém, 2,5%. Aécio tinha 99% de chances de ter entre 28% e 32%
dos votos. Teve 33,5%. 

 

27. O outro “erro” foi com os índices de Dilma. Ela teve 0,5% para menos,
além da margem de erro. Castañon: “A chance de isso acontecer é  bem menor
do que 0,005 x 0,005:  menor que 0,000025.”

 

28. Resumindo Castañon:
<http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/10/07/interna_politica,57701
3/credibilidade-dos-institutos-de-pesquisa-ficou-abalada.shtml> Resultados
virtualmente impossíveis aconteceram em todo o País. A avalanche absurda de
40,4% em Sartori no RS, por exemplo, quando a boca de urna previa 29%. Esta
dava Genro (PT) 35%, Sartori (PMDB) 29%, Amélia (PP) 26%. As urnas deram
Sartori 40,4%, Genro 32,5% e Amélia 21,7%. Não existem espaços na linha para
os zeros necessários para expressar a probabilidade de isso ter ocorrido por
acaso.

 

29. Olívio Dutra, no RS, perdeu a vaga no Senado, depois de
<http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2014/noticia/2014/10/ibop
e-explica-diferenca-da-boca-de-urna-para-resultado-da-eleicao-no-rs.html> a
boca de urna ter indicado sua vitória por 6 pontos percentuais de diferença.
No RJ,
<http://noticias.terra.com.br/eleicoes/rio-de-janeiro/boca-de-urna-indica-2-
turno-entre-pezao-e-garotinho-no-rj,7cff71baf66d8410VgnVCM3000009af154d0RCRD
.html>  8% dos votos parecem ter sido transferidos de Garotinho para Pezão e
Crivella. Pezão teve mais 6% e Crivella mais de 2%, acima da margem de erro.


 

30. Pergunta, ainda, Castañon: Por que será que temos o Congresso eleito
mais fisiológico de todos os tempos?   E afirma: “O estado das coisas se
torna mais chocante com a
<http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/09/26/burburinho-por-que-o-job
im-nao-quer-conferir-o-voto-para-fraudar/> quantidade de denúncias de
<http://quemtemmedodolula.blogspot.co.uk/2010/10/houve-auditoria-do-software
-das-urnas.html> fraude abafadas pela imprensa e o fato de o
<http://quemtemmedodolula.blogspot.co.uk/2010/10/houve-auditoria-do-software
-das-urnas.html> TSE ter terceirizado a operação das urnas nesta eleição de
2014 para empresas privadas.”

31. Ele conclui: ”só restam duas possibilidades: ou o Ibope fraudou as
pesquisas de boca de urna e arruinou voluntariamente sua reputação, ou o
Brasil viveu sua maior e mais escandalosa fraude até hoje. Escolha que
teoria da conspiração lhe parece mais racional, porque é só o que tem pra
hoje.”. 

* - Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização
versus Desenvolvimento.

 

 

 

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