Meio confuso esse conceito de non-Gödelian...

2010/8/2 <[email protected]>

> Oi Dória,
>
> É verdade que Gentzen 36 é equivalente a G que é equivalente a Con(PA), o
> que acho que Smorynski e outros querem dizer com "verdade aritmética
> nao-Godeliana", ou algo assim, é que nao se trata de uma sentenca baseada em
> algo do tipo "afirmar que ela própria é nao-demonstrável", obtida por
> diagonalizacao e etc.
>
> Achei os comentários do Paul Smith sobre o review do Smorynskï, ele
> praticamente se desculpa pelo escorregao histórico:
>
>
> Finally, on p. 210 (p. 211 in the current printing), I write “The first
> example of a more natural, non-Gödelian, arithmetical statement which is
> true, statable in the language of basic arithmetic, yet demonstrably not
> provable in PA, was found by Jeff Paris and Leo Harrington in 1977.” I’m
> more than a bit embarrassed that this survives into the fourth printing, for
> Smorynski isn’t the first to point out to me that, as in a sense I knew
> perfectly well, “This is simply false. … The first ‘natural, non-Gödelian
> arithmetical statement’ unprovable in PA was induction up to &#949;0, shown
> underivable
> by Gentzen in his Habilitationschrift in 1939. Following that, there was
> the
> unprovability of the totality of certain recursive functions as emphasized
> by Kreisel circa 1958.” Indeed.
>
>
>
> Até,
>
> []s  Samuel
>
> Quoting Francisco Antonio Doria <[email protected]>:
>
>  Gentzen 36 equivale à sentença de Gödel, Samuel. Tem Kleene 36. Dá pra
>> fazer
>> infinidades.
>>
>> 2010/8/2 <[email protected]>
>>
>>  Olá Dória,
>>>
>>> Grato pela respostas também !
>>>
>>> Eu já tinha percebido isso. Alguns autores chegam a chamar de "sentencas
>>> nao-godelianas" as sentencas aritméticas verdadeiras (no modelo standard)
>>> que nao podem ser demonstradas, indo pela ordem no tempo:
>>>
>>> - Gentzen 36 (Con(PA) por inducao sobre epsilon_zero)
>>>
>>> - Paris Harrington
>>>
>>> - Goodstein
>>>
>>> Tem um review do Smorynski sobre um livro de Smith (nao li o review
>>> inteiro
>>> mas li uns comentários do próprio Smith) no qual o Smorynski critica
>>> duramente o Smith por uma imprecisao histórica, pois o Smith no livro
>>> dele
>>> (Introduction to Godel Theorems) teria dito que o primeiro exemplo de uma
>>> "nao-Godeliana" seria Paris-Harrington, tendo se esquecido de Gentzen 36
>>> (e
>>> de mais algumas coisas dos anos 50, nao me recordo agora).
>>>
>>> Até,
>>>
>>> []s  Samuel
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> Quoting Francisco Antonio Doria <[email protected]>:
>>>
>>>  Cuidado que a sentença de Paris-Harrington ***não é*** equivalente a
>>>
>>>> Consis
>>>> PA.
>>>>
>>>> 2010/8/2 <[email protected]>
>>>>
>>>>  Olá a todos,
>>>>
>>>>>
>>>>> Agradeco pelas respostas. A universidade aqui (estou no México) está
>>>>> em seu (extenso) recesso de verao, nao tinha ninguém pra bater bola,
>>>>> foi bom bater bola com voces.
>>>>>
>>>>> Walter: obrigado pelos comentários e pelo material. Seu aluno Anderson
>>>>> também me mandou alguma coisa, já o agradeci também. Vou comentar algo
>>>>> da sua resposta:
>>>>>
>>>>>
>>>>> Quoting Walter Carnielli <[email protected]>:
>>>>>
>>>>> > Caro Samuel:
>>>>> >
>>>>> > o que você  levanta  são  questões  profundamente  interessantes.
>>>>> >
>>>>> > Envio  a voce em separado (parece que a  Lista não aceita o arquivo)
>>>>> > um prefácio de  Robert Vaught sobre  o "review" que Gödel publicou
>>>>> > sobre os trabalhos de  Skolem de 1933 e 1934 (dos quais
>>>>> > Gödel  diz que "são  praticamente os mesmos"). Isso aparece nos
>>>>> > "Collected Works" vol I, editado  S. Fefermann, pp. 376-379, que são
>>>>> > as  páginas que envio.
