Então, tudo depende do que sua teoria favorita diz do estatuto ontológico
dos constituintes de proposições. Eu apenas mostrei que dentro de certas
teorias, não é incoerente ou um erro categórico falar de objetos concretos
contraditórios.

2010/8/11 julio cesar <[email protected]>

>
> Mas não é necessário que os constituintes da proposição sejam objetos
> concretos. A referência de tais constituintes, a meu ver, está na estrutura
> lógico-semântica da minha linguagem, que *representam* o mundo e, por isso
> mesmo, não é o mundo.
>
> Assim, se a teoria gera necessariamente a verdade da afirmação *o gato
> dentro da caixa está vivo e morto* isso seria, no máximo, apenas uma prova
> de que minha teoria é contraditória, e não que o mundo seja contraditório.
>
> abraços,
> Julio
> ------------------------------
> *De:* Manuel Doria <[email protected]>
> *Para:* julio cesar <[email protected]>
> *Cc:* Dídimo Matos <[email protected]>; logica <
> [email protected]>
> *Enviadas:* Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010 17:05:28
> *Assunto:* Re: sobre a contradição "real"
>
> Se os constituintes de proposições são objetos concretos, então podem
> existir contradições reais no mundo. Os constituintes da proposição expressa
> pelo meu pensamento individuado linguisticamente na sentença "A capital do
> Amapá é o Macapá" são, de acordo com certas visões russellianas,
> *literalmente* a cidade e o estado inteiros. Depois de Kripke e Putnam,
> discute-se se certos termos puramente referenciais de nossa linguagem são
> vazios de conteúdo descritivo/cognitivo, possuindo apenas conteúdo
> intencional - que são puramente os objetos extramentais o qual se referem.
>
> De forma análoga, a proposição expressa na sentença "o gato dentro da caixa
> está vivo e morto" poderia exemplificar literalmente uma contradição real.
>
> Se os constituintes de proposições são objetos intencionais, numa
> perspectiva fisicista naive, vão continuar sendo alguma forma de objetos
> concretos.
>
> Quando Graham Priest pensa "a sentença do mentiroso é uma contradição
> real", no que consiste o conteúdo de sua concepção? O ato de "conceber" em
> geral é usado no sentido de "conceber sem contradição". Seria o pensamento
> de um dialeteísta *realmente* contraditório? Anti-dialeteístas poderiam
> alegar por exemplo que o conteúdo de seu pensamento é vazio e que ele
> realiza um juízo equivocado sobre qual é o *real* conteúdo de seu
> pensamento.
>
> Enfim, todas essas são questões delicadas.
>
> 2010/8/11 julio cesar <[email protected]>
>
>> De fato, entendo as truth-bearers como algo só aplicável em proposições.
>> Dessa forma, assim como não há *verdades* fora delas, também não pode haver
>> contradições.
>>
>> Não estou pressupondo nada como *o vermelho em si* para afirmar
>> isso. Frege diz algo sobre isso no *Pensamento, uma investigação lógica*:
>>
>> *Mas não vemos que o Sol se levantou? E não vemos ao mesmo tempo que isso
>> é verdadeiro? Que o Sol se tenha levantado *não* é um fato que emita
>> raios que atinjam meus olhos, não é algo visível como o próprio Sol.*  (grifo
>> nosso)
>>
>> Abraços,
>> Júlio
>>
>>
>>
>> ------------------------------
>> *De:* Manuel Doria <[email protected]>
>> *Para:* Dídimo Matos <[email protected]>
>> *Cc:* julio cesar <[email protected]>; logica <
>> [email protected]>
>> *Enviadas:* Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010 12:57:20
>> *Assunto:* Re: [Logica-l] sobre a contradição "real"
>>
>> Um requisito para existirem contradições reais no mundo é a existência de
>> truth-bearers não-abstratos, realizados no mundo. Em geral, filósofos tendem
>> a ser pluralistas quanto ao que conta como um truth-bearer - proposições,
>> sentenças, crenças, etc. Dependendo de como você compreende conteúdo
>> proposicional, este é concreto - como em algumas interpretações de
>> proposições russellianas. Crenças são estados mentais e todo bom
>> materialista não-eliminativista consideraria as mesmas como entidades
>> concretas, possivelmente até natural kinds que existem em todos agentes
>> racionais.
>>
>> Robert Kirkham em "Theories Of Truth" descreve um universo hipotético
>> povoado apenas por ursos de brinquedo e como os próprios ursos poderiam ser
>> portadores de valor de verdade.
>>
>> [ ]'s
>>
>> 2010/8/11 Dídimo Matos <[email protected]>
>>
>>>  Olá Júlio,
>>>
>>> E linguagem não é o que usamos para descrever o mundo? Uma maçã é
>>> vermelha por causa da linguagem ou esse é o modo como ela é? Não entendi bem
>>> as suas proposições.
>>>
>>> Abraços,
>>> Dídimo Matos
>>> http://didimogeorge.blogspot.com/
>>> http://twitter.com/didimogeorge
>>> _______________________
>>> Para algumas pessoas, antes morrer que pensar. E, morrem antes mesmo.
>>> Russell em tradução de Rodrigo Jungman.
>>>
>>>  *From:* julio cesar <[email protected]>
>>> *Sent:* Wednesday, August 11, 2010 12:40 AM
>>> *To:* ddimo logica <[email protected]>
>>> *Subject:* sobre a contradição "real"
>>>
>>>
>>>  Olá Didimo,
>>>  bem, do meu ponto de vista, como disse, (1) "a contradição é uma
>>> questão da linguagem". Eu só aceitaria contradições no mundo se definirmos
>>> que o mundo é uma linguagem (daí ele teria gramática, sintaxe, semântica...o
>>> que, se não é metafísica, é no mínimo muito estranho). Se há pressuposição
>>> metafísica aqui, é apenas que (2) "o mundo é algo bem diferente de uma
>>> linguagem", ao se conceder ao menos isso, se concede também que aquilo que
>>> só se aplica à linguagem, não se aplica ao mundo. Ou seja, de (1) e de (2)
>>> tem-se que *não há contradições no mundo*.
>>>  (qual das duas premissas você não aceita? ou as duas?)
>>>
>>> Em outras palavras, acredito que não há contradições no mundo pelo mesmo
>>> motivo que não há verdades no mundo, pois você precisa de, no mínimo, uma
>>> afirmação (linguagem) para que ambos possam ser aplicados. Tente encontrar
>>> uma contradição ou uma verdade sem utilizar uma afirmação (linguagem), daí o
>>> problema fica claro.
>>>
>>> Outro ponto, não que eu tenha ojeriza contra a metafísica (teríamos que
>>> definir "metafísica" para continuarmos), mas acredito que transferir para o
>>> mundo leis e categorias que só podem existir na linguagem é justamente o que
>>> classificaria um procedimento metafísico.
>>>
>>> Abraços,
>>> Júlio
>>>
>>>
>>>
>>> _______________________________________________
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>>> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
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