Não vejo como dizer que Shakespeare teria "descoberto" algo que estava
no "espaço de possibilidades" sem que ele tivesse sequer _vasculhado_
este espaço.  Talvez "reinventado" seja a palavra certa, mesmo para um
platonista...

O tema da "Biblioteca Universal" foi de fato inventado (ou, dizem
alguns, foi encontrado entre os livros da própria Biblioteca
Universal!) há bastante tempo, e o tema foi explorado com muita
competência e razoável criatividade (sem macacos nem máquinas de
datilografar, na versão final), em particular, por Borges
(http://www.literaberinto.com/vueltamundo/bibliotecaborges.htm).  A
Biblioteca de Babel borgiana contém exclusivamente "libros de formato
uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de
cuarenta renglones; cada renglón, de unas ochenta letras de color
negro".  Segue desta descrição, pelo Lema de Zorn, que há pelo menos
um livro com infinitas cópias, caso a biblioteca seja mesmo infinita.
Borges parece não ter percebido isto, contudo, como consequência dos
seus "axiomas" (ou talvez ele não trabalhasse exatamente em ZFC, algo
que também fica aparente no seu conto "El Aleph").

Quine tem um artigo bem curtinho no qual ele analisou e simplificou a
"Biblioteca Universal":
http://jubal.westnet.com/hyperdiscordia/universal_library.html
O Teorema do Macaco Infinito é por sua vez discutido em:
http://en.wikipedia.org/wiki/Infinite_monkey_theorem

Por fim, vale mencionar ainda o conto borgiano "Pierre Menard, autor
de Quijote", na qual a obra de Cervantes é recriada de uma forma muito
mais inteligente e direta do que no _negócio dos macacos_.

Joao Marcos

2011/9/29 Antonio Carlos da Rocha Costa <[email protected]>:
> Na verdade, chama-se "Princípio da Biblioteca do Museu de Londres", para
> indicar que, dado o tempo necessário, todos os livros da biblioteca poderiam
> ser "re-inventados" desse jeito.
>
> Mas, para mim, o principalmente questionamento que resulta é de natureza
> estética, particularmente sobre a noção de "criatividade": dado que, em
> nível formal, todos os textos já estão escritos no espaço de possibilidades,
> é correto dizer que o autor do texto "criou" o texto?
>
> Dado que qualquer peça de Shakespeare já estava escrita no espaço dos textos
> possíveis com aquele tamanho de texto, é certo dizer que Shakespeare "criou"
> aquelas peças?
>
> Ou é mais correto dizer que ele as "descobriu" (como quem descobre um
> depósito de um mineral qualquer que já existia em algum lugar).
>
> A consequência prática direta é que o argumento parece invalidar qualquer
> noção de "direito autoral".

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