Para Ricardo (citações de Ricardo)  rodrigorlcid
 Hoje à(s) 12:23

Suponhamos um universo
 com apenas um corpo esférico. Vamos admitir que não podemos usar aqui 
nossas concepções de espaço, já formadas em um universo com vários 
corpos, a noção deve poder ser formada nesse universo suposto. Como 
falar do Espaço neste universo imaginário? Como medir esse espaço (nesse
 universo imaginário não há réguas)? Qual a diferença de assumir que a 
esfera tenha 15cm ou 150m de diâmetro? Ao meu ver, só tem sentido falar 
em espaço físico, se o Universo físico contiver mais de um corpo. Claro 
que podemos ter uma concepção do Espaço sem corpo algum, mas isso é uma 
abstração e essa noção só foi desenvolvida em contato com a experiência,
 tanto é assim que se tem, em geral, uma noção do espaço como 
euclideano, o que não vale para as escalas macroscópica (na qual, em 
geral, nós não temos experiências).

Falaríamos
 de espaço, dizendo que o espaço é o local onde o(s) corpo(s) se 
localiza(m). Não é possível medir todo o espaço onde tal objeto se 
encontra, mas o próprio objeto teria sem comprimento mensurável, embora 
certamente não seria possível uma pessoa ou outro medi-lo com uma régua.
 Certamente, tal corpo esférico não teria proporções espaciais 
infinitas. E, se for assim, ele tem proporções espaciais específicas. E,
 se é assim, há certamente uma diferença entre tal corpo ter 15cm ou 
150m. O volume de um corpo não depende de suas relações com outros 
corpos, de modo que suas proporções espaciais, que co-variam com o 
volume, não podem depender. Mesmo que essa noção de espaço seja uma 
abstração, ela é necessária (ou deveria ser, segundo eu argumento) para 
falarmos de uma situação onde há apenas 1 objeto (tal como seria o caso 
do Big-Bang, se tal teoria estiver correta).

Suponha
 agora um universo com três corpos esféricos, de mesmo tamanho, e 
equidistantes entre si, que mantém sempre uma a mesma distância entre 
si. Podemos falar de tempo nesse universo? Se vamos para o futuro, 
encontramos a mesma situação. Se vamos para o passado, também. Tanto faz
 assumir que o tempo vai sempre para o futuro ou que ele vai e volta. 
Assim, ao meu ver, não tem sentido falar de tempo em um universo no qual
 não exista o movimento, a mudança. E se falamos de mudança de posição 
de corpos físicos, falamos em velocidade. Logo, ao meu ver, não tem 
sentido falar em tempo no Universo físico sem falar em velocidade.

Eu
 discordo. Uma posição t4 tem antes de si as posições t3, t2 e t1, se 
for vista do passado para o futuro; mas tem inúmeras outras se vista do 
futuro para o passado. Assim, mesmo num mundo tal qual vc descreveu, 
haveria uma diferença entre vê-lo do passado para o futuro ou 
vice-versa.

Um outro exemplo, que não sei se descrevi aqui, é o 
exemplo de Shoemaker. Ele torna mais palatável a idéia de haver um tempo
 sem haver movimento. Aqui está o link 
http://geoff.forumeiros.com/modulo-ii-realidade-do-tempo-e-mudanca-f3/02-j-e-mctaggart-the-unreality-of-time-t9.htm
   ///   E aqui está o exemplo citado: Imaginemos um mundo dividido 
em 3 partes: P, Q e R. P sofre congelamentos de toda ocorrência de 2 em 2
 anos, Q sofre congelamentos de 3 em 3 anos, e R sofre congelamentos de 6
 em 6 anos. Todos ficam durante 1 ano congelados. Digamos que os 
moradores de P, Q e R podem ver que os moradores de outras regiões 
encontram-se congelados quando eles estão congelados. Em algum momento 
haverá um congelamento geral e os moradores de P, Q e R terão razões 
para acreditar que todos ficaram congelados (não houve mudnça de 
Russell) durante 1 ano. O que mostraria que pode haver tempo sem 
mudança. A objeção mais comum a este argumento é que não sabemos como as
 coisas poderiam voltar a funcionar depois de um congelamento geral, 
dado que não conseguiríamos explicar a causalidade envolvida num tal 
processo de "descongelamento". Minha saída para isso é dizer que não 
precisamos do descongelamento; do momento que o mundo ficou congelado, 
mesmo que nunca mais volte a se descongelar, haverá passado, por 
exemplo, pelo menos 10 segundos que tudo ficou congelado. De todo modo, 
haveria passado 10 segundos sem haver mudança. O que mostraria a 
não-necessidade da mudança para o tempo.

