Que história encantadora! Parabéns…
Yours,
R.M.

On 6/21/23, PEDRO MASCARENHAS <[email protected]> wrote:
> Dear Themistocles
> When I was a little boy my mother told me the story about the giants
> "Paulistas" and I got to see one of the wells that is found in a vacant lot
> in Macazana, Zoddim (Salcette) near the lake.
> Later, as a contributor to the magazine Ecos do Oriente (Portugal), I wrote
> fiction in which I made reference to this subject.
> I am sending you this story *RAIA – O POÇO DO DESESPERO *(see highlighted
> in yellow). Please use google translator.
>
> Best,
> Pedro Mascarenhas
> ------------------------------------------------------------
>
>                                           *RAIA – O POÇO DO DESESPERO*
>
>
>
>
>
> *                                                             I*
>
> Mónica Antão estava felicíssima com a paisagem que a rodeava. Apesar de
> ainda não se sentir adaptada ao calor ardente e sufocante, e ao elevado
> grau da humidade de Goa (Índia), ela, contudo, reconhecia-se compensada com
> o que contemplava. À sua direita situava-se o vasto arrozal que se alargava
> até a montanha esverdeada, em cujo topo se destacava uma bonita capela
> caiada de branco, dedicada ao Anjo S. Gabriel. À sua esquerda ficava uma
> lagoa de água retida das chuvas de Monção e que se estendia até as outras
> montanhas cobertas de um manto mais esverdeado do que o lado oposto. No
> arrozal viam-se alguns camponeses controlando o fluxo da água da lagoa que
> iria alimentar a segunda sementeira de arroz. As terras, em socalcos,
> estavam muito divididas em pequenos quadrados e pertenciam, umas, aos
> particulares e legadas pelas famílias de geração em geração, e, outras, à
> comunidade. Mónica não conseguia entender como é que aqueles homens e
> sobretudo as mulheres conseguiam expor-se ao cruel e impiedoso sol durante
> tantas horas. Estavam todos descalços e com água que lhes nivelava os
> joelhos. Algumas cabeças estavam cobertas com panos que lhes serviam de
> chapéus.
>
> Debruçados, uns traçavam com varas círculos no terreno ensopado, enquanto
> outros riscavam longos sulcos. As primeiras colheitas (sorôdio) foram
> laboradas no final da Monção e agora no princípio deste mês de Dezembro já
> estavam a preparar-se para as segundas (vangana), graças à abundante água
> retida no outro lado da *“banda”* (terra amontoada que servia,
> simultaneamente, de estrada e dique). O panorama que ficava à sua esquerda
> era deslumbrante. A lagoa cobria-se de muitas plantas lacustres, entre as
> quais uma espécie de nenúfares que emitiam da sua parte central uma vistosa
> flor vermelha. Uma variedade de pássaros sobrevoavam aquelas plantas,
> enquanto as garças (*bokim*) e as gaivotas (*sounnim*) se atreviam a pousar
> naquelas ilhas flutuantes, exibindo-se de modo muito barulhento como que
> tentando intimidar a temível águia (*gonn*) esfomeada que pairava, alguns
> metros acima, em busca de uma presa. Lá mais adiante, as elevações estavam
> atapetadas por uma vegetação de um verde muito forte, tendo por fundo um
> céu azul turquesado completamente limpo. Certamente se o pintor Van Gog
> fosse vivo não deixaria de fixar na tela aquele pedaço do paraíso que
> ficava a dois passos da igreja de Raia (Salcete), e muito próximo do
> Seminário de Rachol, tendo como vizinho o rio Zúari.
>
> Os pais da Mónica possuíam uma casa ancestral que ficava entre o seminário
> e a estrada principal que apontava para a agitada cidade de Margão. Ela
> nascera em Ottawa, (Canadá), para onde os pais, em 1950, tinham emigrado em
> busca de melhores perspetivas já que a sociedade goesa, sob domínio
> colonial, estagnara e não se vislumbrava qualquer mudança nos tempos mais
> próximos quer no desenvolvimento quer na liberdade. Naturalmente para
> aquela aventura incidiu uma influência: Freddy, um anglo-indiano, que do
> Canadá remetia longas cartas para o seu amigo, Carlos, pai da Mónica. Este
> tentava imaginar como seria aquela terra que Freddy descrevia com rasgados
> elogios, falando-lhe da disciplina, competência, desenvolvimento, riqueza,
> salários altos, quintas a perder de vista, grandes prédios e de um grande
> futuro.
