Parto do princípio que a lista é democrática, não cabendo censura à forma como 
os participantes expressam seus comentários, desde que não se usem de 
palavreado de baixo calão, nem façam proselitismo racista ou nazista. Eu não 
tinha intenção de me estender sobre o assunto, por isso dei meu recado de forma 
curta e irônica. 
Mas, já que feri a sensibilidade de alguns, creio que cabe aqui uma explicação 
mais alongada. 
Se o Chico Buarque vai votar num presidente que está à frente de um governo 
corrupto, tudo bem, é direito dele. Se acredita que as maracutaias do tucanato 
amenizam a bandalha petista, ok. Se os seus argumentos são velhos clichês 
esquerdistas regurgitados, não dá nada.  
Chico é um sujeito inteligente. Tenho muito respeito por seu trabalho como 
compositor, mas sua verve como letrista não faz com que ele mereça merece ser 
elevado à categoria de guru supremo, cujos pitacos sobre política, literatura, 
futebol, etc, têm valor de palavra sagrada.
E era isso.

Flávio Nunes
Bibliotecário CRB10/1298
Biblioteca Unisinos - Obras Raras
3590-8855 Ramal: 4550



>>> [EMAIL PROTECTED] 10/5/2006 15:26 >>>

Pessoas,

Infelizmente aqui fica uma critica minha, se for para tecer apenas
comentários depreciativos e não argumentativos, como o abaixo, seria melhor
nem se manifestar...

Abraços

Tiago Murakami




                                                                          
             "Flavio Nunes"                                               
             <[EMAIL PROTECTED]                                            
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             Sent by:                  <[email protected]>             
             bib_virtual-bounc                                          cc
             [EMAIL PROTECTED]                                                  
                                                                   Subject
                                       Re: [Bib_virtual] Lula e a imprensa
             10/05/2006 15:19          ou igualdade, fraternidade   e     
                                       liberdade                          
                                                                          
             Please respond to                                            
                 Lista de                                                 
                Discussão e                                               
             Divulgação sobre                                             
               Bibliotecas e                                              
                Informação                                                
                Digital na                                                
                 Internet                                                 
             <[EMAIL PROTECTED]                                            
                   t.br>                                                  
                                                                          
                                                                          




Como comentarista político, o Chico Buarque é um ótimo compositor...

Flávio Nunes
Bibliotecário CRB10/1298
Biblioteca Unisinos - Obras Raras
3590-8855 Ramal: 4550



>>> [EMAIL PROTECTED] 10/5/2006 15:09 >>>
>> Para alimentar o debate sobre liberdade lembro a todos a
>> historicidade desse conceito

>> e reenvio excertos da entrevista do poeta Chico

>> ele sempre fez das palavras,  mesmo em entrevista no cenário de
>> campanha eleitoral,
um poderoso antídoto para a anestesia e a miopia que acomete vastos
setores da população
que insistem  em não refletir sobre a dura questão social  no Brasil.

