Dear Themistocles
When I was a little boy my mother told me the story about the giants
"Paulistas" and I got to see one of the wells that is found in a vacant lot
in Macazana, Zoddim (Salcette) near the lake.
Later, as a contributor to the magazine Ecos do Oriente (Portugal), I wrote
fiction in which I made reference to this subject.
I am sending you this story *RAIA – O POÇO DO DESESPERO *(see highlighted
in yellow). Please use google translator.

Best,
Pedro Mascarenhas
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                                          *RAIA – O POÇO DO DESESPERO*





*                                                             I*

Mónica Antão estava felicíssima com a paisagem que a rodeava. Apesar de
ainda não se sentir adaptada ao calor ardente e sufocante, e ao elevado
grau da humidade de Goa (Índia), ela, contudo, reconhecia-se compensada com
o que contemplava. À sua direita situava-se o vasto arrozal que se alargava
até a montanha esverdeada, em cujo topo se destacava uma bonita capela
caiada de branco, dedicada ao Anjo S. Gabriel. À sua esquerda ficava uma
lagoa de água retida das chuvas de Monção e que se estendia até as outras
montanhas cobertas de um manto mais esverdeado do que o lado oposto. No
arrozal viam-se alguns camponeses controlando o fluxo da água da lagoa que
iria alimentar a segunda sementeira de arroz. As terras, em socalcos,
estavam muito divididas em pequenos quadrados e pertenciam, umas, aos
particulares e legadas pelas famílias de geração em geração, e, outras, à
comunidade. Mónica não conseguia entender como é que aqueles homens e
sobretudo as mulheres conseguiam expor-se ao cruel e impiedoso sol durante
tantas horas. Estavam todos descalços e com água que lhes nivelava os
joelhos. Algumas cabeças estavam cobertas com panos que lhes serviam de
chapéus.

Debruçados, uns traçavam com varas círculos no terreno ensopado, enquanto
outros riscavam longos sulcos. As primeiras colheitas (sorôdio) foram
laboradas no final da Monção e agora no princípio deste mês de Dezembro já
estavam a preparar-se para as segundas (vangana), graças à abundante água
retida no outro lado da *“banda”* (terra amontoada que servia,
simultaneamente, de estrada e dique). O panorama que ficava à sua esquerda
era deslumbrante. A lagoa cobria-se de muitas plantas lacustres, entre as
quais uma espécie de nenúfares que emitiam da sua parte central uma vistosa
flor vermelha. Uma variedade de pássaros sobrevoavam aquelas plantas,
enquanto as garças (*bokim*) e as gaivotas (*sounnim*) se atreviam a pousar
naquelas ilhas flutuantes, exibindo-se de modo muito barulhento como que
tentando intimidar a temível águia (*gonn*) esfomeada que pairava, alguns
metros acima, em busca de uma presa. Lá mais adiante, as elevações estavam
atapetadas por uma vegetação de um verde muito forte, tendo por fundo um
céu azul turquesado completamente limpo. Certamente se o pintor Van Gog
fosse vivo não deixaria de fixar na tela aquele pedaço do paraíso que
ficava a dois passos da igreja de Raia (Salcete), e muito próximo do
Seminário de Rachol, tendo como vizinho o rio Zúari.

Os pais da Mónica possuíam uma casa ancestral que ficava entre o seminário
e a estrada principal que apontava para a agitada cidade de Margão. Ela
nascera em Ottawa, (Canadá), para onde os pais, em 1950, tinham emigrado em
busca de melhores perspetivas já que a sociedade goesa, sob domínio
colonial, estagnara e não se vislumbrava qualquer mudança nos tempos mais
próximos quer no desenvolvimento quer na liberdade. Naturalmente para
aquela aventura incidiu uma influência: Freddy, um anglo-indiano, que do
Canadá remetia longas cartas para o seu amigo, Carlos, pai da Mónica. Este
tentava imaginar como seria aquela terra que Freddy descrevia com rasgados
elogios, falando-lhe da disciplina, competência, desenvolvimento, riqueza,
salários altos, quintas a perder de vista, grandes prédios e de um grande
futuro.