>
> Mónica, agora com 40 anos de idade, colaboradora ativa da sua paróquia
> católica, solteira que não tencionava dar o nó porque prezava muito a sua
> liberdade (ou não fosse ela canadiana), e licenciada em gestão de empresas,
> pertencia aos quadros superiores do South Canada Bank.
>
> Além disso, pela forte educação religiosa que os pais lhe transmitiram,
> achava os homens canadianos demasiados materialistas, egoístas e até
> presumidos. Filha única, era muito inteligente, culta e sabia o que queria.
> A civilização indiana dizia-lhe muito.
>
> Encontrava-se de férias na Índia pela décima vez, e no ano anterior
> adquirira um apartamento de luxo em Miramar, Panaji, próximo de D.Paula.
> Pelas contas dela e pelo seu nível de vida, o T3 que comprara era
> baratíssimo, pois que em Ottawa pagaria dez vezes mais. Nesta visita a
> Índia repartiu o mês das férias em três estadias: Os primeiros 10 dias
> foram passados entre Nova Delhi e Agra, os 10 seguintes em Panaji, no seu
> apartamento, e os restantes dias em Raia, em casa dos tios. Não conseguia
> esquecer o espetáculo maravilhoso, aquele que assistira na cidade de Agra,
> quando, depois de ter visitado o Agra Red Fort, subiu os degraus e deu de
> caras com o Taj Mahal. Aquela que é considerada uma das sete maravilhas do
> mundo deixou-a de boca aberta. Já tinha lido muita coisa, já tinha visto
> postais e vídeos, mas…estar naquele lugar e observar o mausoléu ao vivo,
> era de cortar a respiração.
>
> Este ano, Panaji surpreendeu-a pelas movimentações e azáfama em torno das
> obras em andamento entre o Miramar e a Ponte Patto, com vista à realização
> do 35º Festival Internacional do Cinema Indiano. O jeep Mahindra, que
> alugara, tinha que ser conduzido muito lentamente naquela artéria.Com
> agrado verificou que o Mercado de Panaji estava ordenado e bem mais
> disciplinado do que no ano anterior e sempre bem abastecido não faltando
> nada nem mesmo os grandes e apetitosos caranguejos (*curli*) ainda vivos.
>
> Mónica achou que já era tempo de regressar ao jeep que estacionara na parte
> mais larga da estrada. Permanecera aí, seguramente, mais de uma hora
> perdida nesse sonho real tão diferente das distantes terras frias do
> Canadá. Era quase meio-dia. Os imponentes coqueiros nas bermas formavam
> duas longas alas como se de guardas se tratassem, indo de um extremo ao
> outro.
>
> Caminhava lentamente quanto reparou nas conhecidas plantas sensitivas “as
> noivas envergonhadas” (*lojechem okol*) que tanta admiração lhe causara
> quando visitara Goa pela primeira vez. Debruçou-se e com as chaves do
> Mahindra tocou nelas. As plantas executaram dois movimentos
> simultaneamente: fecharam as minúsculas folhas e baixaram os ténues
> raminhos espinhosos, colando-se ao chão vermelho e tornando-se quase
> invisíveis. «Fantástico!» -pensou. Estava naquela posição durante longos
> minutos, quando um velho camponês de tronco nu, conduzindo dois búfalos
> sujos de lama, aproximou-se dela:- «*Kitem zalem, bhai*? (Que se passa,
> menina?)». Mónica aprendera o *konkani* com os pais (coisa rara entre os
> goeses emigrantes), mas por falta de prática só dominava cerca de 50 por
> cento, o suficiente para se fazer entender como acontecia regularmente
> quando ia ao mercado de Panaji. Entendia quase tudo mas sentia alguma
> dificuldade quando queria expor as suas opiniões. Virou-se para o homem e
> com um bonito sorriso respondeu-lhe lentamente: -«*Hem*...*
> zadd…coslem….tem… poittam*.» (Estou a observar esta planta).
