Senhor Rafael

Muito obrigado

Pedro


Rafael Moreira <[email protected]> escreveu no dia quarta, 21/06/2023
à(s) 11:32:

> Que história encantadora! Parabéns…
> Yours,
> R.M.
>
> On 6/21/23, PEDRO MASCARENHAS <[email protected]> wrote:
> > Dear Themistocles
> > When I was a little boy my mother told me the story about the giants
> > "Paulistas" and I got to see one of the wells that is found in a vacant
> lot
> > in Macazana, Zoddim (Salcette) near the lake.
> > Later, as a contributor to the magazine Ecos do Oriente (Portugal), I
> wrote
> > fiction in which I made reference to this subject.
> > I am sending you this story *RAIA – O POÇO DO DESESPERO *(see highlighted
> > in yellow). Please use google translator.
> >
> > Best,
> > Pedro Mascarenhas
> > ------------------------------------------------------------
> >
> >                                           *RAIA – O POÇO DO DESESPERO*
> >
> >
> >
> >
> >
> > *                                                             I*
> >
> > Mónica Antão estava felicíssima com a paisagem que a rodeava. Apesar de
> > ainda não se sentir adaptada ao calor ardente e sufocante, e ao elevado
> > grau da humidade de Goa (Índia), ela, contudo, reconhecia-se compensada
> com
> > o que contemplava. À sua direita situava-se o vasto arrozal que se
> alargava
> > até a montanha esverdeada, em cujo topo se destacava uma bonita capela
> > caiada de branco, dedicada ao Anjo S. Gabriel. À sua esquerda ficava uma
> > lagoa de água retida das chuvas de Monção e que se estendia até as outras
> > montanhas cobertas de um manto mais esverdeado do que o lado oposto. No
> > arrozal viam-se alguns camponeses controlando o fluxo da água da lagoa
> que
> > iria alimentar a segunda sementeira de arroz. As terras, em socalcos,
> > estavam muito divididas em pequenos quadrados e pertenciam, umas, aos
> > particulares e legadas pelas famílias de geração em geração, e, outras, à
> > comunidade. Mónica não conseguia entender como é que aqueles homens e
> > sobretudo as mulheres conseguiam expor-se ao cruel e impiedoso sol
> durante
> > tantas horas. Estavam todos descalços e com água que lhes nivelava os
> > joelhos. Algumas cabeças estavam cobertas com panos que lhes serviam de
> > chapéus.
> >
> > Debruçados, uns traçavam com varas círculos no terreno ensopado, enquanto
> > outros riscavam longos sulcos. As primeiras colheitas (sorôdio) foram
> > laboradas no final da Monção e agora no princípio deste mês de Dezembro
> já
> > estavam a preparar-se para as segundas (vangana), graças à abundante água
> > retida no outro lado da *“banda”* (terra amontoada que servia,
> > simultaneamente, de estrada e dique). O panorama que ficava à sua
> esquerda
> > era deslumbrante. A lagoa cobria-se de muitas plantas lacustres, entre as
> > quais uma espécie de nenúfares que emitiam da sua parte central uma
> vistosa
> > flor vermelha. Uma variedade de pássaros sobrevoavam aquelas plantas,
> > enquanto as garças (*bokim*) e as gaivotas (*sounnim*) se atreviam a
> pousar
> > naquelas ilhas flutuantes, exibindo-se de modo muito barulhento como que
> > tentando intimidar a temível águia (*gonn*) esfomeada que pairava, alguns
> > metros acima, em busca de uma presa. Lá mais adiante, as elevações
> estavam
> > atapetadas por uma vegetação de um verde muito forte, tendo por fundo um
> > céu azul turquesado completamente limpo. Certamente se o pintor Van Gog
> > fosse vivo não deixaria de fixar na tela aquele pedaço do paraíso que
> > ficava a dois passos da igreja de Raia (Salcete), e muito próximo do
> > Seminário de Rachol, tendo como vizinho o rio Zúari.
> >
> > Os pais da Mónica possuíam uma casa ancestral que ficava entre o
> seminário
> > e a estrada principal que apontava para a agitada cidade de Margão. Ela
> > nascera em Ottawa, (Canadá), para onde os pais, em 1950, tinham emigrado
> em
> > busca de melhores perspetivas já que a sociedade goesa, sob domínio
> > colonial, estagnara e não se vislumbrava qualquer mudança nos tempos mais
> > próximos quer no desenvolvimento quer na liberdade. Naturalmente para
> > aquela aventura incidiu uma influência: Freddy, um anglo-indiano, que do
> > Canadá remetia longas cartas para o seu amigo, Carlos, pai da Mónica.