>>>>> >
>>>>> > O texto contem a resenha que você   procura, e ainda a importante
>>>>> > opinião  de  Vaught.
>>>>> >
>>>>> > Aparentemente Gödel  não viu que a existência dos modelos não
>>>>> standard
>>>>> > segue do Teorema da Compacidade (que ele mesmo  demonstrou em 1930!).
>>>>> > Como Vaught nota na  pag. 377, Gödel afirma que  tais modelos
>>>>> > não-standard seguiriam do seu Teorema de Incompletude (o que não é
>>>>> > incorreto da maneira que Gödel coloca, mas  não revela a  razão
>>>>> > principal).
>>>>> >
>>>>> > Dou aí abaixo algumas   opiniões  sobre  o que você pergunta   (mas
>>>>> > não são  mais que opiniões-  não me  considero nenhum "especialista"
>>>>> > sobre o assunto--de resto, parece que nem Gödel, nem Skolem o
>>>>> > eram...).
>>>>> >  **************************************************************
>>>>> >
>>>>>
>>>>> ----------> Pois é, é um assunto derrapante mesmo, como vc disse
>>>>> depois.
>>>>>
>>>>> >> "Suponha PA consistente. Entao, pelo Primeiro Teorema de
>>>>> Incompletude,
>>>>> >> PA nao prova a sentenca de Godel G.
>>>>> >>
>>>>> >> Segue que PA + ~G é consistente, logo, pelo Teorema da Completude
>>>>> para
>>>>> >> teorias de primeira ordem, tem modelo.
>>>>> >>
>>>>> >> Nesse modelo vale ~G. Entao esse modelo difere do modelo standard,
>>>>> no
>>>>> >> qual a sentenca de Godel G é verdadeira".
>>>>> >>
>>>>> >
>>>>> >
>>>>> > Sim, os modelos não- standard suportam  essa situação perfeitamente
>>>>> bem.
>>>>> >
>>>>> > **************************************************************
>>>>> >>
>>>>> >> Apresento algumas questoes, nao sei se elas sao "bobagem" ou nao...
>>>>> >>
>>>>> >> 1) Alguém sabe se este é o argumento de Gödel na tal resenha, ou se
>>>>> >> ele usou esse argumento depois ?
>>>>> >
>>>>> >
>>>>> > Não usou, e  acho  (mas  não  tenho certeza) que   Gödel  nunca  usou
>>>>> > este argumento. Mas  nos trabalhos contemporâneos  acredito  que isso
>>>>> > já  seja "folclore".
>>>>> >
>>>>>
>>>>> ------------> Estou sem o meu Kleene aqui, mas na página 377 do Review
>>>>> que vc me mandou o Vaught diz que na página 430 do Kleene tem um
>>>>> comentário sobre o argumento de Gödel, e penso que deve ser algo
>>>>> parecido mesmo, pegar uma A nao provável, olhar para consistencia de
>>>>> PA + ~A e aplicar completude.
>>>>>
>>>>> Mesmo pensando em termos do modelo standard, o Francicleber me mandou
>>>>> uma mensagem (a qual também agradeco) lembrando que nao há porque se
>>>>> preocupar só com a sentenca de Gödel, pois para qualquer A que nao
>>>>> seja demonstrável, teremos uma entre A, ~A será válida no modelo
>>>>> standard, e assim teremos uma fórmula válida no modelo standard que
>>>>> nao será consequencia sintática de PA e que portanto nao vale em todos
>>>>> os modelos, garantindo a existencia dos modelos nao-standard (mas
>>>>> passando pelo Teorema da Completude...).
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>> >>
>>>>> >> 2) Usualmente se diz que "G é verdadeira e nao pode ser
>>>>> demonstrada".
>>>>> >> Bem, G é (facilmente) equivalente à consistência de PA (o que
>>>>> >> inclusive já prova o Segundo Teorema de Incompletude).
>>>>> >>
>>>>> >> Muitas vezes se diz que "G é verdadeira no modelo standard" (isso
>>>>> >> aparece inclusive no argumento que eu destaquei acima). Essa
>>>>> afirmacao
>>>>> é
>>>>> >> intuitiva ou pode ser mesmo formalizada ?
>>>>> >
>>>>> > Sim,  pode  ser verificada no modelo standard.