>
> O homem de nome Gabru (corruptela de Gabriel, à boa maneira goesa), sempre
> curioso, perguntou-lhe ainda quem ela era, onde morava, o que
> fazia,...enfim, entabulou uma conversa e por fim aconselhou-a a não ficar
> muito tempo naquele local, porquanto mais abaixo ficava um poço, no qual
> ainda muito recentemente uma jovem estudante se suicidara e por isso que
> aquele lugar era agora considerado maldito e, onde, sobretudo à noite,
> ocorriam coisas estranhas. Mónica, ainda agachada, levantou a cabeça e viu
> o referido poço num dos cantos de um socalco. Gabru, como que arrepiado,
> abalou de imediato, deixando a indo-canadiana pensativa e ao mesmo tempo
> incrédula. Quando o velho se afastou uns metros, Mónica levantou-se,
> sacudiu a terra vermelha do joelho direito das calças *blue-jeans* e
> observou melhor o poço que tinha água até à borda circular, razão porque
> não o notara, pois confundira com a água que o cercava.
>
>
>
>                                                              *II*
>
> Durante o almoço evocou a história do suicídio e indagou por mais detalhes.
> Dominic, o primo mais velho e estudante, narrou-lhe que naquele poço,
> construído por gigantes de nome Paulistas, segundo uma antiga lenda goesa,
> fora encontrado o corpo de uma jovem de 18 anos. A estudante de nome Regina
> Dourado, perdida de amores e muita deprimida por não ser correspondida,
> pusera termo à sua vida. Dias mais tarde, de acordo com os boatos que
> circulavam, alguns moradores viram, próximo do lugar fatídico e bem noite
> dentro, um vulto feminino de braços estendidos para o céu como que a
> suplicar algo. O vulto não estava em terreno seco mas na lama, e por vezes
> parecia pairar no ar. O mistério adensara-se, acrescentaria Dominic, depois
> de um tal Gabru ter relatado aos amigos que numa determinada noite ao
> passar pelo local ouvira uma voz feminina sussurrando: - «*Mujea
> Deva...Mujea Deva*...» (Meu Deus…Meu Deus.) ao mesmo tempo que a água no
> interior do poço se agitava, embora não se avistasse nenhum vulto. Apenas
> sons ecoados de alguém numa situação de grande desespero.
>
> Quando se deitou pelas 10 horas da noite, Mónica recordou-se dos inúmeros
> livros que lera e que descreviam os misteriosos relatos registados na
> milenária Índia. Os sanyasis (homens santos) nos Himalaias, seminus,
> enfrentando temperaturas abaixo de zero graus ou levitando-se no espaço
> como os flocos de algodão, as almas penadas dos soldados ingleses
> deambulando pelos fortes abandonados, a história dos gigantes Paulistas que
> numa só noite cavaram 12 poços em locais dispersos de Goa, utilizando
> pedras enormes para a sua construção e em especial as aparições da Nossa
> Senhora em Batim (Ganxim), próximo de Agaçaim.
>
> Mónica interessara-se pelas aparições de Batim porque a vidente de origem
> goesa Yvetta Gomes também vivia no Canadá, mais precisamente em Marmora
> (Toronto), embora não a conhecesse pessoalmente. Yvetta, mãe de dois
> filhos, era natural da chamada ex-África Oriental Britânica tal como o seu
> marido, e um dia estando a rezar o terço numa quinta em Marmora passou por
> uma experiência mística. Contou que Nossa Senhora lhe tinha aparecido e
> pedido para viajar a Goa, onde a visitaria mais vezes. Assim, depois de ter
> examinado vários templos cristãos, deparou-se-lhe uma igreja decrépita numa
> pequena colina em Batim, onde a 24 de Setembro de 1994 assistiu à primeira
> Visão em Goa perante uma multidão. Este acontecimento extraordinário está
> registado no livro, editado várias vezes, "Was Mary There?", sendo seu
> autor o jornalista Marc de Souza da revista Goa Today. Este episódio ainda
> não foi reconhecido pela Igreja, apesar de Marc de Souza continuar a
> recolher testemunhos de "milagres".