Cordiais saudações,
Myriam


>> Chico diz que vota em Lula de novo
>> Decepcionado com o PT, Chico critica oposição que trata Lula como um
>> "vagabundo que deve voltar à senzala'
>>
>>
>> João Wainer
>>   <http://mail.yahoo.com/config/login?/../images/i0605200601.jpg>
>> Chico Buarque, em sua cobertura no Leblon, durante entrevista que
>> concedeu à Folha
>>
>>
>> FERNANDO DE BARROS E SILVA
>> EDITOR DE BRASIL
>>
>> "É duro jogar na defesa." Foi esse o comentário bem-humorado que
>> Chico Buarque fez assim que terminou a primeira parte de uma
>> entrevista feita em dois tempos, no domingo à noite e na
>> segunda-feira à tarde, no seu apartamento no Leblon. O compositor se
>> referia à defesa que acabara de fazer do governo Lula.
>> Mas Chico Buarque não sabe, não gosta e não joga na defesa. Como no
>> futebol, que, perto de completar 62 anos, em junho próximo, continua
>> praticando três vezes por semana, Chico partiu logo para o ataque.
>> Disse que o escândalo do mensalão o deixou, sim, decepcionado com o
>> governo e é desastroso para o PT. Mas disse com ênfase ainda maior
>> que as críticas da oposição e de parte da mídia a Lula exorbitaram
>> tanto no tom quanto no conteúdo e são, por isso, inaceitáveis.
>> Mais ainda, Chico vê o recrudescimento do preconceito de classe
>> contra o presidente: "Como se fosse uma concessão, deixaram o Lula
>> assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem
>> despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a
>> Casa Grande", diz Chico.
>>
>>   _____
>> "Carioca", que chega hoje às lojas, está distante oito anos do CD
>> anterior, "As Cidades", de 1998. No meio do caminho, o também
>> escritor lançou o romance "Budapeste" (2003). Depois da Copa, ele
>> deve retornar aos palcos apresentando o novo trabalho pelo país.
>>
>>
>> Folha - No fim de 2004, em entrevista à Folha, você via uma onda de
>> ódio aos pobres e de ódio a Lula no país. Entre aquele diagnóstico e
>> a situação de hoje houve a crise do mensalão. Você está decepcionado?
>> O que mudou no governo Lula?
>> Chico Buarque - É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou
>> quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo
>> é desastroso. Espero que disso tudo possa surgir um partido mais
>> correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de
>> que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que
>> você ou é tucano ou é burro [risos].
>> Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas
>> principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do
>> governo mais corrupto da história do Brasil, é preciso dizer "espera
>> aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do
>> Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula
>> de vagabundo, de ignorante, aí estão errando muito a mão. Governo
>> mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso
>> investigar. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.
>>
>> Folha - Como assim?
>> Chico - Pergunte a qualquer pequeno empresário como faz para levar
>> adiante seu negócio. Ele é tentado o tempo todo a molhar a mão do
>> fiscal para não se estrepar. O mesmo vale para o guarda de trânsito.
>> E assim sucessivamente. A gente sabe que a corrupção no Brasil está
>> em toda a parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente eles,
>> fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover. Eles fazem
>> o papel da oposição, está certo. O PT também fez o "Fora FHC", uma
>> besteira.
>> Mas o preconceito de classe contra o Lula continua existindo -e em
>> graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi
>> igual. Acaba inclusive sendo contraproducente. O sujeito mais humilde
>> ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De
>> imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem
>> com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! -até assassino eu já
>> ouvi.
>> Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram
>> plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição.
>> Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir.
>> "Agora sai já daí, vagabundo!" É como se estivessem despachando um
>> empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande.
>> "Agora volta pra senzala!" Eu não gostaria que fosse assim.
>>
>> Folha - Você acredita que o Lula seja de fato visto como uma ameaça
>> pelos mais ricos?
>> Chico - A economia, na verdade, não vai mudar se o presidente for um
>> tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita
>> diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas
>> o país deu um passo importante elegendo o Lula. Considero
>> deseducativo o discurso em voga: "Tão cedo esse caras não voltam,
>> eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas". Acho
>> tudo isso muito grave.
>>
>> Folha - Você vai votar no Lula? Chico - Hoje eu voto no Lula. Vou
>> votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar
>> atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o
>> Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está
>> devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado,
>> vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos".
>> Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes de ele tomar posse, num
>> encontro aqui no Rio.
>>
>> Folha - Vários artistas andaram criticando o PT, o governo e Lula. O
>> meio artístico, ao que parece, não vai mais embarcar no "Lula lá".
>> Chico - Pelo que eu ando lendo, a grande maioria dos artistas está
>> contra o Lula. Tenho a missão de contrabalançar um pouco isso
>> [risos]. Há também entre os artistas um pouco daquela competição:
>> quem vai falar mais mal do presidente? Mas concordo em parte com o
>> Caetano. Em parte.
>> Quando ele fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de
>> esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição
>> superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior.
>> Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo.
>> Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são
>> intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato
>> de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo
>> estranho. Depois se provou que não era.
>> As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título,
>> um adorno. Na prática política essa identidade não funciona mais. Mas
>> não funciona não só porque as pessoas viraram casaca. A história
>> levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a
>> abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária.
>>
>> Folha - O que você acha do PSOL e dessa turma que deixou o PT fazendo
>> críticas pela esquerda?
>> Chico - Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex:
>> ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que
>> está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e
>> que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles
>> crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o
>> adversário do Lula.
>>
>> Folha - Como você vê a atuação da mídia no escândalo do mensalão? Tem
>> gente que ainda diz que a mídia criou ou inventou essa crise.
>> Chico - Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia
>> ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do
>> Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando
>> Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas
>> chapa-branca dispostos a defendê-lo. O Lula não tem. Pelo contrário,
>> é concurso de porrada para ver quem bate mais.
>>
>> Folha - O rumo que tomou o Brasil e o mundo o faz se sentir
>> derrotado? A sua geração perdeu?
>> Chico - É evidente que parte da minha geração que chegou ao poder não
>> lutou a vida inteira para isso. Eu vou dizer: até mesmo pessoas que
>> hoje são execradas publicamente, como o Zé Dirceu...
>> Não tenho maior simpatia pelo Zé Dirceu, não assinei manifesto em
>> defesa dele, acho que ele errou, que ele tem culpa, sim, por tudo o
>> que aconteceu, mas eu respeito uma pessoa que num determinado momento
>> entregou a sua vida, jogou tudo o que tinha em nome de uma causa, do
>> país.
>> Como o Zé Dirceu eu poderia citar outros nomes que chegaram ao poder,
>> mas chegaram despidos daquele sonho em nome do qual eles lutaram a
>> vida toda. Quem sabe para chegar ao poder tiveram justamente que se
>> render ao pragmatismo. A pessoa que chega ao poder é um pouco um
>> fantasma daquela que deu a vida por algo que não se realizou.
>>
>> Folha - O público mais jovem tem interesse pelo que você e sua
>> geração fazem hoje? O que mudou na recepção do seu trabalho?
>> Chico - Mudou muita coisa. Para as pessoas mais velhas, as músicas
>> costumam ter história, lastro, estão ligadas à vida de cada um ou
>> relacionadas a momentos do país. É comum ouvir "isso me lembra as
>> Diretas-Já, isso me lembra Geisel, isso me lembra o Festival da
>> Record". Para a garotada não há nada disso. Para eles sou músico de
>> um passado só. Outro dia um jovem me disse: "Adoro aquela sua
>> música". "Qual?", perguntei: "Com Açúcar, com Afeto" [risos]. A
>> música tem 40 anos!.
>>
>> Folha - É uma jovem senhora, mas ainda chama a atenção.
>> Chico - Isso na verdade é cíclico. Nos anos 80, em determinado
>> momento que uma parte expressiva da mídia flertou com muito
>> entusiasmo com uma certa idéia de internacionalização da cultura e de
>> desbunde com o mercado, parecia que a música da gente já era.
