Marcio,

Minha sugestão é que você leia o livro mais recente de Nassim Taleb:
Antifragile.
Simplificando demais,  a ideia é que o ser humano tem aprendido como
aprendiz  (no sentido de alguém que aprende fazendo) séculos.  Esta é
provavelmente a melhor forma de se aprender.

Adolfo Neto
Em 21/02/2014 11:39, "Márcio Palmares" <[email protected]> escreveu:

> Prezados colegas,
>
> Resgatei essa mensagem antiga do Prof. Decio Krause porque estou intrigado
> com um problema:
>
> 1º) De fato, é pouco provável que os estudantes de pedagogia possam
> compreender o significado do programa da "epistemologia genética", pois não
> possuem nenhum preparo em lógica ou em álgebra (mesmo nos níveis mais
> elementares dessas disciplinas);
>
> 2º) O isomorfismo parcial que Piaget acreditava ter observado entre os
> processos de adaptação biológica (há uma certa formalização para eles) e os
> processos de evolução das "estruturas" que ele julgava ter observado na
> evolução da inteligência humana (isso parece apenas "psicologismo", mas há
> também uma certa formalização para isso) seriam a justificativa para a
> construção dessa teoria do conhecimento (epistemologia "genética", o termo
> vem de "gênese", nada a ver com "genética" no sentido de hereditariedade)
> em que os conhecimentos humanos são definidos como "órgãos superiores de
> regulação das trocas funcionais do organismo com o meio exterior".
>
> (Nota: estou citando tudo de memória, posso ter cometido erros. Mas essa
> tese está exposta no livro "Biologia e Conhecimento".)
>
> No início, Piaget foi severamente criticado por E. W. Beth, que julgava que
> seus trabalhos eram apenas "psicologismo". Posteriormente, Beth passou a
> colaborar no Centro Internacional de Epistemologia Genética de Genebra, e
> os dois escreveram um livro muito interessante, chamado "Epistemologia da
> Matemática e Psicologia".
>
> Portanto, ao menos uma autoridade da área de Fundamentos julgou que essa
> pesquisa era relevante.
>
> Pergunto: do ponto de vista algébrico, será que realmente faz sentido, ou
> melhor, será que realmente é possível "provar" esse isomorfismo? Alguém por
> acaso já checou isso, ou será que Piaget usou essa expressão como mera
> analogia, isto é, sem que ela realmente estivesse sendo usada no sentido
> matemático do termo?
>
> Agradeço se alguém puder liquidar essa dúvida.
>
> Abraço a todos,
>
> Márcio
> (estudante de licenciatura em matemática da UFPR procurando um resultado
> interessante para seu trabalho de conclusão de curso...)
>
>
>
> Em 25 de janeiro de 2010 22:45, Decio Krause <[email protected]
> >escreveu:
>
> > Pessoal
> > O problama da matemática e de seu ensino passa pelos seus *métodos*, que
> > devem ser considerados.
> > Eu lembro de um frase do Charlie Brown para a Peppermint, no Peanuts, que
> > obviamente ia mal na escola (anos 50, 60):
> > "How can you do new maths with an old mathematical mind?"
> > Isso indica outra coisa do que a evidente dificuldade com a mudança de
> > estratégia que houve da "velha" para a "nova" matemática (não estou
> > defendendo nem uma, nem outra): é preciso preparar as mentes primeiro,
> > entrar em transe. Como alguém já disse, hoje há shoppings, vídeos, etc.,
> > que são muito mais atraentes do que matemática. O que deveria haver são
> > palestras motivadoras, e há muita gente competente para motivar gente
> nova,
> > não tipo professores de cursinho, mas tipo os livros de divulgação do Ian
> > Stewart.
> >
> > A matemática é difícil, como qualquer coisa que se faça a sério. Ou acham
> > fácil tocar violino ou piano? Ou correr 100m em olimpíadas? Ou jogar no
> > Corinthians? Ou ser um bom cozinheiro? Ou um bom policial? Ou organizar
> uma
> > casa (família)? Mais facil  ser relaxado, fazer as coisas mais ou menos,
> >  ensinar (mal) matemática, ou algo que se assemelhe ao tema,
> principalmente
> > em nossas escolas (todas) onde não há supervisão decente e não pode haver
> > por questões ideológicas. O argumento do Carlos de que dizer que  a
> > matemática é difícil atrapalha seu estudo didático begs the question. Se
> é
> > difícil, é difícil, ponto. O problema é que a sociedade aceita que as
> > pessoas podem não passar (reprovar) na *prova* de seleção ao juniors do
> > Flamengo (houve 1500 candidatas--mulheres--para jogar no time de futebol
> > feminino do Santos dias atrás), ou para entrar no Big Brother, mas não
> > podem reprovar na escola. Questão de valores...
> >
> > Em todo caso, em assunto correlato, creio que muito da crítica aos
> > "médodos modernos" em nosso meio (que apareceram aqui no inicio dos anos
> > 60) foram influenciados pelo livro do André Revuz que fez sucesso nos
> anos
> > 60, e que achava um absurdo (e é mesmo) "lecionar Bourbaki em fatias para
> > os alunos" (ou algo assim). Eu não acho uma boa ensinar teoria de
> conjuntos
> > para crianças, conjunto vazio, propriedades associativas, etc. Acho que
> > elas devem aprender aritmérica de ir ao mercado, e somente mais tarde,
> aos
> > poucos, as coisas mais delicadas, quando se dirigirem aos assuntos em
> tela.
> > De tudo o que li a respeito, quando estudei isso, achei que a dificudade
> > com o ensino da matemática se devia não à matemática  pp. dita, mas à
> falta
> > de preparo dos professores para ensinar algo que eles mesmos não
> entendiam.
> > Mas isso é óbvio.
> > Quanto a Piaget, eu duvido, mas duvido mesmo, que qualquer pedagogo tenha
> > lido a Epistemologia Genética inteira, ou, se *leram*, a tenham entendido
> > (como já disse ao Ricardo uma vez): as partes sobre as epistemologias da
> > lógica, da matemática e da física são confusas, podendo ser lidas (se
> > podem) somente por quem conhece muito bem o assunto, e essas pessoas
> > certamente não precisarão aprender sobre o tema em Piaget. Interessantes
> > (para mim) são as suas observações sobre a construção do real, etc.
> > Para quem gosta do tema, sugiro o livro do Laurent Shwartz (sim, ele
> > mesmo), "Para salvar a universidade", escrito quando da mudança do
> sistema
> > de ensino francês. Perguntei a vários pedagogos e assemelhados, e ninguém
> > conhece. Esse sim é um cara a ser lido e refletido.
> > Boa sorte a todos nós, mas o futuro é mesmo negro. Vai chegar uma hora em
> > que queimaremos os livros de filosofia, de artes, de boa literatura,
> porque
> > não haverá quem os leia.
> > Abraços,
> > Décio
> > Ah, lembrei das posições do Arnol'd contra o método axiomático e o ensino
> > bourbakista. Quem quiser me peça que eu dou as referências.
> >
> > ________________________________
> > Decio Krause
> > Departamento de Filosofia
> > Universidade Federal de Santa Catarina
> > 88040-990 Florianópolis, SC -- Brasil
> > [email protected]
> > www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> > ________________________________
> > *"Ignorance is like a shadow. It has no real substance of its own, it is
> > simply a lack of light. You cannot cause a shadow to disappear by trying
> to
> > fight it, by stamping on it, by rallying against it, or by using any form
> > of emotional or physical resistance. In order to cause a shadow to
> > disappear you must shine light on it.'  (From the Archive of Non
> Locality)*
> >
> >
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