Mónica, agora com 40 anos de idade, colaboradora ativa da sua paróquia
católica, solteira que não tencionava dar o nó porque prezava muito a sua
liberdade (ou não fosse ela canadiana), e licenciada em gestão de empresas,
pertencia aos quadros superiores do South Canada Bank.

Além disso, pela forte educação religiosa que os pais lhe transmitiram,
achava os homens canadianos demasiados materialistas, egoístas e até
presumidos. Filha única, era muito inteligente, culta e sabia o que queria.
A civilização indiana dizia-lhe muito.

Encontrava-se de férias na Índia pela décima vez, e no ano anterior
adquirira um apartamento de luxo em Miramar, Panaji, próximo de D.Paula.
Pelas contas dela e pelo seu nível de vida, o T3 que comprara era
baratíssimo, pois que em Ottawa pagaria dez vezes mais. Nesta visita a
Índia repartiu o mês das férias em três estadias: Os primeiros 10 dias
foram passados entre Nova Delhi e Agra, os 10 seguintes em Panaji, no seu
apartamento, e os restantes dias em Raia, em casa dos tios. Não conseguia
esquecer o espetáculo maravilhoso, aquele que assistira na cidade de Agra,
quando, depois de ter visitado o Agra Red Fort, subiu os degraus e deu de
caras com o Taj Mahal. Aquela que é considerada uma das sete maravilhas do
mundo deixou-a de boca aberta. Já tinha lido muita coisa, já tinha visto
postais e vídeos, mas…estar naquele lugar e observar o mausoléu ao vivo,
era de cortar a respiração.

Este ano, Panaji surpreendeu-a pelas movimentações e azáfama em torno das
obras em andamento entre o Miramar e a Ponte Patto, com vista à realização
do 35º Festival Internacional do Cinema Indiano. O jeep Mahindra, que
alugara, tinha que ser conduzido muito lentamente naquela artéria.Com
agrado verificou que o Mercado de Panaji estava ordenado e bem mais
disciplinado do que no ano anterior e sempre bem abastecido não faltando
nada nem mesmo os grandes e apetitosos caranguejos (*curli*) ainda vivos.

Mónica achou que já era tempo de regressar ao jeep que estacionara na parte
mais larga da estrada. Permanecera aí, seguramente, mais de uma hora
perdida nesse sonho real tão diferente das distantes terras frias do
Canadá. Era quase meio-dia. Os imponentes coqueiros nas bermas formavam
duas longas alas como se de guardas se tratassem, indo de um extremo ao
outro.

Caminhava lentamente quanto reparou nas conhecidas plantas sensitivas “as
noivas envergonhadas” (*lojechem okol*) que tanta admiração lhe causara
quando visitara Goa pela primeira vez. Debruçou-se e com as chaves do
Mahindra tocou nelas. As plantas executaram dois movimentos
simultaneamente: fecharam as minúsculas folhas e baixaram os ténues
raminhos espinhosos, colando-se ao chão vermelho e tornando-se quase
invisíveis. «Fantástico!» -pensou. Estava naquela posição durante longos
minutos, quando um velho camponês de tronco nu, conduzindo dois búfalos
sujos de lama, aproximou-se dela:- «*Kitem zalem, bhai*? (Que se passa,
menina?)». Mónica aprendera o *konkani* com os pais (coisa rara entre os
goeses emigrantes), mas por falta de prática só dominava cerca de 50 por
cento, o suficiente para se fazer entender como acontecia regularmente
quando ia ao mercado de Panaji. Entendia quase tudo mas sentia alguma
dificuldade quando queria expor as suas opiniões. Virou-se para o homem e
com um bonito sorriso respondeu-lhe lentamente: -«*Hem*...*
zadd…coslem….tem… poittam*.» (Estou a observar esta planta).