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>> --------> Nao achei nenhuma boa referencia sobre isso, mas deu pra
>>>>> entender que a argumentacao usa a nocao de "truth-in-a-model"...
>>>>> Essencialmente, a codificacao de Gödel é em cima dos naturais
>>>>> standard, e depois de feita a prova, olhamos para as codificacoes e
>>>>> checamos que uma certa fórmula com quantificador vale no modelo
>>>>> standard (como é semântico, "basta olhar", se fosse sintático teria
>>>>> que aparecer algo como \omega-consistência). Essa fórmula é G. OK.
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>> >
>>>>> >> (sobre esse problema eu vi que se tem uma discussao filosófica
>>>>> >> interessante, "saber" (ou "ser capaz de deduzir que") que a sentenca
>>>>> G
>>>>> >> é verdadeira seria uma prova de que a mente humana supera os
>>>>> >> computadores, isso seria um tal argumento de Lucas/Penrose...)
>>>>> >
>>>>> >
>>>>> > Mas essa  é outra questão-- a propósito, dê   uma  olhada em:
>>>>> >
>>>>> > "Why is the Lucas-Penrose Argument Invalid?"  Manfred Kerber,
>>>>> > http://www.cs.bham.ac.uk/~mmk/papers/05-KI.html
>>>>> >
>>>>>
>>>>>
>>>>> --------> Essa questao do argumento de Lucas\Penrose, eu já tinha
>>>>> visto que era bem polêmica... Vou ler esse artigo que vc me indicou.
>>>>> Trombei na internet com um artigo do Shapiro de nome engracado,
>>>>> tratando nao exatamente disso mas de algo relacionado: "A sentenca de
>>>>> Godel é verdadeira - mas alguém mudou de assunto ?"
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>>
>>>>> >> 3)(e aqui uma pergunta que se alguém me fizer hoje eu nao sei
>>>>> responder)
>>>>> >>
>>>>> >> A sentenca de Godel G é equivalente a Con(PA). Assim, se eu assumo
>>>>> >> Con(PA), estou assumindo que G é verdadeira. Ela nao deveria entao
>>>>> ser
>>>>> >> verdadeira em todos os modelos de PA ? Como fica o argumento acima
>>>>> >> para modelos nao-standard ?
>>>>> >
>>>>> > Se eu entendi bem  questão  (essas  coisas são  derrapantes), tudo
>>>>> > isso vale para o modelo standard de PA. Para  os não  -standard,
>>>>> seria
>>>>> > outra coisa. Mas  não  há nada de chocante nisso (pelo menos  como eu
>>>>> > vejo).
>>>>> >
>>>>>
>>>>>
>>>>> ------> É, aqui eu dei uma derrapda, por falta de experiencia de
>>>>> trabalhar com PA (faco argumentos do tipo para ZFC e nunca tive
>>>>> problema nenhum !). Como PA nao prova Con(PA), entao, como a
>>>>> aritmética, apesar de ser sintaticamente incompleta, é semanticamente
>>>>> completa, nao vai ter Con(PA) válida em todos os seus modelos.
>>>>> Tranquilo. Devo estar entre os que pensam no Teorema da Completude
>>>>> como sendo para LÓGICAS de primeira ordem, sendo que podemos enunciar
>>>>> para TEORIAS de primeira ordem... Simplesmente, esqueci de aplicar
>>>>> Completude quando fiz a pergunta (3) !!!
>>>>>
>>>>> "Assumir a consistencia de PA" nao é uma frase "cataclismica" que muda
>>>>> a compreensao das coisas, só equivale a dizer que uma certa fórmula
>>>>> (ou string de números...) está sendo suposta verdadeira. "Assumir a
>>>>> consistencia de PA" é "Estamos trabalhando num modelo onde a sentenca
>>>>> de Godel é satisfeita".
>>>>>
>>>>> Como disse, estou sempre fazendo isso em ZFC. Existem muitas assercoes
>>>>> matemáticas equivalente a CH (Hipótese do Contínuo) - uma simples e
>>>>> que estou fazendo propaganda é a seguinte: "Se do plano R^2 retiramos
>>>>> um conjunto de tamanho aleph_1, o que resta é um conjunto simplesmente
>>>>> conexo". "Assumir CH" nao faz com que essa frase sobre o R^2 seja
>>>>> verdadeira, "Assumir CH" é trabalhar num modelo em que CH vale (e essa
>>>>> frase sobre o plano também).
