Apertei alguma tecla sem querer e a mensagem foi enviada incompleta.
Olá Bruno,
O professor Décio Krause que respondeu a sua questão sobre Lacan, lógica e
psicanálise possui bons textos sobre axiomatização da física e sobre lógica
quântica, etc.
Acredito que a lógica tenha boas aplicações na matemática, mas não acredito que
possua muita aplicação na filosofia e em outras áreas como o Direito, por
exemplo.
Na filosofia, primeiro, não precisamos de lógica mais do que sabemos pela
intuição. Estudamos lógica na graduação, mas não apliquei nada da lógica
clássica na formulação dos meus argumentos em artigos e na monografia. Estudo a
lógica por ela mesma, não pela sua aplicabilidade.
O Dr. Paulo Mercadante, por exemplo, recentemente, propôs em seu blog, levar o
logicismo para o Direito. Isto é, fundamentar na lógica o Direito. Se Frege não
conseguiu fazer isso na Matemática acho que não iremos conseguir no Direito.
Outro tema que gostaria de colocar em discussão são as definições de lógica que
encontramos nos manuais. Ao meu ver, todas elas pecam num ou noutro sentido.
Muitos insistem que lógica é o estudo do raciocínio correto, do bom raciocínio,
das inferências,e etc.
Elaborando uma apostila discuti um pouco o assunto:
1.3. Definição de lógica
Irving Copi diz que a lógica “é o estudo dos métodos e princípios usados para
distinguir o raciocínio correto do incorreto”.[1] Ele mesmo reconhece que essa
definição não é boa, pois, nem sempre, a lógica está envolvida com raciocínios
corretos. Os paradoxos nos mostram isso o tempo todo. Wesley Salmon, por sua
vez, afirma que a lógica trata de argumentos e inferências.[2] Quanto a ela
tratar de argumentos não tenho qualquer dúvida, mas em relação às inferências
não posso dizer o mesmo.[3] Cezar Mortari define lógica como “a ciência que
estuda princípios e métodos de inferência, tendo o objetivo principal de
determinar em que condições certas coisas se seguem (são consequência), ou não,
de outras.”[4] Como já disse com relação a Salmon, não acho que a lógica trate
de inferências. Existe mais um problema nessa definição. A classificação da
lógica como ciência.[5]
A definição de lógica mais correta ao meu ver foi proposta por Benson Mates.
Ele diz que “a lógica investiga a relação de consequência que vige entre as
premissas e a conclusão de um argumento legítimo”.[6] Nessa definição acho
problemático justamente o termo “consequência” que Mates ressaltou. Enquanto
não oferecermos um definição precisa de “consequência” melhor que usássemos um
outro termo.
Esse outro termo, porém, não pode possuir a mesma conotação dinâmica daqueles
comumente usados, como por exemplo, “se segue” e “resulta”, pois como aponta
Ernst Tugendhat, “a implicação ou consequência, não se refere portanto a nenhum
resultar dinâmico da conclusão a partir das premissas, mas sim a uma relação
estática entre os valores de verdade dos enunciados”.[7]
Tendo em mente todas as limitações vistas aqui, posso oferecer a seguinte
definição de lógica:
Def. 1: A lógica é o campo de estudo[8] que examina em que
condições[9], nos argumentos, as premissas suportam ou não[10] a conclusão.[11]
Os termos em itálico na definição precisam ser explicados.
[1] COPI, 1981, p. 19.
[2] SALMON, 1973, p. 13.
[3] Tugendhat também utiliza o termo “inferência” em sua definição de lógica.
Ele diz que a lógica tem a ver com os “princípios da inferência válida, na
medida em que essa inferência se baseia na mera forma dos enunciados (ou
juízos)”. [TUGENDHAT, 2005, p. 12]
[4] MORTARI, 2001, p. 2. Mortari algumas páginas depois tenta expurgar de sua
definição a inferência, mas acredito que ele poderia ter feito isso desde o
início. Ele diz:
Na definição de lógica que apresentei ao iniciar o capítulo anterior, afirmei
que a lógica investiga princípios e métodos de inferência. Como você lembra, o
processo de inferência, ou raciocínio, é um processo mental; contudo, não
estamos interessados, enquanto lógicos, no processo psicológico de raciocínio.
[Idem, p. 16]
[5] Chateaubriand acredita que a lógica seja uma ciência em razão dele tomar as
leis da lógica como expressando características fundamentais da realidade.
[CHATEAUBRIAND, 2007, p. 154]
[6] MATES, 1967, p. 2.
[7] TUGENDHAT, 2005, p. 29.
[8] O termo “ciência” possui diversas conotações, por isso, não o utilizei na
minha definição.
[9] A lógica não estuda somente os argumento válidos. Ela estuda também as
falácias e os paradoxos.
[10] Evitei nesse primeiro momento, por razões didáticas, utilizar o termo
“consequência”.
[11] Com essa definição creio ter conseguido expurgar o conceito de
“inferência” da lógica. A entrada desse conceito psicologiza a lógica
desnecessariamente.
Um abraço.
Julio Fontana
Bacharel em Filosofia pela PUC-Rio.
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