O homem de nome Gabru (corruptela de Gabriel, à boa maneira goesa), sempre
curioso, perguntou-lhe ainda quem ela era, onde morava, o que
fazia,...enfim, entabulou uma conversa e por fim aconselhou-a a não ficar
muito tempo naquele local, porquanto mais abaixo ficava um poço, no qual
ainda muito recentemente uma jovem estudante se suicidara e por isso que
aquele lugar era agora considerado maldito e, onde, sobretudo à noite,
ocorriam coisas estranhas. Mónica, ainda agachada, levantou a cabeça e viu
o referido poço num dos cantos de um socalco. Gabru, como que arrepiado,
abalou de imediato, deixando a indo-canadiana pensativa e ao mesmo tempo
incrédula. Quando o velho se afastou uns metros, Mónica levantou-se,
sacudiu a terra vermelha do joelho direito das calças *blue-jeans* e
observou melhor o poço que tinha água até à borda circular, razão porque
não o notara, pois confundira com a água que o cercava.



                                                             *II*

Durante o almoço evocou a história do suicídio e indagou por mais detalhes.
Dominic, o primo mais velho e estudante, narrou-lhe que naquele poço,
construído por gigantes de nome Paulistas, segundo uma antiga lenda goesa,
fora encontrado o corpo de uma jovem de 18 anos. A estudante de nome Regina
Dourado, perdida de amores e muita deprimida por não ser correspondida,
pusera termo à sua vida. Dias mais tarde, de acordo com os boatos que
circulavam, alguns moradores viram, próximo do lugar fatídico e bem noite
dentro, um vulto feminino de braços estendidos para o céu como que a
suplicar algo. O vulto não estava em terreno seco mas na lama, e por vezes
parecia pairar no ar. O mistério adensara-se, acrescentaria Dominic, depois
de um tal Gabru ter relatado aos amigos que numa determinada noite ao
passar pelo local ouvira uma voz feminina sussurrando: - «*Mujea
Deva...Mujea Deva*...» (Meu Deus…Meu Deus.) ao mesmo tempo que a água no
interior do poço se agitava, embora não se avistasse nenhum vulto. Apenas
sons ecoados de alguém numa situação de grande desespero.

Quando se deitou pelas 10 horas da noite, Mónica recordou-se dos inúmeros
livros que lera e que descreviam os misteriosos relatos registados na
milenária Índia. Os sanyasis (homens santos) nos Himalaias, seminus,
enfrentando temperaturas abaixo de zero graus ou levitando-se no espaço
como os flocos de algodão, as almas penadas dos soldados ingleses
deambulando pelos fortes abandonados, a história dos gigantes Paulistas que
numa só noite cavaram 12 poços em locais dispersos de Goa, utilizando
pedras enormes para a sua construção e em especial as aparições da Nossa
Senhora em Batim (Ganxim), próximo de Agaçaim.

Mónica interessara-se pelas aparições de Batim porque a vidente de origem
goesa Yvetta Gomes também vivia no Canadá, mais precisamente em Marmora
(Toronto), embora não a conhecesse pessoalmente. Yvetta, mãe de dois
filhos, era natural da chamada ex-África Oriental Britânica tal como o seu
marido, e um dia estando a rezar o terço numa quinta em Marmora passou por
uma experiência mística. Contou que Nossa Senhora lhe tinha aparecido e
pedido para viajar a Goa, onde a visitaria mais vezes. Assim, depois de ter
examinado vários templos cristãos, deparou-se-lhe uma igreja decrépita numa
pequena colina em Batim, onde a 24 de Setembro de 1994 assistiu à primeira
Visão em Goa perante uma multidão. Este acontecimento extraordinário está
registado no livro, editado várias vezes, "Was Mary There?", sendo seu
autor o jornalista Marc de Souza da revista Goa Today. Este episódio ainda
não foi reconhecido pela Igreja, apesar de Marc de Souza continuar a
recolher testemunhos de "milagres".



