Razões técnicas contra a trasnposição do São Francisco
 Por . 04/12/2007 às 22:44

 Entenda a atitude do Frei Luiz. Conheça as razões técnicas contra a
transposição e a favor de alternativas viáveis.

 [a greve de Luiz Cappio e de mais 6 senhoras de Sobradinho deveria ser
matéria de centro do CMI. Fica a sugestão]

A água vai se concentrar nas mãos de quem menos precisa.

- Da forma como o projeto de transposição foi colocado, ele atenderá
diretamente a apenas 5% da superfície do semi-árido. Nenhuma das barragens
da região do Seridó, por exemplo, onde o quadro das secas é mais acentuado
no Rio Grande do Norte, receberá as águas da transposição.

- O problema do semi-árido nordestino não é a falta de água nos Estados
envolvidos no projeto e sim a má distribuição, que não deixa a água chegar a
quem mais precisa. A transposição não resolve isso. Com ela, a água será
levada, basicamente, para reservatórios que atendem às áreas urbanas ou às
grandes produções irrigadas, e não até as cidades mais remotas, no sertão.


Um volume exorbitante de recursos escoando dos cofres públicos.

A Agência Nacional de Águas (ANA) concedeu o direito de outorga por 20 anos
ao Ministério da Integração Nacional para executar o projeto de
transposição, que tem o custo estimado pelo Governo Federal de R$ 4,5
bilhões. Porém, é realmente possível que esse custo chegue aos R$ 20
bilhões.

Além disso, a operação do sistema de transposição terá um custo anual de
cerca de
R$ 80 a R$ 100 milhões por ano, divididos entre os quatro Estados
beneficiários do projeto: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.
Esse volume enorme de recursos vai comprometer grande parte dos
investimentos dos próximos governos, sem melhorar, de fato, o quadro de seca
na região.


E quem vai pagar a conta?

- O projeto vai elevar o preço das tarifas de água e luz para a população,
em função
dos altos custos de operação e manutenção do sistema. Hoje, no Nordeste, a
água bruta não é cobrada e as famílias da região pagam apenas pelo
bombeamento da fonte de suprimento até a área agrícola. Com a transposição,
o custo da água será, no mínimo, 5 a 6 vezes maior do que os valores
atualmente praticados na região.

- No Rio Jaguaribe, no Ceará, existe um grande número de produtores
vazanteiros, que abastecem as feiras das regiões mais humildes,
aproveitando-se da irrigação natural propiciada pelas cheias anuais do rio.
Com o projeto de transposição, será liberada mais água dos açudes no
Jaguaribe, como a barragem do Castanhão, o que vai impedir a produção dessa
horticultura excepcional e o abastecimento local.

- O São Francisco responde por 95% da energia elétrica do Nordeste. Com a
transposição, a região vai perder cerca de 1% dessa produção. A saída para
não
haver falta de energia será a composição com energia termoelétrica, o que
implica
na construção de uma usina local. Só que as usinas dessa categoria entram na
cláusula
de energia emergencial, ou seja, todo mundo terá que bancar os custos desse
tapa-buraco.


Quem vai administrar a distribuição e a cobrança da água?

O papel do Governo Federal está restrito à construção da obra e à definição
da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) como gestora do projeto.
O acerto final dos critérios e das formas como a água será distribuída e
cobrada dos usuários ficará a cargo das companhias estaduais de
abastecimento, o que envolve muitos interesses diferentes, e até opostos.


Há dezenas de projetos inacabados por descaso do Governo Federal.

Antes de tudo, é preciso concluir as dezenas de obras inacabadas ou quase
destruídas em função da má gestão. Há cerca de 180 mil hectares de projetos
de irrigação paralisados na bacia do São Francisco, aguardando recursos,
além de vários outros que estão sendo iniciados.


Jogo de interesses.

- 70% dos açudes públicos do Nordeste não estão disponíveis para a
população. Ou seja, assim, como no que se refere à reforma agrária, a
influência político-econômica na distribuição da água certamente exercerá
grande força.

- As águas da transposição vão passar por muitas terras, de muitos
proprietários, o que, novamente, envolverá uma luta de interesses. Para
começar qualquer projeto desse nível é necessário fazer também a
regularização fundiária na região.

- Com tantos argumentos contra a transposição, fica claro que o projeto só
está seguindo adiante como uma forma de enganar a opinião pública para
fortalecer, em 2006, o presidente Lula em uma possível disputa pela
reeleição ou o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, em uma eventual
candidatura ao governo do Ceará. Parece um projeto feito sob encomenda para
as empreiteiras, que tem como objetivo beneficiar a indústria e a
agricultura exportadora da região, e não matar a sede do povo nordestino e
dos animais.

- O Ibama já está em vias de liberar o início da transposição, porém, sem
levar
em conta a opinião e as necessidades das 34 comunidades indígenas e das 153
quilombolas que estão na área de abrangência do projeto.


