Caro  Marcio
Como mencionou uma mensagem minha, digo algo. Se quiser, podemos falar sobre 
algum tema para seu estudo. A observação é quanto ao uso da palavra 
"isomorfismo" que você menciona. Em sentido preciso, é algo que pode haver 
entre estruturas matemáticas, e só entre elas tem um sentido preciso. Todo 
outro uso deve ser entendido com parcimônia, como quando os filósofos falam em 
"isomorfismo com o real". Isso é muito vago e não pode ser tomado literalmente.
Continuo com minha opinião sobre a Epistemologia Genética, hoje bastante 
démodé. Difícil falar em ensino hoje sem levar em conta coisas como a 
neurociência. Sabe-se razoavelmente bem como o cérebro aprende, e ainda ficamos 
lendo textos do século XVIII? Mas já pensou os pedagogos terem que estudar mais 
isso? Melhor deixar como está e continuar recitando a mesma cartilha, hoje 
atualizada com muita ideologia "social".
Abraço
D



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Décio Krause
Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Santa Catarina
88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
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> Em 21/02/2014, às 11:38, Márcio Palmares <[email protected]> escreveu:
> 
> Prezados colegas,
> 
> Resgatei essa mensagem antiga do Prof. Decio Krause porque estou intrigado 
> com um problema:
> 
> 1º) De fato, é pouco provável que os estudantes de pedagogia possam 
> compreender o significado do programa da "epistemologia genética", pois não 
> possuem nenhum preparo em lógica ou em álgebra (mesmo nos níveis mais 
> elementares dessas disciplinas);
> 
> 2º) O isomorfismo parcial que Piaget acreditava ter observado entre os 
> processos de adaptação biológica (há uma certa formalização para eles) e os 
> processos de evolução das "estruturas" que ele julgava ter observado na 
> evolução da inteligência humana (isso parece apenas "psicologismo", mas há 
> também uma certa formalização para isso) seriam a justificativa para a 
> construção dessa teoria do conhecimento (epistemologia "genética", o termo 
> vem de "gênese", nada a ver com "genética" no sentido de hereditariedade) em 
> que os conhecimentos humanos são definidos como "órgãos superiores de 
> regulação das trocas funcionais do organismo com o meio exterior".
> 
> (Nota: estou citando tudo de memória, posso ter cometido erros. Mas essa tese 
> está exposta no livro "Biologia e Conhecimento".)
> 
> No início, Piaget foi severamente criticado por E. W. Beth, que julgava que 
> seus trabalhos eram apenas "psicologismo". Posteriormente, Beth passou a 
> colaborar no Centro Internacional de Epistemologia Genética de Genebra, e os 
> dois escreveram um livro muito interessante, chamado "Epistemologia da 
> Matemática e Psicologia".
> 
> Portanto, ao menos uma autoridade da área de Fundamentos julgou que essa 
> pesquisa era relevante.
> 
> Pergunto: do ponto de vista algébrico, será que realmente faz sentido, ou 
> melhor, será que realmente é possível "provar" esse isomorfismo? Alguém por 
> acaso já checou isso, ou será que Piaget usou essa expressão como mera 
> analogia, isto é, sem que ela realmente estivesse sendo usada no sentido 
> matemático do termo?
> 
> Agradeço se alguém puder liquidar essa dúvida.
> 
> Abraço a todos,
> 
> Márcio
> (estudante de licenciatura em matemática da UFPR procurando um resultado 
> interessante para seu trabalho de conclusão de curso...)
> 
> 
> 
> Em 25 de janeiro de 2010 22:45, Decio Krause <[email protected]> escreveu:
>> Pessoal
>> O problama da matemática e de seu ensino passa pelos seus *métodos*, que 
>> devem ser considerados. 
>> Eu lembro de um frase do Charlie Brown para a Peppermint, no Peanuts, que 
>> obviamente ia mal na escola (anos 50, 60):
>> "How can you do new maths with an old mathematical mind?"