                                                             *III*

Dois dias depois Mónica, levando como passageiros os tios e os primos,
rumou à Velha Goa. Ia assistir à exposição das relíquias sagradas do
Patrono de Goa, S. Francisco Xavier. Era uma manhã de segunda-feira, dia
pouco concorrido, e a tia Adelina preparara um bom farnel que incluía uma
garrafa-termo contendo o famoso "tea-rose" indiano que a indo-canadiana
tanto apreciava e nunca se esquecia de o levar consigo, pelo menos 2
quilos, de regresso ao Canada. Depois de uma curta discussão sobre a melhor
forma de atingir o destino, optou-se por evitar a taluka (distrito) de
Ponda e circular por Margão, Verna, Cortalim, Agaçaim até próximo de Pilar.
Daqui, por um atalho indicado por Dominic, alcançaram rapidamente Velha
Goa. Arrumado a viatura no parque pago, caminharam para o cruzamento, onde
cinco polícias controlavam o trânsito não permitindo qualquer circulação na
avenida principal. Passaram por dezenas de tendas atulhadas de tudo, desde
as refeições até ao vestuário. Resistiram ao ataque dos vendedores de velas
e, finalmente, alcançaram a avenida principal. Do lado esquerdo ficava a
Basílica do Bom Jesus e do lado oposto a Catedral, onde estava exposto o
corpo de S. Francisco Xavier. Mónica mostrou-se alegre porque gostava
daquele ambiente festivo que apresentava as duas faces, a religiosa e a
profana. Lá estava o cunho tipicamente indiano, a religiosidade, o cruzar
das pessoas de várias religiões, o vestuário diverso e garrido, as tendas
do grão, *bojé, sarapatel, gelebi, kalliô-bolliô*, sumo de cana-de-açúcar,
brinquedos, calçado, etc.

Como a missa só começaria às 15.00 horas, aproveitaram o tempo para
tributarem veneração ao Santo. Desta vez, os fiéis em fila, estavam
protegidos do sol pelo tecto da faixa de lona colorida que serpenteava até
a entrada lateral da Catedral. No interior dois leigos esforçavam-se para
que os fiéis não perdessem muito tempo junto da redoma de vidro com o
Santo, a fim de que outras pessoas também pudessem avançar. Os jornais de
Goa previam uma afluência de largos milhares de pessoas até ao encerramento
da exposição. Mónica constatou a presença de alguns turistas europeus, da
Alemanha e Grã-Bretanha, principalmente e, até da Rússia. A religiosidade
destes naturalmente seria fraca ou nula, estavam lá como turistas e nada
mais. Ela conhecia bem o Canadá e a vida material da grande maioria dos
seus habitantes. Achava-os vazios por dentro, obcecados pelo dinheiro e
sucesso. Muitos dos seus colegas da Universidade viram as suas vidas
familiares terminadas em divórcios litigiosos. Mónica que, em termos de
cultura adquirida, oscilava entre o Canadá e a Índia, aderia aos seus
aspetos positivos. Assim, por um lado, apreciava o rigor e a disciplina do
mundo anglo-saxónico, e por outro lado, a religiosidade e a serenidade do
mundo indiano. Recordava-se da frase da sua grande heroína, a Madre Teresa
de Calcutá: «-Os pobres da Índia eram mais felizes do que os pobres do
Ocidente, porque eram crentes e tinham uma Fé e isso queria dizer
Esperança.». A vida não se resume apenas a bens materiais. Que o diga o seu
amigo canadiano Carl Olensonn, descendente de nórdicos, cujo casamento
terminou mal, lançando os dois filhos para o mundo de droga. Teve tudo para
ser feliz. É vice-presidente de uma importante empresa canadiana com
ramificações nos Estados Unidos, Europa e Japão. A ex-esposa era advogada,
e os dois filhos eram adoráveis, mas o vazio familiar tecera a sua trama.
Hoje Carl era um homem destroçado por dentro, embora exteriormente exalasse
sucesso por causa do seu Ferrari, da gravata de seda, do fato de boa
qualidade, da vivenda e de outros sinais exteriores de riqueza. Na
sociedade moderna, se a Fé não estiver edificada sobre rocha firme, tudo se
perde. Durante a missa a indo-canadiana não conseguia esquecer o drama do
poço da Raia. Será que o problema que tinha atormentado Regina Dourado
teria sido somente passional? Ou haveria um segredo inacessível? Rezou pela
sua alma para que Deus lhe desse o eterno descanso, já que na terra ninguém
a tinha auxiliado.