> Este
> > tentava imaginar como seria aquela terra que Freddy descrevia com
> rasgados
> > elogios, falando-lhe da disciplina, competência, desenvolvimento,
> riqueza,
> > salários altos, quintas a perder de vista, grandes prédios e de um grande
> > futuro.
> >
> > Mónica, agora com 40 anos de idade, colaboradora ativa da sua paróquia
> > católica, solteira que não tencionava dar o nó porque prezava muito a sua
> > liberdade (ou não fosse ela canadiana), e licenciada em gestão de
> empresas,
> > pertencia aos quadros superiores do South Canada Bank.
> >
> > Além disso, pela forte educação religiosa que os pais lhe transmitiram,
> > achava os homens canadianos demasiados materialistas, egoístas e até
> > presumidos. Filha única, era muito inteligente, culta e sabia o que
> queria.
> > A civilização indiana dizia-lhe muito.
> >
> > Encontrava-se de férias na Índia pela décima vez, e no ano anterior
> > adquirira um apartamento de luxo em Miramar, Panaji, próximo de D.Paula.
> > Pelas contas dela e pelo seu nível de vida, o T3 que comprara era
> > baratíssimo, pois que em Ottawa pagaria dez vezes mais. Nesta visita a
> > Índia repartiu o mês das férias em três estadias: Os primeiros 10 dias
> > foram passados entre Nova Delhi e Agra, os 10 seguintes em Panaji, no seu
> > apartamento, e os restantes dias em Raia, em casa dos tios. Não conseguia
> > esquecer o espetáculo maravilhoso, aquele que assistira na cidade de
> Agra,
> > quando, depois de ter visitado o Agra Red Fort, subiu os degraus e deu de
> > caras com o Taj Mahal. Aquela que é considerada uma das sete maravilhas
> do
> > mundo deixou-a de boca aberta. Já tinha lido muita coisa, já tinha visto
> > postais e vídeos, mas…estar naquele lugar e observar o mausoléu ao vivo,
> > era de cortar a respiração.
> >
> > Este ano, Panaji surpreendeu-a pelas movimentações e azáfama em torno das
> > obras em andamento entre o Miramar e a Ponte Patto, com vista à
> realização
> > do 35º Festival Internacional do Cinema Indiano. O jeep Mahindra, que
> > alugara, tinha que ser conduzido muito lentamente naquela artéria.Com
> > agrado verificou que o Mercado de Panaji estava ordenado e bem mais
> > disciplinado do que no ano anterior e sempre bem abastecido não faltando
> > nada nem mesmo os grandes e apetitosos caranguejos (*curli*) ainda vivos.
> >
> > Mónica achou que já era tempo de regressar ao jeep que estacionara na
> parte
> > mais larga da estrada. Permanecera aí, seguramente, mais de uma hora
> > perdida nesse sonho real tão diferente das distantes terras frias do
> > Canadá. Era quase meio-dia. Os imponentes coqueiros nas bermas formavam
> > duas longas alas como se de guardas se tratassem, indo de um extremo ao
> > outro.
> >
> > Caminhava lentamente quanto reparou nas conhecidas plantas sensitivas “as
> > noivas envergonhadas” (*lojechem okol*) que tanta admiração lhe causara
> > quando visitara Goa pela primeira vez. Debruçou-se e com as chaves do
> > Mahindra tocou nelas. As plantas executaram dois movimentos
> > simultaneamente: fecharam as minúsculas folhas e baixaram os ténues
> > raminhos espinhosos, colando-se ao chão vermelho e tornando-se quase
> > invisíveis. «Fantástico!» -pensou. Estava naquela posição durante longos
> > minutos, quando um velho camponês de tronco nu, conduzindo dois búfalos
> > sujos de lama, aproximou-se dela:- «*Kitem zalem, bhai*? (Que se passa,
> > menina?)». Mónica aprendera o *konkani* com os pais (coisa rara entre os
> > goeses emigrantes), mas por falta de prática só dominava cerca de 50 por
> > cento, o suficiente para se fazer entender como acontecia regularmente
> > quando ia ao mercado de Panaji. Entendia quase tudo mas sentia alguma
> > dificuldade quando queria expor as suas opiniões. Virou-se para o homem e
> > com um bonito sorriso respondeu-lhe lentamente: -«*Hem*...*
> > zadd…coslem….tem… poittam*.» (Estou a observar esta planta).