>
>
>
>                                                              *III*
>
> Dois dias depois Mónica, levando como passageiros os tios e os primos,
> rumou à Velha Goa. Ia assistir à exposição das relíquias sagradas do
> Patrono de Goa, S. Francisco Xavier. Era uma manhã de segunda-feira, dia
> pouco concorrido, e a tia Adelina preparara um bom farnel que incluía uma
> garrafa-termo contendo o famoso "tea-rose" indiano que a indo-canadiana
> tanto apreciava e nunca se esquecia de o levar consigo, pelo menos 2
> quilos, de regresso ao Canada. Depois de uma curta discussão sobre a melhor
> forma de atingir o destino, optou-se por evitar a taluka (distrito) de
> Ponda e circular por Margão, Verna, Cortalim, Agaçaim até próximo de Pilar.
> Daqui, por um atalho indicado por Dominic, alcançaram rapidamente Velha
> Goa. Arrumado a viatura no parque pago, caminharam para o cruzamento, onde
> cinco polícias controlavam o trânsito não permitindo qualquer circulação na
> avenida principal. Passaram por dezenas de tendas atulhadas de tudo, desde
> as refeições até ao vestuário. Resistiram ao ataque dos vendedores de velas
> e, finalmente, alcançaram a avenida principal. Do lado esquerdo ficava a
> Basílica do Bom Jesus e do lado oposto a Catedral, onde estava exposto o
> corpo de S. Francisco Xavier. Mónica mostrou-se alegre porque gostava
> daquele ambiente festivo que apresentava as duas faces, a religiosa e a
> profana. Lá estava o cunho tipicamente indiano, a religiosidade, o cruzar
> das pessoas de várias religiões, o vestuário diverso e garrido, as tendas
> do grão, *bojé, sarapatel, gelebi, kalliô-bolliô*, sumo de cana-de-açúcar,
> brinquedos, calçado, etc.
>
> Como a missa só começaria às 15.00 horas, aproveitaram o tempo para
> tributarem veneração ao Santo. Desta vez, os fiéis em fila, estavam
> protegidos do sol pelo tecto da faixa de lona colorida que serpenteava até
> a entrada lateral da Catedral. No interior dois leigos esforçavam-se para
> que os fiéis não perdessem muito tempo junto da redoma de vidro com o
> Santo, a fim de que outras pessoas também pudessem avançar. Os jornais de
> Goa previam uma afluência de largos milhares de pessoas até ao encerramento
> da exposição. Mónica constatou a presença de alguns turistas europeus, da
> Alemanha e Grã-Bretanha, principalmente e, até da Rússia. A religiosidade
> destes naturalmente seria fraca ou nula, estavam lá como turistas e nada
> mais. Ela conhecia bem o Canadá e a vida material da grande maioria dos
> seus habitantes. Achava-os vazios por dentro, obcecados pelo dinheiro e
> sucesso. Muitos dos seus colegas da Universidade viram as suas vidas
> familiares terminadas em divórcios litigiosos. Mónica que, em termos de
> cultura adquirida, oscilava entre o Canadá e a Índia, aderia aos seus
> aspetos positivos. Assim, por um lado, apreciava o rigor e a disciplina do
> mundo anglo-saxónico, e por outro lado, a religiosidade e a serenidade do
> mundo indiano. Recordava-se da frase da sua grande heroína, a Madre Teresa
> de Calcutá: «-Os pobres da Índia eram mais felizes do que os pobres do
> Ocidente, porque eram crentes e tinham uma Fé e isso queria dizer
> Esperança.». A vida não se resume apenas a bens materiais. Que o diga o seu
> amigo canadiano Carl Olensonn, descendente de nórdicos, cujo casamento
> terminou mal, lançando os dois filhos para o mundo de droga. Teve tudo para
> ser feliz. É vice-presidente de uma importante empresa canadiana com
> ramificações nos Estados Unidos, Europa e Japão. A ex-esposa era advogada,
> e os dois filhos eram adoráveis, mas o vazio familiar tecera a sua trama.