>> Isso indica outra coisa do que a evidente dificuldade com a mudança de 
>> estratégia que houve da "velha" para a "nova" matemática (não estou 
>> defendendo nem uma, nem outra): é preciso preparar as mentes primeiro, 
>> entrar em transe. Como alguém já disse, hoje há shoppings, vídeos, etc., que 
>> são muito mais atraentes do que matemática. O que deveria haver são 
>> palestras motivadoras, e há muita gente competente para motivar gente nova, 
>> não tipo professores de cursinho, mas tipo os livros de divulgação do Ian 
>> Stewart. 
>> 
>> A matemática é difícil, como qualquer coisa que se faça a sério. Ou acham 
>> fácil tocar violino ou piano? Ou correr 100m em olimpíadas? Ou jogar no 
>> Corinthians? Ou ser um bom cozinheiro? Ou um bom policial? Ou organizar uma 
>> casa (família)? Mais facil  ser relaxado, fazer as coisas mais ou menos,  
>> ensinar (mal) matemática, ou algo que se assemelhe ao tema, principalmente 
>> em nossas escolas (todas) onde não há supervisão decente e não pode haver 
>> por questões ideológicas. O argumento do Carlos de que dizer que  a 
>> matemática é difícil atrapalha seu estudo didático begs the question. Se é 
>> difícil, é difícil, ponto. O problema é que a sociedade aceita que as 
>> pessoas podem não passar (reprovar) na *prova* de seleção ao juniors do 
>> Flamengo (houve 1500 candidatas--mulheres--para jogar no time de futebol 
>> feminino do Santos dias atrás), ou para entrar no Big Brother, mas não podem 
>> reprovar na escola. Questão de valores...
>> 
>> Em todo caso, em assunto correlato, creio que muito da crítica aos "médodos 
>> modernos" em nosso meio (que apareceram aqui no inicio dos anos 60) foram 
>> influenciados pelo livro do André Revuz que fez sucesso nos anos 60, e que 
>> achava um absurdo (e é mesmo) "lecionar Bourbaki em fatias para os alunos" 
>> (ou algo assim). Eu não acho uma boa ensinar teoria de conjuntos para 
>> crianças, conjunto vazio, propriedades associativas, etc. Acho que elas 
>> devem aprender aritmérica de ir ao mercado, e somente mais tarde, aos 
>> poucos, as coisas mais delicadas, quando se dirigirem aos assuntos em tela. 
>> De tudo o que li a respeito, quando estudei isso, achei que a dificudade com 
>> o ensino da matemática se devia não à matemática  pp. dita, mas à falta de 
>> preparo dos professores para ensinar algo que eles mesmos não entendiam. Mas 
>> isso é óbvio. 
>> Quanto a Piaget, eu duvido, mas duvido mesmo, que qualquer pedagogo tenha 
>> lido a Epistemologia Genética inteira, ou, se *leram*, a tenham entendido 
>> (como já disse ao Ricardo uma vez): as partes sobre as epistemologias da 
>> lógica, da matemática e da física são confusas, podendo ser lidas (se podem) 
>> somente por quem conhece muito bem o assunto, e essas pessoas certamente não 
>> precisarão aprender sobre o tema em Piaget. Interessantes (para mim) são as 
>> suas observações sobre a construção do real, etc. 
>> Para quem gosta do tema, sugiro o livro do Laurent Shwartz (sim, ele mesmo), 
>> "Para salvar a universidade", escrito quando da mudança do sistema de ensino 
>> francês. Perguntei a vários pedagogos e assemelhados, e ninguém conhece. 
>> Esse sim é um cara a ser lido e refletido.
>> Boa sorte a todos nós, mas o futuro é mesmo negro. Vai chegar uma hora em 
>> que queimaremos os livros de filosofia, de artes, de boa literatura, porque 
>> não haverá quem os leia.
>> Abraços,
>> Décio
>> Ah, lembrei das posições do Arnol'd contra o método axiomático e o ensino 
>> bourbakista. Quem quiser me peça que eu dou as referências. 
>> 
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>> Decio Krause
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>> "Ignorance is like a shadow. It has no real substance of its own, it is 
>> simply a lack of light. You cannot cause a shadow to disappear by trying to 
>> fight it, by stamping on it, by rallying against it, or by using any form of 
>> emotional or physical resistance. In order to cause a shadow to disappear 
>> you must shine light on it.'  (From the Archive of Non Locality)
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