> >
> > O homem de nome Gabru (corruptela de Gabriel, à boa maneira goesa),
> sempre
> > curioso, perguntou-lhe ainda quem ela era, onde morava, o que
> > fazia,...enfim, entabulou uma conversa e por fim aconselhou-a a não ficar
> > muito tempo naquele local, porquanto mais abaixo ficava um poço, no qual
> > ainda muito recentemente uma jovem estudante se suicidara e por isso que
> > aquele lugar era agora considerado maldito e, onde, sobretudo à noite,
> > ocorriam coisas estranhas. Mónica, ainda agachada, levantou a cabeça e
> viu
> > o referido poço num dos cantos de um socalco. Gabru, como que arrepiado,
> > abalou de imediato, deixando a indo-canadiana pensativa e ao mesmo tempo
> > incrédula. Quando o velho se afastou uns metros, Mónica levantou-se,
> > sacudiu a terra vermelha do joelho direito das calças *blue-jeans* e
> > observou melhor o poço que tinha água até à borda circular, razão porque
> > não o notara, pois confundira com a água que o cercava.
> >
> >
> >
> >                                                              *II*
> >
> > Durante o almoço evocou a história do suicídio e indagou por mais
> detalhes.
> > Dominic, o primo mais velho e estudante, narrou-lhe que naquele poço,
> > construído por gigantes de nome Paulistas, segundo uma antiga lenda
> goesa,
> > fora encontrado o corpo de uma jovem de 18 anos. A estudante de nome
> Regina
> > Dourado, perdida de amores e muita deprimida por não ser correspondida,
> > pusera termo à sua vida. Dias mais tarde, de acordo com os boatos que
> > circulavam, alguns moradores viram, próximo do lugar fatídico e bem noite
> > dentro, um vulto feminino de braços estendidos para o céu como que a
> > suplicar algo. O vulto não estava em terreno seco mas na lama, e por
> vezes
> > parecia pairar no ar. O mistério adensara-se, acrescentaria Dominic,
> depois
> > de um tal Gabru ter relatado aos amigos que numa determinada noite ao
> > passar pelo local ouvira uma voz feminina sussurrando: - «*Mujea
> > Deva...Mujea Deva*...» (Meu Deus…Meu Deus.) ao mesmo tempo que a água no
> > interior do poço se agitava, embora não se avistasse nenhum vulto. Apenas
> > sons ecoados de alguém numa situação de grande desespero.
> >
> > Quando se deitou pelas 10 horas da noite, Mónica recordou-se dos inúmeros
> > livros que lera e que descreviam os misteriosos relatos registados na
> > milenária Índia. Os sanyasis (homens santos) nos Himalaias, seminus,
> > enfrentando temperaturas abaixo de zero graus ou levitando-se no espaço
> > como os flocos de algodão, as almas penadas dos soldados ingleses
> > deambulando pelos fortes abandonados, a história dos gigantes Paulistas
> que
> > numa só noite cavaram 12 poços em locais dispersos de Goa, utilizando
> > pedras enormes para a sua construção e em especial as aparições da Nossa
> > Senhora em Batim (Ganxim), próximo de Agaçaim.
> >
> > Mónica interessara-se pelas aparições de Batim porque a vidente de origem
> > goesa Yvetta Gomes também vivia no Canadá, mais precisamente em Marmora
> > (Toronto), embora não a conhecesse pessoalmente. Yvetta, mãe de dois
> > filhos, era natural da chamada ex-África Oriental Britânica tal como o
> seu
> > marido, e um dia estando a rezar o terço numa quinta em Marmora passou
> por
> > uma experiência mística. Contou que Nossa Senhora lhe tinha aparecido e
> > pedido para viajar a Goa, onde a visitaria mais vezes. Assim, depois de
> ter
> > examinado vários templos cristãos, deparou-se-lhe uma igreja decrépita
> numa
> > pequena colina em Batim, onde a 24 de Setembro de 1994 assistiu à
> primeira
> > Visão em Goa perante uma multidão. Este acontecimento extraordinário está
> > registado no livro, editado várias vezes, "Was Mary There?", sendo seu
> > autor o jornalista Marc de Souza da revista Goa Today. Este episódio
> ainda
> > não foi reconhecido pela Igreja, apesar de Marc de Souza continuar a
> > recolher testemunhos de "milagres".