> Hoje Carl era um homem destroçado por dentro, embora exteriormente exalasse
> sucesso por causa do seu Ferrari, da gravata de seda, do fato de boa
> qualidade, da vivenda e de outros sinais exteriores de riqueza. Na
> sociedade moderna, se a Fé não estiver edificada sobre rocha firme, tudo se
> perde. Durante a missa a indo-canadiana não conseguia esquecer o drama do
> poço da Raia. Será que o problema que tinha atormentado Regina Dourado
> teria sido somente passional? Ou haveria um segredo inacessível? Rezou pela
> sua alma para que Deus lhe desse o eterno descanso, já que na terra ninguém
> a tinha auxiliado.
>
>
>
>                                                              *IV*
>
> A tia Adelina não visitava a capital todos os dias e com a vantagem de se
> hospedar no luxuoso apartamento da sobrinha em Miramar. Os restantes
> familiares não a acompanharam devido a outros afazeres e aqui o luxo e o
> movimento de viaturas no exterior contrastavam com a paz na sua velha casa
> rústica. Aqui todas as comodidades eram tangíveis, mas faltava o calor
> humano. Raia era rica em arvoredo e contactos afáveis com familiares e
> vizinhos à toda a hora. Ela tinha completado 80 anos mas ainda se sentia
> forte e ativa no seu dia a dia e por isso aceitou o convite para assistir a
> um dos espetáculos programados pelos organizadores do IFFI (Festival
> Internacional do Cinema Indiano). Como acontece em qualquer canto do mundo,
> a ideia do IFFI foi apoiada por uns e combatida por outros, mas o projeto
> foi avante e depois da sua inauguração foi um sucesso. Ela estava ansiosa
> por ver o filme "Aleesha" do director Rajendra Talak, falado em *konkani*,
> já que não ia ao cinema desde a estreia do filme "A paixão de Cristo".
> Mónica fazia questão em levar a tia a todos os sítios. O restaurante
> Rio-Rico do hotel Mandovi teria sido uma coisa completamente obscura para
> ela se não tivesse ido almoçar lá. Aquele velho hotel de Panaji ainda
> resistia aos ventos do desenvolvimento que varria Goa. Notou grandes
> mudanças no Altinho desde que passeara por esse bairro há uns anos atrás.
> Gostou do mercado pela sua arrumação quando comparou com o velho do Margão,
> (o novo, junto do terminal de Kadamba era grandioso e superava o da
> capital). Os turistas acotovelavam-se no miradouro de Dona Paula, ora
> beneficiado. O Palácio de Hidalkhan que abrigava o velho Secretariado até
> há pouco tempo ia, segundo parece, ser transformado num museu. Mas a
> transformação mais espetacular ficava para os lados do Miramar com as suas
> largas dezenas de novas habitações com traços de arquitetura ocidental ao
> longo da marginal onde Mónica tinha comprado o seu apartamento. Naquela
> área a Natureza tinha recuado e cedido lugar ao betão. Panaji entrou no
> novo ciclo de desenvolvimento tornando-a sofisticada com cambiantes e
> caracterizações sem precedentes. Os trabalhadores oriundos dos estados de
> Maharashtra, Kerala, Karnataka, sobretudo, eram as verdadeiras formigas que
> em larga escala contribuíam para sua mudança. Também o Canadá e o seu
> poderoso vizinho, os Estados Unidos (dois dos sete mais ricos do mundo)
> devem muito aos emigrantes, pois foi a mão-de-obra barata depois da II
> Guerra Mundial que possibilitou a sua grandeza. A globalização (primeiro
> interestadual e mais tarde internacional) permitiu que a Índia atingisse 8%
> a 9% de crescimento económico nos últimos anos. Canadá e Índia são membros
> do Commonwealth e as relações foram sempre excelentes.