Bem,
 indo além de uma mera reflexão, penso que só é possível falar de 
Espaço, Tempo e velociade, porque temos uma noção de cada um deles e 
que, em última análise, quando fazemos essas reflexões, falamos dessas 
nossas próprias noções.

Eu diria, mais 
rigorosamente, que não falamos de nossas noções, mas falamos de aquilo 
que na realidade corresponde às noções que temos.

Nesse
 sentido, penso que para tratar dessa questão é importantíssimo sair de 
si, por assim dizer, e olhar o outro, e observá-lo em condições 
experimentais com todo o rigor científico. Penso que aqui também se 
aplica as palavras acima de Einstein: "nas questões de realidade, jamais
 se pode tratar a não ser de uma única coisa: procurar os caracteres dos
 conjuntos concernentes às experiências sensíveis e detectar os 
conceitos que a ela se referem", mas com a condição de que se tenha um 
controle dos fatores em jogo nessas "experiências sensíveis" sobre como 
são essas noções na realidade, para bem entendê-las. Não se trata de 
assumir uma posição empirista, mas de submeter nossas concepções 
teóricas ao crivo da experiência, como se faz em Psicologia Genética 
(que estuda justamente a gênese das estruturas necessárias ao 
conhecimento, em especial, a gênese das noções de Espaço, Tempo e 
Velocidade). Nesse caso, veríamos que estas noções estão diretamente 
relacionadas à organização de nossos sistemas de ações exteriores e 
interiores (que realizamos sobre nossas representações) e que a 
significação de cada uma depende da sua relação com a outra, sem que 
exista uma primitiva.

O ponto é que temos duas
 noções de espaço: um espaço derivado e um espaço absoluto. Tal como o 
tempo: um tempo derivado e outro absoluto. Qual dessas noções nos 
apresenta algo que existe de fato na realidade? Talvez as duas.

E
 eu discordo de Einstein; temos mais a fazer do que detectar caracteres 
dos conjuntos concernentes às experiências sensíveis e os conceitos que a
 eles se referem. Nos referimos a mais coisas do que apenas às 
características de nossas experiências sensíveis. Átomos poderiam nunca 
ser parte da experiência sensível de ninguém, e pensamos sobre as 
características deles. Podemos submeter nossas concepções teóricas ao 
crivo da experiência, mas não podemos fazer isso com todas; algumas 
serão meramente argumentativas. Com relação às nossas noções, podemos as
 colocar sob o crivo da experiência; mas não podemos fazer o mesmo 
quando perguntamos sobre a possibilidade de existência independente de 
certos objetos (e não sobre a noção deles).

Gostaria
 ainda de comentar sobre a questão de se tomar variáveis de tipos 
diferentes (tempo, espaço e velocidade) na equação t=s/v. Cada medida de
 uma grandeza tem uma qualidade, como dissemos, mas quando consideramos 
um padrão de unidades primitivas, como o Sitema mKs (metros, Kilogramas e
 segundo), cada unidade de grandeza é expressa por uma combinação das 
primitivas. Assim, no mKs temos que a medida da velocidade é m/s. Logo, 
na divisão s/v, considerando o Sistema mKs, dividimos uma medida em 
metros (m) por uma medida em metros por segundo (m/s), daí, em termos 
das unidades, temos as operações m/(m/s), das quais resultam a unidade 
segundo. Ou seja, pode-se admitir aqui a igualdade entre termos nos 
quais existem operações, desde que o resultado dessas operações tenham a
 mesma unidade (notemos que é assim que se verifica a coerência de uma 
equação em Física segundo a análise dimensional).

Legal...
 Pode ser isso mesmo... Mas nesses casos não teríamos de fato medidas 
diferentes dos dois lados do "=", mas medidas iguais. Há algum caso na 
física da utilização do "=" para realmente medidas diferentes?

Quando
 comecei a perceber que ao falarmos de Espaço, Tempo, velocidade, 
causalidade, etc. falávamos de nossas noções e, mais, que, quando víamos
 essas entidades teórico-filosóficas na própria realidade, havia uma 
projeção de conceitos na realidade, restava, para mim, assumir uma das 
duas posições seguintes: ou essas noções são sempre meras representações
 da realidade (possívelmente falsas, já que nunca se pode confiar que 
sua teoria científica será a última) ou admitia que os sujeitos do 
conhecimento sempre podem chegar a cada uma delas (e que necessariamente
 passam por algumas delas, como sugerem os experimentos a esse 
respeito).

Não consegui ver como essas noções 
seriam inconsistentes entre si. Parece-me que vc pode aceitar as duas.

Obrigado
 pela participação, Ricardo!                                      
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