> >
> >
> >
> >                                                              *III*
> >
> > Dois dias depois Mónica, levando como passageiros os tios e os primos,
> > rumou à Velha Goa. Ia assistir à exposição das relíquias sagradas do
> > Patrono de Goa, S. Francisco Xavier. Era uma manhã de segunda-feira, dia
> > pouco concorrido, e a tia Adelina preparara um bom farnel que incluía uma
> > garrafa-termo contendo o famoso "tea-rose" indiano que a indo-canadiana
> > tanto apreciava e nunca se esquecia de o levar consigo, pelo menos 2
> > quilos, de regresso ao Canada. Depois de uma curta discussão sobre a
> melhor
> > forma de atingir o destino, optou-se por evitar a taluka (distrito) de
> > Ponda e circular por Margão, Verna, Cortalim, Agaçaim até próximo de
> Pilar.
> > Daqui, por um atalho indicado por Dominic, alcançaram rapidamente Velha
> > Goa. Arrumado a viatura no parque pago, caminharam para o cruzamento,
> onde
> > cinco polícias controlavam o trânsito não permitindo qualquer circulação
> na
> > avenida principal. Passaram por dezenas de tendas atulhadas de tudo,
> desde
> > as refeições até ao vestuário. Resistiram ao ataque dos vendedores de
> velas
> > e, finalmente, alcançaram a avenida principal. Do lado esquerdo ficava a
> > Basílica do Bom Jesus e do lado oposto a Catedral, onde estava exposto o
> > corpo de S. Francisco Xavier. Mónica mostrou-se alegre porque gostava
> > daquele ambiente festivo que apresentava as duas faces, a religiosa e a
> > profana. Lá estava o cunho tipicamente indiano, a religiosidade, o cruzar
> > das pessoas de várias religiões, o vestuário diverso e garrido, as tendas
> > do grão, *bojé, sarapatel, gelebi, kalliô-bolliô*, sumo de
> cana-de-açúcar,
> > brinquedos, calçado, etc.
> >
> > Como a missa só começaria às 15.00 horas, aproveitaram o tempo para
> > tributarem veneração ao Santo. Desta vez, os fiéis em fila, estavam
> > protegidos do sol pelo tecto da faixa de lona colorida que serpenteava
> até
> > a entrada lateral da Catedral. No interior dois leigos esforçavam-se para
> > que os fiéis não perdessem muito tempo junto da redoma de vidro com o
> > Santo, a fim de que outras pessoas também pudessem avançar. Os jornais de
> > Goa previam uma afluência de largos milhares de pessoas até ao
> encerramento
> > da exposição. Mónica constatou a presença de alguns turistas europeus, da
> > Alemanha e Grã-Bretanha, principalmente e, até da Rússia. A religiosidade
> > destes naturalmente seria fraca ou nula, estavam lá como turistas e nada
> > mais. Ela conhecia bem o Canadá e a vida material da grande maioria dos
> > seus habitantes. Achava-os vazios por dentro, obcecados pelo dinheiro e
> > sucesso. Muitos dos seus colegas da Universidade viram as suas vidas
> > familiares terminadas em divórcios litigiosos. Mónica que, em termos de
> > cultura adquirida, oscilava entre o Canadá e a Índia, aderia aos seus
> > aspetos positivos. Assim, por um lado, apreciava o rigor e a disciplina
> do
> > mundo anglo-saxónico, e por outro lado, a religiosidade e a serenidade do
> > mundo indiano. Recordava-se da frase da sua grande heroína, a Madre
> Teresa
> > de Calcutá: «-Os pobres da Índia eram mais felizes do que os pobres do
> > Ocidente, porque eram crentes e tinham uma Fé e isso queria dizer
> > Esperança.». A vida não se resume apenas a bens materiais. Que o diga o
> seu
> > amigo canadiano Carl Olensonn, descendente de nórdicos, cujo casamento
> > terminou mal, lançando os dois filhos para o mundo de droga. Teve tudo
> para
> > ser feliz. É vice-presidente de uma importante empresa canadiana com
> > ramificações nos Estados Unidos, Europa e Japão. A ex-esposa era
> advogada,
> > e os dois filhos eram adoráveis, mas o vazio familiar tecera a sua trama.