                                                             *IV*

A tia Adelina não visitava a capital todos os dias e com a vantagem de se
hospedar no luxuoso apartamento da sobrinha em Miramar. Os restantes
familiares não a acompanharam devido a outros afazeres e aqui o luxo e o
movimento de viaturas no exterior contrastavam com a paz na sua velha casa
rústica. Aqui todas as comodidades eram tangíveis, mas faltava o calor
humano. Raia era rica em arvoredo e contactos afáveis com familiares e
vizinhos à toda a hora. Ela tinha completado 80 anos mas ainda se sentia
forte e ativa no seu dia a dia e por isso aceitou o convite para assistir a
um dos espetáculos programados pelos organizadores do IFFI (Festival
Internacional do Cinema Indiano). Como acontece em qualquer canto do mundo,
a ideia do IFFI foi apoiada por uns e combatida por outros, mas o projeto
foi avante e depois da sua inauguração foi um sucesso. Ela estava ansiosa
por ver o filme "Aleesha" do director Rajendra Talak, falado em *konkani*,
já que não ia ao cinema desde a estreia do filme "A paixão de Cristo".
Mónica fazia questão em levar a tia a todos os sítios. O restaurante
Rio-Rico do hotel Mandovi teria sido uma coisa completamente obscura para
ela se não tivesse ido almoçar lá. Aquele velho hotel de Panaji ainda
resistia aos ventos do desenvolvimento que varria Goa. Notou grandes
mudanças no Altinho desde que passeara por esse bairro há uns anos atrás.
Gostou do mercado pela sua arrumação quando comparou com o velho do Margão,
(o novo, junto do terminal de Kadamba era grandioso e superava o da
capital). Os turistas acotovelavam-se no miradouro de Dona Paula, ora
beneficiado. O Palácio de Hidalkhan que abrigava o velho Secretariado até
há pouco tempo ia, segundo parece, ser transformado num museu. Mas a
transformação mais espetacular ficava para os lados do Miramar com as suas
largas dezenas de novas habitações com traços de arquitetura ocidental ao
longo da marginal onde Mónica tinha comprado o seu apartamento. Naquela
área a Natureza tinha recuado e cedido lugar ao betão. Panaji entrou no
novo ciclo de desenvolvimento tornando-a sofisticada com cambiantes e
caracterizações sem precedentes. Os trabalhadores oriundos dos estados de
Maharashtra, Kerala, Karnataka, sobretudo, eram as verdadeiras formigas que
em larga escala contribuíam para sua mudança. Também o Canadá e o seu
poderoso vizinho, os Estados Unidos (dois dos sete mais ricos do mundo)
devem muito aos emigrantes, pois foi a mão-de-obra barata depois da II
Guerra Mundial que possibilitou a sua grandeza. A globalização (primeiro
interestadual e mais tarde internacional) permitiu que a Índia atingisse 8%
a 9% de crescimento económico nos últimos anos. Canadá e Índia são membros
do Commonwealth e as relações foram sempre excelentes.



