Concordo, Decio.

2009/12/19 Decio Krause <[email protected]>

> Julio
> Creio que devemos ser um tanto pragmáticos em certas situações. Assim, não
> aceitar a maior parte do que por exemplo Mathematical Reviews qualifica como
> "lógica" e que sabemos pertencer ao seu escopo (porque os *lógicos* se
> dedicam a elas) seria, no meu ver, um tanto descabido (veja o 03BXX em
> http://www.ams.org/mathscinet/msc/msc2010.html). Deste modo, a teoria da
> recursão, os fundamentos da teoria de conjuntos (uso de técnicas como
> forcing, modelos booleanos, etc.), dentre outros campos da investigação, são
> *lógica*.
> Como essas coisas se enquadram na sua Def.1? Ela é parcial e não reflete
> mais do que uma parcela pequena da atividade que hoje denominamos "lógica".
> Lamento, mas não funciona.
> D.
>
> ________________________________
> Decio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-940 Florianópolis, SC -- Brasil
> deciokrause[at]gmail.com
> www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ________________________________
>
> “[T]here’s much more difference (. . . ) be-
> tween a human being who knows quantum
> mechanics and one that doesn’t than between
> one that doesn’t and the other great apes.”
> (M. Gell-Mann)
>
>
>
>
>
>
>
> Em 19/12/2009, às 15:41, Julio Fontana escreveu:
>
> Apertei alguma tecla sem querer e a mensagem foi enviada incompleta.
>
>
> Olá Bruno,
>
> O professor Décio Krause que respondeu a sua questão sobre Lacan, lógica e
> psicanálise possui bons textos sobre axiomatização da física e sobre lógica
> quântica, etc.
>
> Acredito que a lógica tenha boas aplicações na matemática, mas não acredito
> que possua muita aplicação na filosofia e em outras áreas como o Direito,
> por exemplo.
>
> Na filosofia, primeiro, não precisamos de lógica mais do que sabemos pela
> intuição. Estudamos lógica na graduação, mas não apliquei nada da lógica
> clássica na formulação dos meus argumentos em artigos e na monografia.
> Estudo a lógica por ela mesma, não pela sua aplicabilidade.
>
> O Dr. Paulo Mercadante, por exemplo, recentemente, propôs em seu blog,
> levar o logicismo para o Direito. Isto é, fundamentar na lógica o Direito.
> Se Frege não conseguiu fazer isso na Matemática acho que não iremos
> conseguir no Direito.
>
> Outro tema que gostaria de colocar em discussão são as definições de lógica
> que encontramos nos manuais. Ao meu ver, todas elas pecam num ou noutro
> sentido. Muitos insistem que lógica é o estudo do raciocínio correto, do bom
> raciocínio, das inferências,e etc.
>
> Elaborando uma apostila discuti um pouco o assunto:
>
>
>
> *1.3. Definição de lógica*
> Irving Copi diz que a lógica “é o estudo dos métodos e princípios usados
> para distinguir o raciocínio correto do 
> incorreto”.[1]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn1>Ele
>  mesmo reconhece que essa definição não é boa, pois, nem sempre, a lógica
> está envolvida com raciocínios corretos. Os paradoxos nos mostram isso o
> tempo todo. Wesley Salmon, por sua vez, afirma que a lógica trata de
> argumentos e 
> inferências.[2]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn2>Quanto
>  a ela tratar de argumentos não tenho qualquer dúvida, mas em relação
> às inferências não posso dizer o 
> mesmo.[3]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn3>Cezar
>  Mortari define lógica como “a ciência que estuda princípios e métodos
> de inferência, tendo o objetivo principal de determinar em que condições
> certas coisas se seguem (são consequência), ou não, de 
> outras.”[4]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn4>Como
>  já disse com relação a Salmon, não acho que a lógica trate de
> inferências. Existe mais um problema nessa definição. A classificação da
> lógica como 
> ciência.[5]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn5>
> A definição de lógica mais correta ao meu ver foi proposta por Benson
> Mates. Ele diz que “a lógica investiga a relação de *consequência* que
> vige entre as premissas e a conclusão de um argumento 
> legítimo”.[6]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn6>Nessa
>  definição acho problemático justamente o termo “consequência” que
> Mates ressaltou. Enquanto não oferecermos um definição precisa de
> “consequência” melhor que usássemos um outro termo.
> Esse outro termo, porém, não pode possuir a mesma conotação dinâmica
> daqueles comumente usados, como por exemplo, “se segue” e “resulta”, pois
> como aponta Ernst Tugendhat, “a implicação ou consequência, não se refere
> portanto a nenhum resultar dinâmico da conclusão a partir das premissas, mas
> sim a uma relação estática entre os valores de verdade dos 
> enunciados”.[7]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn7>
> Tendo em mente todas as limitações vistas aqui, posso oferecer a seguinte
> definição de lógica:
>
> Def. 1:             A lógica é o campo de 
> estudo[8]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn8>que
>  examina em que condições
> [9]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn9>,
> nos *argumentos*, as *premissas* suportam ou 
> não[10]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn10>a
> *conclusão*.[11]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftn11>
> Os termos em itálico na definição precisam ser explicados.
>
> ------------------------------
>  
> [1]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref1>COPI,
>  1981, p. 19.
> [2]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref2>SALMON,
>  1973, p. 13.
> [3]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref3>Tugendhat
>  também utiliza o termo “inferência” em sua definição de lógica.
> Ele diz que a lógica tem a ver com os “princípios da inferência válida, na
> medida em que essa inferência se baseia na mera forma dos enunciados (ou
> juízos)”. [TUGENDHAT, 2005, p. 12]
> [4]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref4>MORTARI,
>  2001, p. 2. Mortari algumas páginas depois tenta expurgar de sua
> definição a inferência, mas acredito que ele poderia ter feito isso desde o
> início. Ele diz:
>
> Na definição de lógica que apresentei ao iniciar o capítulo anterior,
> afirmei que a lógica investiga princípios e métodos de inferência. Como você
> lembra, o processo de inferência, ou raciocínio, é um processo mental;
> contudo, não estamos interessados, enquanto lógicos, no processo psicológico
> de raciocínio. [Idem, p. 16]
> [5]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref5>Chateaubriand
>  acredita que a lógica seja uma ciência em razão dele tomar as
> leis da lógica como expressando características fundamentais da realidade.
> [CHATEAUBRIAND, 2007, p. 154]
> [6]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref6>MATES,
>  1967, p. 2.
> [7]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref7>TUGENDHAT,
>  2005, p. 29.
> [8]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref8>O
>  termo “ciência” possui diversas conotações, por isso, não o utilizei na
> minha definição.
> [9]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref9>A
>  lógica não estuda somente os argumento válidos. Ela estuda também as
> falácias e os paradoxos.
> [10]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref10>Evitei
>  nesse primeiro momento, por razões didáticas, utilizar o termo
> “consequência”.
> [11]<http://br.mc1104.mail.yahoo.com/mc/[email protected]#_ftnref11>Com
>  essa definição creio ter conseguido expurgar o conceito de “inferência”
> da lógica. A entrada desse conceito psicologiza a lógica desnecessariamente.
>
>
>
> Um abraço.
>
>
> Julio Fontana
> Bacharel em Filosofia pela PUC-Rio.
>
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