*Carta a Letícia Sabatella :: De Ciro Gomes *

Letícia, ando meio quieto por estes tempos, mas, ao ver você visitando o
bispo em greve de fome no interior da Bahia, pensei que você deveria
considerar algumas informações e reflexões. Poderia começar lhe falando de
República, democracia, personalismo, messianismo... Mas, sendo você a pessoa
especial que é, desnecessário. O projeto de integração de bacias do Rio São
Francisco aos rios secos do Nordeste setentrional atingiu, depois de muitos
debates e alguns aperfeiçoamentos, uma forma em que é possível afirmar que,
ao beneficiar 12 milhões de pessoas da região mais pobre do país, não
prejudicará rigorosamente nenhuma pessoa, qualquer que seja o ponto de vista
que se queira considerar.

Séria e bem intencionada como você é, Letícia, além de grande artista,
peço-lhe paciência para ler os seguintes números: o Rio São Francisco tem
uma vazão média de 3.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!) e sua vazão mínima é
de 1.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!). Isto mesmo, a cada segundo de
relógio, o Rio despeja no mar este imenso volume de água.

O projeto de integração de bacia, equivocadamente chamado de transposição,
pretende retirar do Rio no máximo 63 metros cúbicos por segundo. Na verdade,
só se retirará este volume se o rio estiver botando uma cheia, o que
acontece numa média de cada cinco anos. Este pequeno volume é suficiente
para garantia do abastecimento humano de 12 milhões de pessoas.

O rio tem sido agredido há 500 anos. Só agora começou o programa de sua
revitalização, e é o único rio brasileiro com um programa como este graças
ao pacto político necessário para viabilizar o projeto de integração.

No semi-árido do Nordeste setentrional, onde fui criado, a disponibilidade
segura de água hoje é de apenas cerca de 550 metros cúbicos por pessoa, por
ANO (!). E a sustentabilidade da vida humana pelos padrões da ONU é de que
cada ser humano precisa de, no mínimo, 1.500 metros cúbicos de água por ano.
Nosso povo lá, portanto, dispõe de apenas um terço da quantidade de água
mínima necessária para sobreviver.

Não por acaso, creia, Letícia, é nesta região o endereço de origem de
milhões de famílias partidas pela migração. Converse com os garçons,
serventes de pedreiros ou com a maioria dos favelados do Rio e de São Paulo.
Eles lhe darão testemunhos muito mais comoventes que o meu.

Tudo que estou lhe dizendo foi apurado em 4 anos de debates populares e
discussões técnicas. Só na CNBB fui duas vezes debater o projeto.. Apesar de
convidado especialmente, o bispo Cappio não foi. Noutro debate por ele
solicitado, depois da primeira greve de fome, no palácio do Planalto, ele
também não foi. E, numa audiência com o presidente Lula, ele foi, mas disse
ao presidente, depois de eu ter apresentado o projeto por mais de uma hora
(ele calado o tempo inteiro), que não estava interessado em discutir o
projeto, mas "um plano completo para o semi-árido".

As coisas em relação a este assunto estão assim: muitos milhões de pessoas
no semi-árido (vá lá ver agora o auge da estiagem) desejam ardorosamente
este projeto,esperam por ele há séculos. Alguns poucos milhões concentrados
nos estados ribeirinhos ao Rio não o querem. A maioria de muitos milhões de
brasileiros fora da região está entre a perplexidade e a desinformação pura
e simples. Como se deve proceder numa democracia republicana num caso como
este?

O conflito de interesses é inerente a uma sociedade tão brutalmente desigual
quanto a nossa. Só o amor aos ritos democráticos, a compaixão genuína para
entender e respeitar as demandas de todos e procurar equacioná-las com
inteligência, respeito, tolerância, diálogo e respeito às instituições
coletivas nos salvarão da selvageria que já é grande demais entre nós.

Por mais nobres que sejam seus motivos - e são, no mínimo, equivocados -, o
bispo Cappio não tem direito de fazer a Nação de refém de sua ameaça de
suicídio. Qualquer vida é preciosa demais para ser usada como termo
autoritário, personalista e messiânico de constrangimento à República e a
suas legítimas instituições.

Proponho a você, se posso, Letícia: vá ao bispo Cappio, rogue a ele que
suspenda seu ato unilateral e que venha, ou mande aquele que lhe aconselha
no assunto, fazer um debate num local público do Rio ou de São Paulo.
Imagine se um bispo a favor do projeto resolver entrar em greve de fome
exigindo a pronta realização do projeto. Quem nós escolheríamos para morrer?
Isto evidencia a necessidade urgente deste debate fraterno e respeitoso.
Manda um abraço para os extraordinários e queridos Osmar Prado e Wagner
Moura e, por favor, partilhe com eles esta cartinha. Patrícia tem meus
telefones. Um beijo fraterno do

Ciro Gomes

CIRO GOMES é deputado federal (PSB-CE) e foi ministro da Integração.

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