                                                             *V*

Eram dez horas da manhã quando Mónica acabou de ler o último capítulo do
livro "The red letters:My father's enchanted period" de Ved Mehta, o famoso
escritor indiano invisual, estabelecido em New York. Era sábado, e como
Dominic estava em casa, pediu-lhe para a acompanhar até ao poço. Antes de
regressar ao Canadá, queria fazer umas investigações particulares, porque
achava o caso da Regina muito intrigante. A custo, o seu primo Dominic
acompanhou-a até a *"banda" (kazana)*. O Mahindra foi arrumado no mesmo
local para não incomodar o escasso trânsito que pontualmente perturbava
aquela área. O Sol já ia bem alto, o calor sufocava e nenhuma aragem se
fazia sentir, e desta vez os trabalhadores labutavam ao lado dos búfalos
negros que rasgavam a terra. Mais adiante um trator, propriedade de uma
família abastada ou da comunidade, soltando ruídos ensurdecedores, fazia
constantes vaivéns. Mónica disparou uma pergunta ao primo, querendo saber
se acreditava em fantasmas, a que ele respondeu negativamente. Ela
concordou, acrescentando que seria imaginação do povo, tal como acontecia
com os índios canadianos férteis em contos fantásticos, que iam de Manitú
aos lobisomens. Os dois notaram que o poço estava, aparentemente, a ser
evitado pelos camponeses que se mantinham afastados a uma distância
razoável. O drama ocorrera ao pôr-do-sol quando o local estava mais ou
menos deserto. Por sugestão da Mónica, os dois caminharam para a casa mais
próxima e foram atendidos por uma velha senhora de nome Zebel…a Zebel Mauxi
(tia Isabel) que recolhia folhas secas do cajueiro, tombadas e dispersas no
chão vermelho poeirento. Ela, com um ar muito triste, contou que naquela
noite tivera um pesadelo. Viu uma águia gigante lançar-se sobre a sua neta
de dez meses que estava deitada numa esteira estendida à sombra do cajueiro
e ela correndo como uma louca, num gesto protetor, cobriu-a com o seu corpo
e depois carregou-a nos braços e refugiou-se no interior da sua casa.
Contudo, o animal aparecia agora refletido no espelho do armário. Despertou
estremunhada e ficou a pensar no que iria acontecer durante o dia. Deveriam
ser umas seis horas de manhã quando ouviu uma gritaria e viu muita gente a
correr. Uma das pessoas contou-lhe que o corpo de uma menina, que não
parecia ser do bairro, estava a boiar no poço. Horas depois do cadáver ter
sido recolhido, a polícia localizou a sua família em Navelim. A pobre viera
de longe para pôr fim a sua vida. A idosa relacionou o pesadelo com o
suicídio, agora patenteado.

Mónica agradeceu a Zebel Mauxi pelas informações prestadas e os dois
regressaram ao local. Ela olhando em redor, verificou que as plantas
sensitivas agora cobriam densamente as duas bermas da “*banda*” (kazana),
acompanhando as duas filas de coqueiros. Conversando deram uns passos e
pararam a uns 10 metros do poço. Mónica confessou ao primo Dominic que
gostaria de levar aquela planta para o Canadá, mas que duvidava da sua
sobrevivência naquele clima tão rigoroso que atingia temperaturas
negativas. Inclinou-se para as tocar com as chaves, mas…elas como que por
magia fecharam-se. Ela nem sequer lhes tinha tocado! Que se passaria? Agora
era outro grupo de folhas que se fechavam…e outro…e outro…até formar uma
mancha que se foi alastrando até ao poço. Os primos não queriam acreditar
no que viam. As plantas sensitivas foram, aparentemente, varridas por uma
mão invisível do ponto onde se encontravam até ao poço! Elas, literalmente,
“apagaram-se” de forma gradual dos pés da Mónica até ao poço, formando uma
mancha de faixa acinzentada contrastando com o verde à sua volta.
Imagine-se um barco invisível sulcando por sobre as águas calmas de um
lago, deixando atrás de si um rasto bem visível. Foi isso que os dois
viram! Uma onda de cor de cinza correu em direção ao poço! Mónica
manteve-se calma enquanto Dominic gritava: - «Vamos embora daqui, já!».