>
>
>
>                                                              *V*
>
> Eram dez horas da manhã quando Mónica acabou de ler o último capítulo do
> livro "The red letters:My father's enchanted period" de Ved Mehta, o famoso
> escritor indiano invisual, estabelecido em New York. Era sábado, e como
> Dominic estava em casa, pediu-lhe para a acompanhar até ao poço. Antes de
> regressar ao Canadá, queria fazer umas investigações particulares, porque
> achava o caso da Regina muito intrigante. A custo, o seu primo Dominic
> acompanhou-a até a *"banda" (kazana)*. O Mahindra foi arrumado no mesmo
> local para não incomodar o escasso trânsito que pontualmente perturbava
> aquela área. O Sol já ia bem alto, o calor sufocava e nenhuma aragem se
> fazia sentir, e desta vez os trabalhadores labutavam ao lado dos búfalos
> negros que rasgavam a terra. Mais adiante um trator, propriedade de uma
> família abastada ou da comunidade, soltando ruídos ensurdecedores, fazia
> constantes vaivéns. Mónica disparou uma pergunta ao primo, querendo saber
> se acreditava em fantasmas, a que ele respondeu negativamente. Ela
> concordou, acrescentando que seria imaginação do povo, tal como acontecia
> com os índios canadianos férteis em contos fantásticos, que iam de Manitú
> aos lobisomens. Os dois notaram que o poço estava, aparentemente, a ser
> evitado pelos camponeses que se mantinham afastados a uma distância
> razoável. O drama ocorrera ao pôr-do-sol quando o local estava mais ou
> menos deserto. Por sugestão da Mónica, os dois caminharam para a casa mais
> próxima e foram atendidos por uma velha senhora de nome Zebel…a Zebel Mauxi
> (tia Isabel) que recolhia folhas secas do cajueiro, tombadas e dispersas no
> chão vermelho poeirento. Ela, com um ar muito triste, contou que naquela
> noite tivera um pesadelo. Viu uma águia gigante lançar-se sobre a sua neta
> de dez meses que estava deitada numa esteira estendida à sombra do cajueiro
> e ela correndo como uma louca, num gesto protetor, cobriu-a com o seu corpo
> e depois carregou-a nos braços e refugiou-se no interior da sua casa.
> Contudo, o animal aparecia agora refletido no espelho do armário. Despertou
> estremunhada e ficou a pensar no que iria acontecer durante o dia. Deveriam
> ser umas seis horas de manhã quando ouviu uma gritaria e viu muita gente a
> correr. Uma das pessoas contou-lhe que o corpo de uma menina, que não
> parecia ser do bairro, estava a boiar no poço. Horas depois do cadáver ter
> sido recolhido, a polícia localizou a sua família em Navelim. A pobre viera
> de longe para pôr fim a sua vida. A idosa relacionou o pesadelo com o
> suicídio, agora patenteado.
>
> Mónica agradeceu a Zebel Mauxi pelas informações prestadas e os dois
> regressaram ao local. Ela olhando em redor, verificou que as plantas
> sensitivas agora cobriam densamente as duas bermas da “*banda*” (kazana),
> acompanhando as duas filas de coqueiros. Conversando deram uns passos e
> pararam a uns 10 metros do poço. Mónica confessou ao primo Dominic que
> gostaria de levar aquela planta para o Canadá, mas que duvidava da sua
> sobrevivência naquele clima tão rigoroso que atingia temperaturas
> negativas. Inclinou-se para as tocar com as chaves, mas…elas como que por
> magia fecharam-se. Ela nem sequer lhes tinha tocado! Que se passaria? Agora
> era outro grupo de folhas que se fechavam…e outro…e outro…até formar uma
> mancha que se foi alastrando até ao poço. Os primos não queriam acreditar
> no que viam. As plantas sensitivas foram, aparentemente, varridas por uma
> mão invisível do ponto onde se encontravam até ao poço! Elas, literalmente,
> “apagaram-se” de forma gradual dos pés da Mónica até ao poço, formando uma
> mancha de faixa acinzentada contrastando com o verde à sua volta.
> Imagine-se um barco invisível sulcando por sobre as águas calmas de um
> lago, deixando atrás de si um rasto bem visível. Foi isso que os dois
> viram! Uma onda de cor de cinza correu em direção ao poço! Mónica
> manteve-se calma enquanto Dominic gritava: - «Vamos embora daqui, já!».