>>>>>
>>>>>
>>>>> > Estou trabalhando na questão  da consistência, preparando um artigo
>>>>> > para  os  "Proceedings" do  evento   "CLE/AIPS - Science, Truth and
>>>>> > Consistency" (em homenagem
>>>>> > aos 80 anos do Newton) . Minha proposta, mas  isso leva uma 25
>>>>> > páginas, é  que há tantas noções de  "consistência" que  o conceito
>>>>> > axiomatizado (como nas LFI's) deveria ser  levado  a sério, e  teria
>>>>> > talvez  até modelos não standard!
>>>>> >
>>>>> >
>>>>>
>>>>> ------> Bom, depois gostaremos todos de ter acesso ao trabalho !
>>>>> A nocao de "consistencia nao-standard" deve ser interessante... Grato,
>>>>> Walter.
>>>>>
>>>>>
>>>>> Décio: meio sem querer, durante a preparacao dessa minha palestra, eu
>>>>> acabei me preocupando com essas questoes do tipo que vc levantou, "as
>>>>> más interpretacoes" do Teorema da Incompletude. Fora as questoes mais
>>>>> óbvias, aplicando incompletude para a Bíblia ou para a Constituicao,
>>>>> existem outras mais sutis.
>>>>>
>>>>> Por exemplo, uma frase que eu já falei para os meus alunos e que nao
>>>>> está errada, mas dá a entender algo que nao é lá muito correto:
>>>>>
>>>>> "O Teorema da Incompletude mostra que existem questoes matemática
>>>>> indecidíveis, como por exemplo a Hipótese do Contínuo"
>>>>>
>>>>> Bem, tem que se tomar cuidado aí. O Teorema da Incompletude mostra que
>>>>> existem questoes *aritméticas* indecidíveis. Claro que sao questoes
>>>>> matemáticas, mas usar a Hipótese do Contínuo como exemplo pode dar a
>>>>> entender que a indecidibilidade da Hipótese do Contínuo (CH) seria um
>>>>> "corolário da demonstracao" dos teoremas de incompletude, o que nao é
>>>>> o caso (a consistencia
>>>>> de CH veio da construcao do modelo construtível, e a de ~CH veio da
>>>>> invencao do método de forcing).
>>>>>
>>>>> Tem um livro recente do Torkel Franzen, "Incomplete guide for use and
>>>>> abuse...etc.", acredito que o Walter conhece este livro, assim como
>>>>> outros colegas também...  Nesse livro o autor (que aparentemente
>>>>> morreu há pouco) faz comentários bastante interessantes sobre este
>>>>> tipo de problemas. Os teoremas da incompletude nao impedem que alguém
>>>>> faca uma teoria sobre números e fantasmas que seja sintaticamente
>>>>> completa no que se refere a... fantasmas.
>>>>>
>>>>> Antes de me despedir, levanto uma outra questao, já que falei no
>>>>> Torkel Franzen:
>>>>>
>>>>> Ele tem uma visao interessante sobre o que é dizer que uma assercao
>>>>> (aritmética) A é verdadeira.
>>>>>
>>>>> Ele diz que "A é verdadeira" é equivalente ao... enunciado de A.
>>>>>
>>>>> Por exemplo, "A Conjectura de Goldbach é verdadeira" é equivalente a
>>>>> "Todo par maior do que 2 é soma de dois primos". Pronto, acabou, é uma
>>>>> afirmacao sobre números naturais.
>>>>>
>>>>> OK, legal, mas concordam que ele está se referindo ao modelo standard
>>>>> ? Que na verdade ele está se referindo a naturais standard ?
>>>>>
>>>>> Pelo que percebi, isso acontece também quando se discutem teoremas
>>>>> como o de Paris-Harrington e o de Goodstein: dizer que "uma afirmacao
>>>>> é verdadeira e nao pode ser demonstrada" é dizer que "uma afirmacao é
>>>>> verdadeira no modelo standard e nao pode ser demonstrada".
>>>>>
>>>>> Aí eu pergunto aos colegas: é consenso entre os filósofos da matemática
>>>>> que
>>>>>
>>>>> fato aritmético verdadeiro = fato aritmético verdadeiro no modelo
>>>>> standard
>>>>>  ?
>>>>>
>>>>> Se sim, acho que é por aí a nocao do Torkel Franzen.
>>>>>
>>>>> Até mais,
>>>>>
>>>>> []s  Samuel
>>>>>
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