Assumindo o controlo da situação, Mónica avançou para o poço e chegou a
tempo de observar círculos concêntricos à superfície da água, que partiam
do centro como se alguém tivesse lançado uma pequena pedra. Não estava
apavorada porque eram 11.30 de manhã, estava acompanhada e havia gente no
campo. Teria uma pequena cobra de água rastejado por debaixo das plantas e
ter-se-ia lançado ao poço? Enquanto tentava perceber com frieza o
inesperado fenómeno, uma folha de papel despertou a sua atenção. Estava
coberta com um nenúfar ressequido. Apanhou-a e caminhou para o jeep onde o
primo, apavorado, a esperava. Era uma folha pautada com um texto escrito à
tinta ocupando sete linhas e quase sumido. Estava redigido em inglês e só
se conseguia ler algumas palavras: “ (myself) (unhappy) (mother’s gold)
(mistake) (Camilo) (f # rever) (Regin#). (eu própria...infeliz…ouro da
mãe...erro...Camilo...para s#mpre...Regin#)”.O orvalho tinha apagado a
letra “a” da palavra Regina.

Mónica pediu ao primo que repetisse o nome da falecida. Dominic com voz
trémula recordou-lhe: «-Regina Dourado.». Fez-se um longo silêncio que foi
quebrado por Mónica num perfeito inglês com sotaque americano: - «Tanta
gente que esteve aqui, polícias, familiares, amigos, curiosos e
trabalhadores, e ninguém reparou neste papel? Quem será este Camilo? Ela
menciona o ouro da mãe, porque será? Vamos entregar esta preciosidade à
polícia.».

Aqueles que trabalhavam no campo não se deram conta do alvoroço que reinava
mais acima.



                                                            *VI*

Aeroporto de Frankfurt às 08.30 horas. Mónica dentro de 50 minutos irá
embarcar para o Canadá. Sentada no espaço reservado para os passageiros em
trânsito recompunha-se do voo Mumbay-Frankfurt e dali observava o "Travel
Value & Duty Free", onde, minutos antes, adquirira algumas lembranças para
os pais. Como sempre, reinava uma grande azáfama naquele aeroporto titânico
da Alemanha. Estava muito cansada, e mais uma vez veio-lhe à memória o caso
do poço da Raia. Assim que entregou a carta da infeliz estudante à polícia,
o inspetor Narayan Naik reabriu o processo e deslindou o mistério. Não fora
apenas um caso passional mas também um crime, porque o jovem Camilo, e
colega da escola, sabendo da paixão da Regina por si, convenceu-a a desviar
parte do ouro da sua mãe com a promessa de lho devolver mais tarde. Regina,
sem conhecimento da sua mãe, retirou da caixa de jóias duas pulseiras e um
anel de ouro. O inspetor Naik apurou que o objetivo do Camilo, com o
produto da venda do ouro, foi o de obter um passaporte português, tendo
para isso de pagar uma avultada importância a dois intermediários, um em
Goa e outro em Portugal. Quando Regina deu conta do erro, já era demasiado
tarde e sabendo que a sua mãe, cedo ou tarde, iria dar pela falta das
jóias, pôs termo a sua vida. Camilo, esse agora teria de enfrentar a
justiça. Mas que dizer das "*lojechem okol*"que se fecharam
misteriosamente? Foram excitadas por uma furtiva serpente de água ou por
uma misteriosa mão invisível? Mónica Antão jamais saberia. Os pais dela
iriam a Índia em Maio, mês das mangas, a rainha das frutas, e saberiam
certamente mais alguma coisa.



Pedro Mascarenhas

02/03/2008








Themistocles D'Silva <[email protected]> escreveu no dia terça,
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