>
> Assumindo o controlo da situação, Mónica avançou para o poço e chegou a
> tempo de observar círculos concêntricos à superfície da água, que partiam
> do centro como se alguém tivesse lançado uma pequena pedra. Não estava
> apavorada porque eram 11.30 de manhã, estava acompanhada e havia gente no
> campo. Teria uma pequena cobra de água rastejado por debaixo das plantas e
> ter-se-ia lançado ao poço? Enquanto tentava perceber com frieza o
> inesperado fenómeno, uma folha de papel despertou a sua atenção. Estava
> coberta com um nenúfar ressequido. Apanhou-a e caminhou para o jeep onde o
> primo, apavorado, a esperava. Era uma folha pautada com um texto escrito à
> tinta ocupando sete linhas e quase sumido. Estava redigido em inglês e só
> se conseguia ler algumas palavras: “ (myself) (unhappy) (mother’s gold)
> (mistake) (Camilo) (f # rever) (Regin#). (eu própria...infeliz…ouro da
> mãe...erro...Camilo...para s#mpre...Regin#)”.O orvalho tinha apagado a
> letra “a” da palavra Regina.
>
> Mónica pediu ao primo que repetisse o nome da falecida. Dominic com voz
> trémula recordou-lhe: «-Regina Dourado.». Fez-se um longo silêncio que foi
> quebrado por Mónica num perfeito inglês com sotaque americano: - «Tanta
> gente que esteve aqui, polícias, familiares, amigos, curiosos e
> trabalhadores, e ninguém reparou neste papel? Quem será este Camilo? Ela
> menciona o ouro da mãe, porque será? Vamos entregar esta preciosidade à
> polícia.».
>
> Aqueles que trabalhavam no campo não se deram conta do alvoroço que reinava
> mais acima.
>
>
>
>                                                             *VI*
>
> Aeroporto de Frankfurt às 08.30 horas. Mónica dentro de 50 minutos irá
> embarcar para o Canadá. Sentada no espaço reservado para os passageiros em
> trânsito recompunha-se do voo Mumbay-Frankfurt e dali observava o "Travel
> Value & Duty Free", onde, minutos antes, adquirira algumas lembranças para
> os pais. Como sempre, reinava uma grande azáfama naquele aeroporto titânico
> da Alemanha. Estava muito cansada, e mais uma vez veio-lhe à memória o caso
> do poço da Raia. Assim que entregou a carta da infeliz estudante à polícia,
> o inspetor Narayan Naik reabriu o processo e deslindou o mistério. Não fora
> apenas um caso passional mas também um crime, porque o jovem Camilo, e
> colega da escola, sabendo da paixão da Regina por si, convenceu-a a desviar
> parte do ouro da sua mãe com a promessa de lho devolver mais tarde. Regina,
> sem conhecimento da sua mãe, retirou da caixa de jóias duas pulseiras e um
> anel de ouro. O inspetor Naik apurou que o objetivo do Camilo, com o
> produto da venda do ouro, foi o de obter um passaporte português, tendo
> para isso de pagar uma avultada importância a dois intermediários, um em
> Goa e outro em Portugal. Quando Regina deu conta do erro, já era demasiado
> tarde e sabendo que a sua mãe, cedo ou tarde, iria dar pela falta das
> jóias, pôs termo a sua vida. Camilo, esse agora teria de enfrentar a
> justiça. Mas que dizer das "*lojechem okol*"que se fecharam
> misteriosamente? Foram excitadas por uma furtiva serpente de água ou por
> uma misteriosa mão invisível? Mónica Antão jamais saberia. Os pais dela
> iriam a Índia em Maio, mês das mangas, a rainha das frutas, e saberiam
> certamente mais alguma coisa.
>
>
>
> Pedro Mascarenhas
>
> 02/03/2008
>
>
>
>
>
>
>
>
> Themistocles D'Silva <[email protected]> escreveu no dia terça,
> 20/06/2023 à(s) 16:41:
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