>> Nacional, só rock e olhe lá. Eu fui considerado completamente
>> ultrapassado. Depois voltou. Daqui a pouco pode ser que não interesse
>> mais. A gente continua fazendo -existe uma teimosia aí. E também, a
>> essa altura, uma natural despreocupação com o sucesso imediato. Mesmo
>> porque o sucesso imediato não acontece.
>>
>> Folha - Você considera que o novo CD exige uma digestão mais lenta?
>> Chico - Você e outros comentaram que, a exemplo do anterior, o disco
>> não é fácil de se gostar na primeira audição. Talvez não seja mesmo.
>> Eu aposto um pouquinho no fato de que a pessoa vá ouvir várias vezes.
>> É difícil no meu caso ter uma música que seja um grande sucesso, que
>> toque no rádio -eu não conto com isso. Não estou preocupado em fazer,
>> como diziam os italianos, uma música "orecciabile", "orelhável". No
>> final dos anos 60, quando morei em Roma, eles queriam que eu fizesse
>> outra música como "A Banda", "orecciabile". E eu acabei não fazendo
>> outras músicas "orelháveis", frustrando muitas expectativas. Hoje não
>> existe nenhuma expectativa, nem minha nem de ninguém, de que eu
>> precise ou vá compor uma música "orecciabile".
>> É natural que haja um tempo maior e um apuro maior, não apenas no
>> processo de composição mas também no trabalho de estúdio, durante os
>> arranjos, as gravações. É sem dúvida um trabalho mais sério, mais
>> cuidado do que era há anos atrás. Não quero dizer que isso resulte
>> numa música "impopular" de propósito, uma música sofisticada demais
>> -não acho isso-, mas é uma música que não tem compromisso com o
>> sucesso. Isso talvez a torne mais longeva.
>>
>> Folha - Você transmite a sensação de que gostaria de ver seu trabalho
>> melhor compreendido.
>> Chico - Sei que é difícil falar do disco. Até para mim é difícil. Em
>> jornal, crítico de música geralmente é crítico de letra. É
>> compreensível que seja assim -a letra vai impressa, o crítico destaca
>> este ou aquele trecho. Funciona assim. Eu cada vez mais dou
>> importância à música e tenho vontade de dizer: "Olha, só fiz essa
>> letra porque essa música pedia. Isso não é poesia, é canção". Enfim,
>> fico um pouquinho chateado com essas coisas, mas sei que é difícil.
>> Como é que vai imprimir uma partitura no jornal e explicar aos
>> leitores?
>>
>> Folha - Você volta a fazer shows?
>> Chico - Tenho vontade de fazer, sim. Depois da gravação, do convívio
>> com os músicos no estúdio essa vontade aparece. É o passo seguinte,
>> de certa forma natural. Vamos ver depois da Copa.
>>
>> Folha - Você acaba de gravar 12 programas dirigidos por Roberto de
>> Oliveira, que mesclam entrevistas inéditas e imagens de arquivo
>> cobrindo praticamente toda a sua carreira. Chama a atenção a maneira
>> desinibida com que você acabou passando a limpo a sua trajetória. O
>> que o levou a fazer esse balanço?
>> Chico - O Roberto foi me engabelando [risos]. A idéia inicial eram
>> dois ou três programas. Achei que a proposta de recuperar imagens de
>> arquivo que de outra forma ficariam perdidas justificava o trabalho.
>> Mas só fazia sentido se isso viesse acompanhado de algo mais.
>>
>> Folha - Esses documentários dos anos 70 e 80 que os programas
>> recuperam chamam atenção pelo despojamento, pelo ambiente caseiro, de
>> ensaios descontraídos. Vivia-se em outro planeta, não?
>> Chico - Fiquei muito tempo fora da Globo durante a ditadura, primeiro
>> porque eles me vetaram, depois, quando me chamaram, porque eu não
>> queria. Esses programas eram um contraponto à programação e à
>> estética da Globo. Mostravam os artistas gravando, bebendo, era uma
>> coisa meio mal-acabada, meio alternativa. Alguns discos, não apenas
>> os meus, também tinham esse clima.
>> Era uma bagunça. Ouvindo hoje a gente tem a sensação de que o cantor
>> bebeu, o maestro fumou e o produtor cheirou, não necessariamente
>> nessa ordem [risos].
>> Era muita loucura, o estúdio cheio de gente, garrafas pelo chão, uma
>> festa. Hoje você entra num estúdio e é aquela coisa ascética. Parece
>> um hospital. Não se come, não se bebe, não se fuma, não se faz nada
>> ali dentro.
>> Naquela época havia um certo valor nessa transgressão, nesse
>> desregramento. Você ia gravar daquele jeito, todos no estúdio estavam
>> daquele jeito e provavelmente quem ia ouvir os discos também estava
>> daquele jeito. Não deixava de ser uma maneira de enfrentar e suportar
>> a repressão. Hoje não faria nenhum sentido gravar naquelas condições.
>>
>> Folha - Era uma época mais simpática?
>> Chico - Não acho nada simpática. Não dá para abstrair a ditadura. Uma
>> coisa é Maio de 68 na França. Outra, completamente distinta, o nosso
>> dezembro de 68.
>


