O frade dom Luiz Cappio, que conhece bem a região onde pastoreia. Em artigo reproduzido na Folha de S. Paulo em 12/12/2007<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1212200709.htm>, ele diz o seguinte:
"O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco. O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco. A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seriíssimos impactos ambientais e sociais. Esses números são dos EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente), públicos por lei, já que, na internet, o governo só colocou peças publicitárias. (...) Os destinos da transposição os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para uso industrial, 4% para população difusa". Com esses dados, encontrados no Rima<http://www.integracao.gov.br/saofrancisco/integracao/rima.asp>, as considerações daquele grupo de técnicos que se reuniu em Workshop começam a ganhar sentido e o custo parece mais oneroso que o benefício... Em contrapartida, o bispo de 61 anos que resolveu apelar para um protesto milenar e pacífico, como o do não-cristão Ghandi na Índia, oferece uma saída para o problema da seca nordestina que sairia pela metade do preço das obras de transposição do São Francisco, não afetaria o rio, não traria impactos negativos para o meio ambiente e descentralizaria a distribuição das águas, precavendo-se contra o histórico do Nordeste que só beneficia aos seus coronéis: "Temos um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço previsto no PAC para a transposição. O Atlas Nordeste da ANA (Agência Nacional de Águas) e as iniciativas da ASA (Articulação do Semi-Árido) são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido." Sobre esse projeto, o editor da Contraponto, César Benjamin, escreveu artigo publicado nesta quinta-feira no Estadão<http://txt.estado.com.br/editorias/2007/12/20/opi-1.93.29.20071220.3.1.xml>: "O Semi-Árido Brasileiro é imenso: 912 mil km2. É populoso: 22 milhões de pessoas no meio rural. É o mais chuvoso do planeta: 750 mm/ano, em média, o que corresponde a 760 bilhões de metros cúbicos de chuvas por ano. Não é verdade, pois, que falte água ali. A natureza a fornece, mas ela é desperdiçada: as águas evaporam rapidamente, sob o sol forte, ou vão logo embora, escorrendo ligeiras sobre o solo cristalino impermeável. (...) Centenas de organizações sociais, apoiadas pela Igreja Católica e por outras igrejas, adotaram o conceito de convivência com a natureza e desenvolveram in loco cerca de 40 técnicas inteligentes, baratas e eficientes para armazenar a água da chuva. Ela é suficiente – corresponde a quase 800 vezes o volume d'água da transposição –, mas cai concentrada num curto período do ano. Para oferecer isso à população sertaneja é preciso realizar a reforma agrária e construir uma malha de aproximadamente 6,6 milhões de pequenas obras: duas cisternas no pé das casas, para consumo humano, uma usual e outra de segurança; mais 2,2 milhões de recipientes para reter água de uso agropecuário. No conjunto, é uma obra gigantesca, mas desconcentrada. A proposta tem respaldo técnico da Agência Nacional de Águas (ANA), que realizou um minucioso diagnóstico hídrico de 1.356 municípios nordestinos, abrangendo um universo de 44 milhões de pessoas, pois inclui os centros urbanos. As obras propostas pela ANA, pelas igrejas e pelas entidades da sociedade civil resolvem a questão da segurança hídrica das populações. Estão orçadas em R$ 3,6 bilhões, a metade do custo inicial da transposição do São Francisco." Isso explica o desespero de dom Luiz Cappio para barrar uma decisão do Estado. Achar que é burrice o governo colocar em risco um patrimônio ecológico pelo duvidoso benefício da distribuição centralizada de águas para a população nordestina. Duvidoso porque, como já colocado, não é garantido. Mas o Supremo liberou as obras na quarta-feira, dia em que o bispo passou mal e foi para o UTI. Dom Cappio desistiu do jejum, o assunto vai morrer na imprensa e, pouco a pouco, a obra de R$ 4,5 bilhões, anunciada como a maior obra do governo Lula, será colocada nos eixos (e ninguém duvide que, no fim, terá custado o dobro ou o triplo disso, conforme o histórico das obras públicas). Ela terá 14 lotes, com 700 quilômetros de canais de concreto, divididos nos eixos Norte e Leste. Nesta quinta, o Ministério da Integração Nacional já publicou no Diário Oficial da União o resultado da concorrência para a execução das obras do primeiro lote. E quem venceu foi o consórcio Águas do São Francisco, das empresas Carioca, S.A. Paulista e Serveng. Eu nunca consegui chegar a uma posição definitiva sobre esse assunto polêmico, já que sempre li argumentos muito fortes de ambos os lados e meus conhecimentos técnicos de bacias hidrográficas beiram à decoreba escolar. Mas a greve de fome de dom Luiz Cappio me levou a, pelo menos, um posicionamento firme: o de que é preciso discutir ainda mais as implicações do projeto e de que o governo precisa oferecer garantias e repensar em soluções alternativas antes de depositar quase R$ 300 milhões nas contas dessas empreiteiras que vão canalizar o primeiro lote do nosso Velho Chico. Ou o que veremos será apenas reprise do que ocorreu com o Projeto Jaíba, à margem do São Francisco, no Norte de Minas. Foi iniciado na década de 70 pelo governo militar de Geisel e