Caro Julio Cesar:
Entendo perfeitamente as motivacoes que voce tem para adotar uma definicao de
logica como a que voce enunciou, mas eu nao vou (ou nao posso) embarcar no seu
navio...
Ontem a noite respondi (ou tentei) a algumas perguntas formuladas pelo Walter,
mas antes de dar estas respostas enunciei um caveat, justamente por temer um
comentario como o seu...
>Primeiro, um caveat: Cada logica tem seu escopo. >O projeto de definir uma
>Logica Bayesiana tem como >escopo modelos estatisticos, aplicados a ciencias
>empiricas. >Dentro deste escopo, podemos eventualmente chegar a >conclusao que
>esta logica eh util para discutir certos problemas >de epistemologia e teoria
>da ciencia, isto eh, para formalizar >argumentos em discucoes
>meta-cientificas. >Todavia, creio que esta logica NAO tem nenhuma chance de
>>ser util para fazer fundamentos da ou meta- matematica.
A Estatistica Bayesiana utiliza a linguagem do Calculo e Alebra Linear (ou
Teoria da Medida e An.Funcional). Se eu aceitar a sua definicao, vou direto
para onde nao quero, isto eh, fazer fazer Fundamentos da Matematica. (Nao que
eu nao gostaria, mas eh muita areia para o meu caminhaosinho... :-)
Usando a minha definicao, isto eh, a de um calculo de valores (ou funcoes)
verdade, evito ser "puxado para traz" na direcao de fundamentos da matematica,
e posso "ir para frente", isto eh, para onde eu quero, rumo a epistemologia e
teoria da ciencias empiricas. Ta bom, eu tenho que supor que "sei" do que estou
falando quando utilizo a matematica que eu preciso (um monte).
Isto me lembra de um incidente do meu tempo de mestrado, em Geometria
Diferencial, com o Edgard Harle, do IME-USP. Certo dia o IME estava em
polvorosa, porque alguem tinha "descoberto" uma prova topologica de
inconsistencia de ZF. A tal prova iria ser discutida no horario do seminario de
Geometria, e fomos perguntar ao Harle se nao seria melhor cancelar nosso
seminario para ver do que se tratava. O Harle riu, e disse: De jeito nenhum!
Primeiro, nao eh em um seminario de 2 horas que voces vao entender uma prova
destas... Segundo, se a tal prova for correta (nao era), azar do pessoal de
Logica e Teoria dos Conjuntos. Por uma questao de senioridade, eles eh que tem
que arrumar a casa para eu continuar fazendo a minha Geometria velha de guerra,
nao o contrario... (Tal bom, ele nao gostava mesmo de fundamentos)
Reconheco, fugi de um monte de questoes dificeis. Lavei as maos sobre todas as
questoes de fundamentos da matematica, que sao uma area importantissima de
pesquisa em Logica. Para compensar esta omissao tenho que assumir
responsabilidades com alguma questao nao trivial. Acho que isto passa pela 3a
questao do Walter: O significado de enunciados de existencia (sobre hipoteses
precisas em estatisticas) e seu compromisso ontologico (em ciencia). Isto
fica para o proximo e-mail.
Ate a semana, ---Julio
Date: Thu, 19 Aug 2010 21:33:36 -0700
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Subject: [Logica-l] Res: definição de Lógica
Olá, pessoal,
a definição de "Lógica", a meu ver, é um dos assuntos mais obscuros da
filosofia da lógica, no entanto é talvez o mais importante. Deixo aqui o alerta
de que minha opinião sobre esse assunto ainda não possui nada definitivo.
Assim, a discussão, a meu ver, se torna essencial. Concordo que a definição
que deu o Júlio Stern é reducionista mas acredito que seu problema é que ela
não seja reducionista o bastante! Eu diferencio *Lógica* de *Sistemas Formais*,
por isso não concordo que ela seja um 'formalismo', muito menos que todos
'formalismos' - ainda que funcionais em si mesmos - sejam Lógicas. Um Sistema
Formal é uma linguagem, nunca uma Lógica (por exemplo, a Begriffsschrift de
Frege, precisamente falando, é uma Linguagem que explicita uma Lógica). Com o
risco de deixar muita coisa fora, minha definição é mais ou menos assim:
Lógica é o conjunto de regras que
gera a estrutura semântica e as leis de inferência da sua própria
meta-linguagem de apresentação.
Em outras palavras, se meu sistema que apresenta uma lógica A,
necessitar ser apresentado através de uma lógica B, a lógica A apenas
*encapsula* as regras da lógica B em um novo arranjo sintático-semântico e,
assim, em última análise, depõe a favor de B, não de A.
Obviamente, essa *definição*, além de não tão precisa e um
tanto reducionista, ainda deixa em aberto a questão sobre se há um pluralismo
lógico e, caso negativo, qual seria essa lógica única. abraços,Júlio César A.
Custódio
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