Myriam Bahia Lopes
[EMAIL PROTECTED] 
www.nehcit.cjb.net 
Em 10/mai/2006, às 00:24, Jonathan Pereira escreveu:

em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br/>
6 maio 2006

"A liberdade de imprensa é a razão pela qual eu cheguei à Presidência,
é a
razão pela qual as instituições brasileiras dão demonstrações mais
sólidas
de crescimento e sustentabilidade democrática."

Esta curta observação, feita pelo presidente Lula na ocasião em que
assinou
a Declaração de Chapultepec <http://www.igutenberg.org/chapul.html>-
documento internacional que estabelece princípios fundamentais da
liberdade
de imprensa -, já pode ser considerada, por si, um dos mais lúcidos
pronunciamentos do presidente da República, em seus 40 meses de gestão.
Com
efeito, corresponde inteiramente à verdade o fato de o inflamado
sindicalista de São Bernardo dever à plena liberdade de expressão a
carreira
política que o levou ao topo do Poder. Diga-se o mesmo em relação a
influência, dessa liberdade, no "crescimento e sustentabilidade" das
instituições democráticas brasileiras. Há que se dizer também, no
entanto,
que o comportamento do presidente e seu governo, no que diz respeito ao
relacionamento com a imprensa, esteve bem longe de significar o grau de
respeito e consideração contido nas palavras de quarta-feira.

Reconheça-se que neste campo tem havido uma evolução. Durante quase
toda sua
gestão - com exceção dos últimos tempos, já pré-eleitorais - o
presidente
Lula se recusou ao saudável hábito das rotineiras entrevistas coletivas,
preferindo sempre as comunicações oficiais. Só muito raramente se
permitia
convidar alguns jornalistas para um "café-da-manhã", mas nessas ocasiões
fazia prevalecer mais um espírito de ameno congraçamento do que a
intenção
de passar informações realmente relevantes, do interesse da sociedade.
Mas
outros fatos marcaram um relacionamento tumultuado. Um deles foi a
tentativa
de expulsão do País do jornalista Larry Rohter, do New York Times, por
este
ter publicado matéria dando conta de hábitos etílicos do presidente.

Foi marcante, por outro lado, o envio ao Congresso Nacional da proposta
de
criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) - que tinha por objetivo
expresso "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão.
Por
sobre ser um projeto gritantemente inconstitucional - já que a
Constituição,
por autodefesa histórica, em seu texto contém uma das maiores repulsas a
qualquer espécie de censura -, a idéia do CFJ foi prontamente rechaçada
pelos mais amplos setores da opinião pública e acabou - queremos crer -
definitivamente sepultada. Embora não se referissem especificamente à
imprensa - mas à liberdade de expressão, em gênero -, o famigerado
projeto
da Ancinav, tentando impor "orientações" à produção cultural, assim
como o
que pretendia colocar alguma "mordaça" no Ministério Público, foram
outras
tentativas, felizmente frustradas, de o governo Lula estabelecer
cerceamento
à livre manifestação de pensamento.

Se reconhecemos que houve uma boa evolução no relacionamento do governo
Lula
com a imprensa, nos últimos tempos - e esforcemo-nos para, de boa-fé,
desvinculá-la de eventuais propósitos reeleitorais -, é porque se torna
perceptível a tentativa de o presidente aproximar-se mais dos
jornalistas e
responder a perguntas, quando indagado. Mas também só quem tenha
amadurecido
sua percepção, quanto à capacidade de entendimento da sociedade,
haveria de
expressar com clareza aquilo que o presidente Lula disse, nestes termos:
"Temos que acreditar que esse povo, por si só, consegue fazer uma
diferenciação daquilo que é correto, daquilo que não é correto, daquilo
que
ele acha que é verdade e daquilo que ele acha que é exagero. Engana-se
aquele político que acha que faz as coisas e pensa que o eleitor não
faz o
julgamento correto. E se engana, também, aquele que escreve alguma
coisa sem
imaginar ou sem acreditar que o povo tem capacidade de discernimento
para
saber o que é exagero, o que é verdade, o que é mentira."

Neste ponto a reflexão do presidente parece extremamente precisa.
Restaria
apenas torná-la exemplar, no sentido de que o pensamento e a ação - ou
as
palavras e o comportamento - se tornem cada vez mais associados, a
ponto de
expressarem a mesma coisa.


Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2006/05/07/edi112358.xml 



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Jonathan Pereira
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