> > Hoje Carl era um homem destroçado por dentro, embora exteriormente
> exalasse
> > sucesso por causa do seu Ferrari, da gravata de seda, do fato de boa
> > qualidade, da vivenda e de outros sinais exteriores de riqueza. Na
> > sociedade moderna, se a Fé não estiver edificada sobre rocha firme, tudo
> se
> > perde. Durante a missa a indo-canadiana não conseguia esquecer o drama do
> > poço da Raia. Será que o problema que tinha atormentado Regina Dourado
> > teria sido somente passional? Ou haveria um segredo inacessível? Rezou
> pela
> > sua alma para que Deus lhe desse o eterno descanso, já que na terra
> ninguém
> > a tinha auxiliado.
> >
> >
> >
> >                                                              *IV*
> >
> > A tia Adelina não visitava a capital todos os dias e com a vantagem de se
> > hospedar no luxuoso apartamento da sobrinha em Miramar. Os restantes
> > familiares não a acompanharam devido a outros afazeres e aqui o luxo e o
> > movimento de viaturas no exterior contrastavam com a paz na sua velha
> casa
> > rústica. Aqui todas as comodidades eram tangíveis, mas faltava o calor
> > humano. Raia era rica em arvoredo e contactos afáveis com familiares e
> > vizinhos à toda a hora. Ela tinha completado 80 anos mas ainda se sentia
> > forte e ativa no seu dia a dia e por isso aceitou o convite para
> assistir a
> > um dos espetáculos programados pelos organizadores do IFFI (Festival
> > Internacional do Cinema Indiano). Como acontece em qualquer canto do
> mundo,
> > a ideia do IFFI foi apoiada por uns e combatida por outros, mas o projeto
> > foi avante e depois da sua inauguração foi um sucesso. Ela estava ansiosa
> > por ver o filme "Aleesha" do director Rajendra Talak, falado em
> *konkani*,
> > já que não ia ao cinema desde a estreia do filme "A paixão de Cristo".
> > Mónica fazia questão em levar a tia a todos os sítios. O restaurante
> > Rio-Rico do hotel Mandovi teria sido uma coisa completamente obscura para
> > ela se não tivesse ido almoçar lá. Aquele velho hotel de Panaji ainda
> > resistia aos ventos do desenvolvimento que varria Goa. Notou grandes
> > mudanças no Altinho desde que passeara por esse bairro há uns anos atrás.
> > Gostou do mercado pela sua arrumação quando comparou com o velho do
> Margão,
> > (o novo, junto do terminal de Kadamba era grandioso e superava o da
> > capital). Os turistas acotovelavam-se no miradouro de Dona Paula, ora
> > beneficiado. O Palácio de Hidalkhan que abrigava o velho Secretariado até
> > há pouco tempo ia, segundo parece, ser transformado num museu. Mas a
> > transformação mais espetacular ficava para os lados do Miramar com as
> suas
> > largas dezenas de novas habitações com traços de arquitetura ocidental ao
> > longo da marginal onde Mónica tinha comprado o seu apartamento. Naquela
> > área a Natureza tinha recuado e cedido lugar ao betão. Panaji entrou no
> > novo ciclo de desenvolvimento tornando-a sofisticada com cambiantes e
> > caracterizações sem precedentes. Os trabalhadores oriundos dos estados de
> > Maharashtra, Kerala, Karnataka, sobretudo, eram as verdadeiras formigas
> que
> > em larga escala contribuíam para sua mudança. Também o Canadá e o seu
> > poderoso vizinho, os Estados Unidos (dois dos sete mais ricos do mundo)
> > devem muito aos emigrantes, pois foi a mão-de-obra barata depois da II
> > Guerra Mundial que possibilitou a sua grandeza. A globalização (primeiro
> > interestadual e mais tarde internacional) permitiu que a Índia atingisse
> 8%
> > a 9% de crescimento económico nos últimos anos. Canadá e Índia são
> membros
> > do Commonwealth e as relações foram sempre excelentes.