não terminou até hoje. Já custou o quádruplo do orçado inicialmente e, no meio do caminho, por imposição do Japão e do Banco Mundial, teve que rever suas metas sociais, redistribuindo as terras antes concentradas em grandes grupos agrícolas, para obter novos financiamentos. Em 17/01/08, Chl <[EMAIL PROTECTED]> escreveu: > > > > > *Carta a Letícia Sabatella :: De Ciro Gomes * > > Letícia, ando meio quieto por estes tempos, mas, ao ver você visitando o > bispo em greve de fome no interior da Bahia, pensei que você deveria > considerar algumas informações e reflexões. Poderia começar lhe falando de > República, democracia, personalismo, messianismo... Mas, sendo você a pessoa > especial que é, desnecessário. O projeto de integração de bacias do Rio São > Francisco aos rios secos do Nordeste setentrional atingiu, depois de muitos > debates e alguns aperfeiçoamentos, uma forma em que é possível afirmar que, > ao beneficiar 12 milhões de pessoas da região mais pobre do país, não > prejudicará rigorosamente nenhuma pessoa, qualquer que seja o ponto de vista > que se queira considerar. > > Séria e bem intencionada como você é, Letícia, além de grande artista, > peço-lhe paciência para ler os seguintes números: o Rio São Francisco tem > uma vazão média de 3.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!) e sua vazão mínima > é de 1.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!). Isto mesmo, a cada segundo de > relógio, o Rio despeja no mar este imenso volume de água. > > O projeto de integração de bacia, equivocadamente chamado de transposição, > pretende retirar do Rio no máximo 63 metros cúbicos por segundo. Na verdade, > só se retirará este volume se o rio estiver botando uma cheia, o que > acontece numa média de cada cinco anos. Este pequeno volume é suficiente > para garantia do abastecimento humano de 12 milhões de pessoas. > > O rio tem sido agredido há 500 anos. Só agora começou o programa de sua > revitalização, e é o único rio brasileiro com um programa como este graças > ao pacto político necessário para viabilizar o projeto de integração. > > No semi-árido do Nordeste setentrional, onde fui criado, a disponibilidade > segura de água hoje é de apenas cerca de 550 metros cúbicos por pessoa, por > ANO (!). E a sustentabilidade da vida humana pelos padrões da ONU é de que > cada ser humano precisa de, no mínimo, 1.500 metros cúbicos de água por > ano. Nosso povo lá, portanto, dispõe de apenas um terço da quantidade de > água mínima necessária para sobreviver. > > Não por acaso, creia, Letícia, é nesta região o endereço de origem de > milhões de famílias partidas pela migração. Converse com os garçons, > serventes de pedreiros ou com a maioria dos favelados do Rio e de São Paulo. > Eles lhe darão testemunhos muito mais comoventes que o meu. > > Tudo que estou lhe dizendo foi apurado em 4 anos de debates populares e > discussões técnicas. Só na CNBB fui duas vezes debater o projeto.. Apesar de > convidado especialmente, o bispo Cappio não foi. Noutro debate por ele > solicitado, depois da primeira greve de fome, no palácio do Planalto, ele > também não foi. E, numa audiência com o presidente Lula, ele foi, mas disse > ao presidente, depois de eu ter apresentado o projeto por mais de uma hora > (ele calado o tempo inteiro), que não estava interessado em discutir o > projeto, mas "um plano completo para o semi-árido". > > As coisas em relação a este assunto estão assim: muitos milhões de pessoas > no semi-árido (vá lá ver agora o auge da estiagem) desejam ardorosamente > este projeto,esperam por ele há séculos. Alguns poucos milhões concentrados > nos estados ribeirinhos ao Rio não o querem. A maioria de muitos milhões de > brasileiros fora da região está entre a perplexidade e a desinformação pura > e simples. Como se deve proceder numa democracia republicana num caso como > este? > > O conflito de interesses é inerente a uma sociedade tão brutalmente > desigual quanto a nossa. Só o amor aos ritos democráticos, a compaixão > genuína para entender e respeitar as demandas de todos e procurar > equacioná-las com inteligência, respeito, tolerância, diálogo e respeito às > instituições coletivas nos salvarão da selvageria que já é grande demais > entre nós. > > Por mais nobres que sejam seus motivos - e são, no mínimo, equivocados -, > o bispo Cappio não tem direito de fazer a Nação de refém de sua ameaça de > suicídio. Qualquer vida é preciosa demais para ser usada como termo > autoritário, personalista e messiânico de constrangimento à República e a > suas legítimas instituições. > > Proponho a você, se posso, Letícia: vá ao bispo Cappio, rogue a ele que > suspenda seu ato unilateral e que venha, ou mande aquele que lhe aconselha > no assunto, fazer um debate num local público do Rio ou de São Paulo. > Imagine se um bispo a favor do projeto resolver entrar em greve de fome > exigindo a pronta realização do projeto. Quem nós escolheríamos para morrer? > Isto evidencia a necessidade urgente deste debate fraterno e respeitoso. > Manda um abraço para os extraordinários e queridos Osmar Prado e Wagner > Moura e, por favor, partilhe com eles esta cartinha. Patrícia tem meus > telefones. Um beijo fraterno do > > Ciro Gomes > > CIRO GOMES é deputado federal (PSB-CE) e foi ministro da Integração. > > > -- ÿØÿà Oswald'Ørf
