Julio
Creio que devemos ser um tanto pragmáticos em certas situações. Assim, não aceitar a maior parte do que por exemplo Mathematical Reviews qualifica como "lógica" e que sabemos pertencer ao seu escopo (porque os *lógicos* se dedicam a elas) seria, no meu ver, um tanto descabido (veja o 03BXX em http://www.ams.org/mathscinet/msc/msc2010.html). Deste modo, a teoria da recursão, os fundamentos da teoria de conjuntos (uso de técnicas como forcing, modelos booleanos, etc.), dentre outros campos da investigação, são *lógica*. Como essas coisas se enquadram na sua Def.1? Ela é parcial e não reflete mais do que uma parcela pequena da atividade que hoje denominamos "lógica". Lamento, mas não funciona.
D.

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Decio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
deciokrause[at]gmail.com
www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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“[T]here’s much more difference (. . . ) be-
tween a human being who knows quantum
mechanics and one that doesn’t than between
one that doesn’t and the other great apes.”
(M. Gell-Mann)







Em 19/12/2009, às 15:41, Julio Fontana escreveu:

Apertei alguma tecla sem querer e a mensagem foi enviada incompleta.


Olá Bruno,

O professor Décio Krause que respondeu a sua questão sobre Lacan, lógica e psicanálise possui bons textos sobre axiomatização da física e sobre lógica quântica, etc.

Acredito que a lógica tenha boas aplicações na matemática, mas não acredito que possua muita aplicação na filosofia e em outras áreas como o Direito, por exemplo.

Na filosofia, primeiro, não precisamos de lógica mais do que sabemos pela intuição. Estudamos lógica na graduação, mas não apliquei nada da lógica clássica na formulação dos meus argumentos em artigos e na monografia. Estudo a lógica por ela mesma, não pela sua aplicabilidade.

O Dr. Paulo Mercadante, por exemplo, recentemente, propôs em seu blog, levar o logicismo para o Direito. Isto é, fundamentar na lógica o Direito. Se Frege não conseguiu fazer isso na Matemática acho que não iremos conseguir no Direito.

Outro tema que gostaria de colocar em discussão são as definições de lógica que encontramos nos manuais. Ao meu ver, todas elas pecam num ou noutro sentido. Muitos insistem que lógica é o estudo do raciocínio correto, do bom raciocínio, das inferências,e etc.

Elaborando uma apostila discuti um pouco o assunto:


1.3. Definição de lógica

Irving Copi diz que a lógica “é o estudo dos métodos e princípios usados para distinguir o raciocínio correto do incorreto”.[1] Ele mesmo reconhece que essa definição não é boa, pois, nem sempre, a lógica está envolvida com raciocínios corretos. Os paradoxos nos mostram isso o tempo todo. Wesley Salmon, por sua vez, afirma que a lógica trata de argumentos e inferências.[2] Quanto a ela tratar de argumentos não tenho qualquer dúvida, mas em relação às inferências não posso dizer o mesmo.[3] Cezar Mortari define lógica como “a ciência que estuda princípios e métodos de inferência, tendo o objetivo principal de determinar em que condições certas coisas se seguem (são consequência), ou não, de outras.”[4] Como já disse com relação a Salmon, não acho que a lógica trate de inferências. Existe mais um problema nessa definição. A classificação da lógica como ciência.[5] A definição de lógica mais correta ao meu ver foi proposta por Benson Mates. Ele diz que “a lógica investiga a relação de consequência que vige entre as premissas e a conclusão de um argumento legítimo”.[6] Nessa definição acho problemático justamente o termo “consequência” que Mates ressaltou. Enquanto não oferecermos um definição precisa de “consequência” melhor que usássemos um outro termo. Esse outro termo, porém, não pode possuir a mesma conotação dinâmica daqueles comumente usados, como por exemplo, “se segue” e “resulta”, pois como aponta Ernst Tugendhat, “a implicação ou consequência, não se refere portanto a nenhum resultar dinâmico da conclusão a partir das premissas, mas sim a uma relação estática entre os valores de verdade dos enunciados”.[7] Tendo em mente todas as limitações vistas aqui, posso oferecer a seguinte definição de lógica: Def. 1: A lógica é o campo de estudo[8] que examina em que condições[9], nos argumentos, as premissas suportam ou não[10] a conclusão.[11]

Os termos em itálico na definição precisam ser explicados.

[1] COPI, 1981, p. 19.
[2] SALMON, 1973, p. 13.
[3] Tugendhat também utiliza o termo “inferência” em sua definição de lógica. Ele diz que a lógica tem a ver com os “princípios da inferência válida, na medida em que essa inferência se baseia na mera forma dos enunciados (ou juízos)”. [TUGENDHAT, 2005, p. 12] [4] MORTARI, 2001, p. 2. Mortari algumas páginas depois tenta expurgar de sua definição a inferência, mas acredito que ele poderia ter feito isso desde o início. Ele diz: Na definição de lógica que apresentei ao iniciar o capítulo anterior, afirmei que a lógica investiga princípios e métodos de inferência. Como você lembra, o processo de inferência, ou raciocínio, é um processo mental; contudo, não estamos interessados, enquanto lógicos, no processo psicológico de raciocínio. [Idem, p. 16]

[5] Chateaubriand acredita que a lógica seja uma ciência em razão dele tomar as leis da lógica como expressando características fundamentais da realidade. [CHATEAUBRIAND, 2007, p. 154]
[6] MATES, 1967, p. 2.
[7] TUGENDHAT, 2005, p. 29.
[8] O termo “ciência” possui diversas conotações, por isso, não o utilizei na minha definição. [9] A lógica não estuda somente os argumento válidos. Ela estuda também as falácias e os paradoxos. [10] Evitei nesse primeiro momento, por razões didáticas, utilizar o termo “consequência”. [11] Com essa definição creio ter conseguido expurgar o conceito de “inferência” da lógica. A entrada desse conceito psicologiza a lógica desnecessariamente.


Um abraço.


Julio Fontana
Bacharel em Filosofia pela PUC-Rio.

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