> >
> >
> >
> >                                                              *V*
> >
> > Eram dez horas da manhã quando Mónica acabou de ler o último capítulo do
> > livro "The red letters:My father's enchanted period" de Ved Mehta, o
> famoso
> > escritor indiano invisual, estabelecido em New York. Era sábado, e como
> > Dominic estava em casa, pediu-lhe para a acompanhar até ao poço. Antes de
> > regressar ao Canadá, queria fazer umas investigações particulares, porque
> > achava o caso da Regina muito intrigante. A custo, o seu primo Dominic
> > acompanhou-a até a *"banda" (kazana)*. O Mahindra foi arrumado no mesmo
> > local para não incomodar o escasso trânsito que pontualmente perturbava
> > aquela área. O Sol já ia bem alto, o calor sufocava e nenhuma aragem se
> > fazia sentir, e desta vez os trabalhadores labutavam ao lado dos búfalos
> > negros que rasgavam a terra. Mais adiante um trator, propriedade de uma
> > família abastada ou da comunidade, soltando ruídos ensurdecedores, fazia
> > constantes vaivéns. Mónica disparou uma pergunta ao primo, querendo saber
> > se acreditava em fantasmas, a que ele respondeu negativamente. Ela
> > concordou, acrescentando que seria imaginação do povo, tal como acontecia
> > com os índios canadianos férteis em contos fantásticos, que iam de Manitú
> > aos lobisomens. Os dois notaram que o poço estava, aparentemente, a ser
> > evitado pelos camponeses que se mantinham afastados a uma distância
> > razoável. O drama ocorrera ao pôr-do-sol quando o local estava mais ou
> > menos deserto. Por sugestão da Mónica, os dois caminharam para a casa
> mais
> > próxima e foram atendidos por uma velha senhora de nome Zebel…a Zebel
> Mauxi
> > (tia Isabel) que recolhia folhas secas do cajueiro, tombadas e dispersas
> no
> > chão vermelho poeirento. Ela, com um ar muito triste, contou que naquela
> > noite tivera um pesadelo. Viu uma águia gigante lançar-se sobre a sua
> neta
> > de dez meses que estava deitada numa esteira estendida à sombra do
> cajueiro
> > e ela correndo como uma louca, num gesto protetor, cobriu-a com o seu
> corpo
> > e depois carregou-a nos braços e refugiou-se no interior da sua casa.
> > Contudo, o animal aparecia agora refletido no espelho do armário.
> Despertou
> > estremunhada e ficou a pensar no que iria acontecer durante o dia.
> Deveriam
> > ser umas seis horas de manhã quando ouviu uma gritaria e viu muita gente
> a
> > correr. Uma das pessoas contou-lhe que o corpo de uma menina, que não
> > parecia ser do bairro, estava a boiar no poço. Horas depois do cadáver
> ter
> > sido recolhido, a polícia localizou a sua família em Navelim. A pobre
> viera
> > de longe para pôr fim a sua vida. A idosa relacionou o pesadelo com o
> > suicídio, agora patenteado.
> >
> > Mónica agradeceu a Zebel Mauxi pelas informações prestadas e os dois
> > regressaram ao local. Ela olhando em redor, verificou que as plantas
> > sensitivas agora cobriam densamente as duas bermas da “*banda*” (kazana),
> > acompanhando as duas filas de coqueiros. Conversando deram uns passos e
> > pararam a uns 10 metros do poço. Mónica confessou ao primo Dominic que
> > gostaria de levar aquela planta para o Canadá, mas que duvidava da sua
> > sobrevivência naquele clima tão rigoroso que atingia temperaturas
> > negativas. Inclinou-se para as tocar com as chaves, mas…elas como que por
> > magia fecharam-se. Ela nem sequer lhes tinha tocado! Que se passaria?
> Agora
> > era outro grupo de folhas que se fechavam…e outro…e outro…até formar uma
> > mancha que se foi alastrando até ao poço. Os primos não queriam acreditar
> > no que viam. As plantas sensitivas foram, aparentemente, varridas por uma
> > mão invisível do ponto onde se encontravam até ao poço! Elas,
> literalmente,
> > “apagaram-se” de forma gradual dos pés da Mónica até ao poço, formando
> uma
> > mancha de faixa acinzentada contrastando com o verde à sua volta.