O Banco Mundial e outros Estados da região estão contra o projeto.

- A pedido do Governo Federal, o Banco Mundial analisou a viabilidade do
projeto e sugeriu o adiamento da transposição, indicando que os recursos
orçamentários deveriam ser investidos em sistemas de abastecimento locais,
como a construção de mais adutoras e de cisternas para captação de água das
chuvas; na revitalização do São Francisco e no fortalecimento do projeto
Proágua Semi-Árido, que tem como objetivo garantir a ampliação da oferta de
água de boa qualidade.

- Os Estados de Sergipe, Alagoas e Bahia são contrários ao projeto. Este
último coloca-se contra com base nos estudos elaborados pelo Centro de
Recursos Ambientais, pela Superintendência de Recursos Hídricos e pela
Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, todos da Bahia.


É preciso revitalizar o rio antes de distribuir suas águas.

- O São Francisco está muito poluído pelo esgoto e pelos agrotóxicos
despejados incessantemente. Para se ter uma idéia, dos 504 municípios que
fazem parte da
bacia do São Francisco, apenas 132 possuem obras de abastecimento de água e
só 78 municípios dispõem de serviço de saneamento básico. Tornar o rio
saudável
é prioridade.

- Outros problemas sérios: o uso inadequado do solo, com os grandes projetos
de agricultura; o desmatamento grave na Bahia para a obtenção de carvão,
provocado pelo avanço das siderúrgicas do Quadrilátero Ferrífero, no norte
de Minas.

- Não há mais cheias no baixo São Francisco, o que prejudica muito a
reprodução dos peixes. Além disso, 18 milhões de toneladas de terra por ano
são despejadas no leito do rio e contribuem ainda mais para o seu
assoreamento. A reconstituição das matas ciliares é a alternativa mais
correta para barrar o assoreamento.


A perda de água com a transposição.

A evaporação no semi-árido é três vezes maior que a precipitação. A cada 4
litros armazenados, 3 evaporam. É por isso que em países como a África do
Sul os reservatórios são tampados e, em Israel, a água é transportada por
meio de tubulações de alta pressão.


As transposições que não deram certo.

- A China e a Índia usaram o método da transposição quando não tinham
nenhuma alternativa. Hoje, ambos enfrentam problemas de racionalização dos
recursos hídricos e precisam investir no revestimento e na retificação dos
canais para diminuir as perdas com a evaporação e a infiltração.

- Na Espanha, o Aqueduto Tejo-Segura não conseguiu atingir seus objetivos e
precisou de uma demanda maior de água, forçando a construção de novos
projetos
de transposição.

- No Peru, o projeto Chavimochic, que retira água do Rio Santa, tem graves
problemas de salinização do solo e de manejo da irrigação. Outra questão foi
a escolha do sistema de amortização da tarifa de água para sustentar os
custos do projeto, que não gerou recursos suficientes para pagar os
investimentos e custos de manutenção.

- Nos EUA, a transposição do Rio Colorado para o Rio Big Thompson gerou
conflitos relacionados ao direito sobre as águas entre os estados de
fronteira, além de permitir a introdução de poluentes e outros contaminantes
nos reservatórios da bacia receptora.


As alternativas realmente viáveis.

- As alternativas à transposição que se apresentam mais econômicas,
eficientes e com menores impactos ambientais são: a revitalização do rio, o
uso racional da água e a construção de cisternas e microbarragens.

- É necessário, primeiro, recuperar os mananciais, os olhos d?água e as
nascentes; fazer o reflorestamento e resolver a questão fundiária,
principalmente nas áreas de preservação permanente (a menos de 30 metros do
rio).

- Israel é um bom exemplo. A uso de tubulações de alta pressão permite o
abastecimento ininterrupto e uniforme dos lugares distantes. Além disso,
tanques
de concreto e depósitos abertos foram incorporados ao projeto para o
constante abastecimento de água. O modelo israelense evita a salinização, a
poluição e as perdas e ainda uniformiza a distribuição, fazendo a água
chegar até as regiões mais remotas
e necessitadas.

- Antes de se pensar em transposição, os investimentos deveriam ir para a
construção de poços, de adutoras para interligar açudes e de barragens
subterrâneas. Obras menores do ponto de vista geográfico, porém, maiores do
ponto de vista humano.


Parte das informações aqui encontradas foram extraídas do jornal O Estado de
São Paulo, de 30/9/2005.


