O Water disse:
> Na verdade, a questao é muito mais profunda, e tem a ver com os
> pilares da economia: se os mercados podem ser auto-reguladores ou
> necessitam da mão do estado. Até os "Chicago boys" hoje em dia
> admitem que a economia... devem ser exo-reguladas,
Pois eh, tudo muda.
Lembro-me de visitar, em 1994, a CBOT (Chicago Borad of Trade)
e ouvir uma longa arenga em defesa da auto-regulacao dos
mercados financeiros.
O argumento era mais ou menos assim:
Os mercados derivativos estao se tornando tao complexos,
que fica impossivel para os agentes reguladores comprrende-los,
quanto mais (tolinhos...) ter a pretensao controla-los.
Afinal, as pessoas mais brilhantes estao nas bolsas e nos bancos
de investimento ganhando salarios e bonus fantasticos, nao em
carreiras burocraticas em alguma agencia publica.
Apos ouvir as propostas "do mercado", ouvimos algumas
autoridades reguladoras, achando tudo aquilo muito bom!
Na verdades, as ditas autoridades pareciam sentir-se muito bem
em livrar-se de um abacaxi clara, assumida e declaradamente
acima e alem da sua competencia e capacidade tecnica.
Para encerrar a conversa, era "obvio" que este tipo de investimento
ultra-especializado era coisa para experts, e quem quisesse se atrever
a este tipo de investimento devera tomar as precaucoes necessarias,
e assumir os proprios riscos. Enfim, isto era jogo para adultos,
nao para criancianhas querendo ou precisando da tutela do Estado...
Deu no que deu.
Ou melhor, (eu acho que) ainda nao deu.
A intervencao apressada e afobada de bancos centrais que mais
pareciam baratas tontas, jogaram baldes de agua fria (liquidez)
no mercado, impeditam o incendio incipiente que queimar muitos
ativos podres. So que agora os baldes estao vazios, e os podres
(ou suas mutacoes) ainda estao (em grande parte) por ai.
A melhor metafora para esta situacao eh, na minha opiniao,
a da politica de controle de incendios florestais na California.
Durante anos a politica era: Apague-se qq incendio.
So que a madeira morta foi se acumulando na floresta,
ate que um dia nao deu mais para apagar o fogo,
e ai tivemos um incendio catastrofico.
E ai, como ficamos?
Acho que aprendemos, ou ainda aprenderemos - pela via dolorosa,
que a resposta ao nao-regulamentacao nao se resume a simples
mecanismos de intervencao estatal para tirar o mercado de
eventuais sufocos auto-regulamentados.
Nossa, sera que eu precisava tagarelar tanto
para chegar a uma conclusao tao obvia ?-)
---Julio
****************************************************
> Date: Sun, 3 Jan 2010 01:28:21 -0200
> From: [email protected]
> To: [email protected]
> Subject: [Logica-l] Ainda sobre a "lógica do engodo" ( e suas relações com o
> mercado e com a ciência)
>
> Caro Júlio Fontana:
>
> é óbvio que há legislação para casos concretos e isolados, como no
> exemplo do tipo da assinatura de revista.
>
> Mas não há, obviamente, legislação contra uma *certa classe* de
> engodos, cada vez mais usada na vida comercial e empresarial contra
> os consumidores. É isso a que eu me referi, dando uma rápida
> entrevista ao Boletim FAPESP, sobre a possibilidade de legislação a
> respeito.
>
> Na verdade, a questao é muito mais profunda, e tem a ver com os
> pilares da economia: se os mercados podem ser auto-reguladores ou
> necessitam da mão do estado. Até os "Chicago boys" hoje em dia
> admitem que a economia, e em particular as relações do consumo devem
> ser exo-reguladas, A respeito da quantidade e qualidade
> impressionante de truques aplicaodos sobre nós, pobres combustíveis
> do mercado, recomendo o ótimo "The Undercover Economist: Exposing Why
> the Rich Are Rich, the Poor Are Poor--and Why You Can Never Buy a
> Decent Used Car", de Tim Harford, Oxford University Press, 2005.
>
> Sobre o texto do Margutti Pinto, não posso concordar nem discordar
> sobre se princípios e regras da lógica poderiam ou não ser
> oriundos da linguagem, porque não sei quem veio primeiro, se a
> linguagem ou a lógica. Talvez o Margutti Pinto saiba... seria
> melhor perguntar a ele.
>
> A "lógica do engodo" não é nenhum "sistema" lógico, é uma *análise*
> lógica da questão.
> É um problema da argumentação, e não parte da retórica apenas,
> embora os "bullshit attacks" possam ser *piorados* com a retórica.
>
> Para a ciência representam, sem dúvida, um alerta, uma vez que
> teorias erradas, propostas absurdas e hipóteses estapafúrdias
> abundam. E ainda mais, a ciência é afetada pela política, império do
> "bullshit".
>
> Abs,
>
> Walter
>
>
> > Tópicos de Hoje:
> >
> > 1. (sem assunto) (Julio Fontana)
>
>
> > Olá,
> >
> > Obrigado pela resposta. Gostaria de ler o seu texto sim.
> >
> > Mas alerto que a parte de não existir previsão na legislação quanto ao tipo
> > da assinatura de revista está errada. Legislação inclui os códigos (CDC,
> > CC, CPC) mas também jurisprudência e doutrina. Caso não seja informado pelo
> > contratado que o contratante deve proceder ao cancelamento da assinatura
> > após três caso contrário é cobrada a assinatura, o judiciário garante a
> > recisão contratual. Inclusive com as devidas indenizações e devolução do
> > valor pago indevidavemente em dobro. Minha esposa é advogada e conheço um
> > pouco sobre isso.
> >
> > Quanto a lógica certamente seu conhecimento é infinitamente maior do que o
> > meu, então lhe questiono com a humildade de um aprendiz. Lendo um texto do
> > professor Margutti Pinto concordei que alguns princípios e regras da lógica
> > são oriundos da realidade e outros da linguagem. Essa lógica do engodo
> > pertence a esse segundo grupo? Qual a diferença dessa lógica para a
> > retórica? O que eles interessam, por exemplo, para a ciência? É lógica da
> > argumentação e não formal?
> >
> > Desculpe por escrever de improviso, mas hoje é dia 31... Feliz Ano Novo
> > para todos da lista!
> > Julio Fontana
> >
> >
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