> > Imagine-se um barco invisível sulcando por sobre as águas calmas de um
> > lago, deixando atrás de si um rasto bem visível. Foi isso que os dois
> > viram! Uma onda de cor de cinza correu em direção ao poço! Mónica
> > manteve-se calma enquanto Dominic gritava: - «Vamos embora daqui, já!».
> >
> > Assumindo o controlo da situação, Mónica avançou para o poço e chegou a
> > tempo de observar círculos concêntricos à superfície da água, que partiam
> > do centro como se alguém tivesse lançado uma pequena pedra. Não estava
> > apavorada porque eram 11.30 de manhã, estava acompanhada e havia gente no
> > campo. Teria uma pequena cobra de água rastejado por debaixo das plantas
> e
> > ter-se-ia lançado ao poço? Enquanto tentava perceber com frieza o
> > inesperado fenómeno, uma folha de papel despertou a sua atenção. Estava
> > coberta com um nenúfar ressequido. Apanhou-a e caminhou para o jeep onde
> o
> > primo, apavorado, a esperava. Era uma folha pautada com um texto escrito
> à
> > tinta ocupando sete linhas e quase sumido. Estava redigido em inglês e só
> > se conseguia ler algumas palavras: “ (myself) (unhappy) (mother’s gold)
> > (mistake) (Camilo) (f # rever) (Regin#). (eu própria...infeliz…ouro da
> > mãe...erro...Camilo...para s#mpre...Regin#)”.O orvalho tinha apagado a
> > letra “a” da palavra Regina.
> >
> > Mónica pediu ao primo que repetisse o nome da falecida. Dominic com voz
> > trémula recordou-lhe: «-Regina Dourado.». Fez-se um longo silêncio que
> foi
> > quebrado por Mónica num perfeito inglês com sotaque americano: - «Tanta
> > gente que esteve aqui, polícias, familiares, amigos, curiosos e
> > trabalhadores, e ninguém reparou neste papel? Quem será este Camilo? Ela
> > menciona o ouro da mãe, porque será? Vamos entregar esta preciosidade à
> > polícia.».
> >
> > Aqueles que trabalhavam no campo não se deram conta do alvoroço que
> reinava
> > mais acima.
> >
> >
> >
> >                                                             *VI*
> >
> > Aeroporto de Frankfurt às 08.30 horas. Mónica dentro de 50 minutos irá
> > embarcar para o Canadá. Sentada no espaço reservado para os passageiros
> em
> > trânsito recompunha-se do voo Mumbay-Frankfurt e dali observava o "Travel
> > Value & Duty Free", onde, minutos antes, adquirira algumas lembranças
> para
> > os pais. Como sempre, reinava uma grande azáfama naquele aeroporto
> titânico
> > da Alemanha. Estava muito cansada, e mais uma vez veio-lhe à memória o
> caso
> > do poço da Raia. Assim que entregou a carta da infeliz estudante à
> polícia,
> > o inspetor Narayan Naik reabriu o processo e deslindou o mistério. Não
> fora
> > apenas um caso passional mas também um crime, porque o jovem Camilo, e
> > colega da escola, sabendo da paixão da Regina por si, convenceu-a a
> desviar
> > parte do ouro da sua mãe com a promessa de lho devolver mais tarde.
> Regina,
> > sem conhecimento da sua mãe, retirou da caixa de jóias duas pulseiras e
> um
> > anel de ouro. O inspetor Naik apurou que o objetivo do Camilo, com o
> > produto da venda do ouro, foi o de obter um passaporte português, tendo
> > para isso de pagar uma avultada importância a dois intermediários, um em
> > Goa e outro em Portugal. Quando Regina deu conta do erro, já era
> demasiado
> > tarde e sabendo que a sua mãe, cedo ou tarde, iria dar pela falta das
> > jóias, pôs termo a sua vida. Camilo, esse agora teria de enfrentar a
> > justiça. Mas que dizer das "*lojechem okol*"que se fecharam
> > misteriosamente? Foram excitadas por uma furtiva serpente de água ou por
> > uma misteriosa mão invisível? Mónica Antão jamais saberia. Os pais dela
> > iriam a Índia em Maio, mês das mangas, a rainha das frutas, e saberiam
> > certamente mais alguma coisa.
> >
> >
> >
> > Pedro Mascarenhas
> >
> > 02/03/2008
> >
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> >
> >
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> > Themistocles D'Silva <[email protected]> escreveu no dia terça,
> > 20/06/2023 à(s) 16:41:
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