 URL:: http://www.umavidapelavida.com.br/contra_favor.html

Em 17/01/08, Chl <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>
>
>
>
>  *Carta a Letícia Sabatella :: De Ciro Gomes *
>
> Letícia, ando meio quieto por estes tempos, mas, ao ver você visitando o
> bispo em greve de fome no interior da Bahia, pensei que você deveria
> considerar algumas informações e reflexões. Poderia começar lhe falando de
> República, democracia, personalismo, messianismo... Mas, sendo você a pessoa
> especial que é, desnecessário. O projeto de integração de bacias do Rio São
> Francisco aos rios secos do Nordeste setentrional atingiu, depois de muitos
> debates e alguns aperfeiçoamentos, uma forma em que é possível afirmar que,
> ao beneficiar 12 milhões de pessoas da região mais pobre do país, não
> prejudicará rigorosamente nenhuma pessoa, qualquer que seja o ponto de vista
> que se queira considerar.
>
> Séria e bem intencionada como você é, Letícia, além de grande artista,
> peço-lhe paciência para ler os seguintes números: o Rio São Francisco tem
> uma vazão média de 3.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!) e sua vazão mínima
> é de 1.850 metros cúbicos por SEGUNDO (!). Isto mesmo, a cada segundo de
> relógio, o Rio despeja no mar este imenso volume de água.
>
> O projeto de integração de bacia, equivocadamente chamado de transposição,
> pretende retirar do Rio no máximo 63 metros cúbicos por segundo. Na verdade,
> só se retirará este volume se o rio estiver botando uma cheia, o que
> acontece numa média de cada cinco anos. Este pequeno volume é suficiente
> para garantia do abastecimento humano de 12 milhões de pessoas.
>
> O rio tem sido agredido há 500 anos. Só agora começou o programa de sua
> revitalização, e é o único rio brasileiro com um programa como este graças
> ao pacto político necessário para viabilizar o projeto de integração.
>
> No semi-árido do Nordeste setentrional, onde fui criado, a disponibilidade
> segura de água hoje é de apenas cerca de 550 metros cúbicos por pessoa, por
> ANO (!). E a sustentabilidade da vida humana pelos padrões da ONU é de que
> cada ser humano precisa de, no mínimo, 1.500 metros cúbicos de água por
> ano. Nosso povo lá, portanto, dispõe de apenas um terço da quantidade de
> água mínima necessária para sobreviver.
>
> Não por acaso, creia, Letícia, é nesta região o endereço de origem de
> milhões de famílias partidas pela migração. Converse com os garçons,
> serventes de pedreiros ou com a maioria dos favelados do Rio e de São Paulo.
> Eles lhe darão testemunhos muito mais comoventes que o meu.
>
> Tudo que estou lhe dizendo foi apurado em 4 anos de debates populares e
> discussões técnicas. Só na CNBB fui duas vezes debater o projeto.. Apesar de
> convidado especialmente, o bispo Cappio não foi. Noutro debate por ele
> solicitado, depois da primeira greve de fome, no palácio do Planalto, ele
> também não foi. E, numa audiência com o presidente Lula, ele foi, mas disse
> ao presidente, depois de eu ter apresentado o projeto por mais de uma hora
> (ele calado o tempo inteiro), que não estava interessado em discutir o
> projeto, mas "um plano completo para o semi-árido".
>
> As coisas em relação a este assunto estão assim: muitos milhões de pessoas
> no semi-árido (vá lá ver agora o auge da estiagem) desejam ardorosamente
> este projeto,esperam por ele há séculos. Alguns poucos milhões concentrados
> nos estados ribeirinhos ao Rio não o querem. A maioria de muitos milhões de
> brasileiros fora da região está entre a perplexidade e a desinformação pura
> e simples. Como se deve proceder numa democracia republicana num caso como
> este?
>
> O conflito de interesses é inerente a uma sociedade tão brutalmente
> desigual quanto a nossa. Só o amor aos ritos democráticos, a compaixão
> genuína para entender e respeitar as demandas de todos e procurar
> equacioná-las com inteligência, respeito, tolerância, diálogo e respeito às
> instituições coletivas nos salvarão da selvageria que já é grande demais
> entre nós.
>
> Por mais nobres que sejam seus motivos - e são, no mínimo, equivocados -,
> o bispo Cappio não tem direito de fazer a Nação de refém de sua ameaça de
> suicídio. Qualquer vida é preciosa demais para ser usada como termo
> autoritário, personalista e messiânico de constrangimento à República e a
> suas legítimas instituições.
>
> Proponho a você, se posso, Letícia: vá ao bispo Cappio, rogue a ele que
> suspenda seu ato unilateral e que venha, ou mande aquele que lhe aconselha
> no assunto, fazer um debate num local público do Rio ou de São Paulo.
> Imagine se um bispo a favor do projeto resolver entrar em greve de fome
> exigindo a pronta realização do projeto. Quem nós escolheríamos para morrer?
> Isto evidencia a necessidade urgente deste debate fraterno e respeitoso.
> Manda um abraço para os extraordinários e queridos Osmar Prado e Wagner
> Moura e, por favor, partilhe com eles esta cartinha. Patrícia tem meus
> telefones. Um beijo fraterno do
>
> Ciro Gomes
>
> CIRO GOMES é deputado federal (PSB-CE) e foi ministro da Integração.
>
>  
>



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Oswald'Ørf

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