Obrigada, caros membros da Diretoria da SBL!
Itala

Em sex, 26 de abr de 2019 às 23:17, Cassiano Terra Rodrigues <
[email protected]> escreveu:

> Colegas, divulgo aqui a Nota de Repúdio elaborada pela Diretoria da SBL às
> últimas declarações do Presidente Bolsonaro e seu Ministro da Educação
> Abraham Weintraub sobre a filosofia e a sociologia no contexto da educação
> brasileira.
>
> Atenciosamente,
> Cassiano.
>
>
> Nota de repúdio da Sociedade Brasileira de Lógica às declarações de Sua
> Excelência, Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, e
> Sua Excelência, Ministro de Estado da Educação, Abraham Weintraub
>
>
>
> Em apoio à ANPOF – Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia.
>
> Em apoio à SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, ao
> movimento #CiênciaOcupaBrasília e à mobilização nacional de 8 e 9 de maio
> de 2019 contra os cortes orçamentários em Ciência, Tecnologia e Informação.
>
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>
>
> A Sociedade Brasileira de Lógica (SBL) repudia veementemente as recentes
> declarações, por parte de Sua Excelência, o Presidente Jair Bolsonaro, e de
> S. Exa., o Ministro da Educação Abraham Weintraub, a respeito do ensino e
> da pesquisa nas humanidades, particularmente a filosofia e a sociologia.
>
>
>
> As declarações são desastrosas e ofensivas não só aos profissionais dessas
> áreas, como também deslegitimam toda a área das humanidades em todos os
> níveis da educação brasileira, sem excetuar o ensino mais básico da
> alfabetização mais chã, explicitamente mencionada por Sua Excelência o
> Presidente – como se fosse possível aprender a ler e a contar sem reflexão
> e autoconsciência. Chegando mesmo a dizer que apenas ricos deveriam se
> dedicar aos estudos filosóficos, S. Exa. o Ministro junta-se à Sua
> Excelência o Presidente na repetição de preconceitos rasos, caracterizados
> por um utilitarismo de vista curta e um atroz elitismo. Dos muitos
> problemas passíveis de ser levantados, ressaltamos dois erros nessas
> declarações.
>
>
>
> O primeiro erro é supor que só tem valor o que é imediatamente útil. Como
> filosofia e sociologia não trazem “retorno de fato”, devem ser consideradas
> inúteis e, portanto, sem qualquer valor. Ora, a verdade é que esse discurso
> trai uma preocupação exagerada com o que é desqualificado – se filosofia e
> sociologia nada produzem de fato, por que então atacá-las? Se são inúteis e
> desprovidas de todo valor, por que interessariam justamente aos ricos? O
> ataque parece revelar justamente o oposto do que está dito: filosofia e
> sociologia realmente são valiosíssimas, a ponto de merecerem menção direta,
> e, por isso mesmo, devem ser eliminadas do currículo, ou reduzidas ao
> mínimo disponível apenas às classes mais favorecidas. Cabe perguntar,
> portanto, se as palavras de Sua Excelência o Presidente e de S. Exa. o
> Ministro revelam o que seus enunciadores pensam ou se há algo que pensam e
> não manifestam abertamente.
>
>
>
> O segundo erro, apoiado numa rígida e insustentável separação entre teoria
> e prática, é tão grave quanto o primeiro. Se o valor de uma área de estudos
> é reduzido exclusivamente às suas aplicações e resultados imediatos, então
> a própria lógica do processo de conhecer é invertida: raciocinamos para
> chegar às conclusões, para depois buscar descobrir o que fazer com elas, e
> não o contrário. Se as aplicações práticas e os resultados imediatos
> tornam-se critérios normativos para avaliar o conhecimento, então podemos
> deixar de raciocinar, basta aplicar fórmulas já conhecidas. Por que pensar,
> se basta só repetir? “Trabalhe, não pense”, diz um lema de assujeitamento
> já conhecido.
>
>
>
> É claro, seria ingenuidade supor que apenas a filosofia e a sociologia são
> capazes de produzir pensamento “consciente” ou “crítico”, da mesma forma
> como seria ingênuo tentar defender sua “utilidade”. O conhecimento, em
> qualquer área, é sobretudo inútil, contudo tão somente no sentido de que
> seu produto maior não é nada de imediato e material, mas sim a autonomia de
> pensamento e a criticidade de consciência, atingidos apenas no contato com
> o mundo real e na apropriação do saber produzido por outras pessoas, em
> todas as áreas.
>
>
>
> A esse respeito, é impossível esquecer que o lema da nossa bandeira é uma
> adaptação de outro, de Auguste Comte: “O amor como princípio, a ordem como
> base e o progresso como meta”. Isso porque a Escola Militar do Rio de
> Janeiro, já durante o século XIX, foi o principal centro de ensino
> sistemático da doutrina de Comte, o positivismo. Com isso, toda uma geração
> de militares brasileiros tornou-se positivista, a mesma geração que, em
> 1889, protagonizaria a Proclamação da República. De fato, Comte tornou-se
> filósofo após formar-se em engenharia e ser professor de matemática. Seu
> positivismo continha uma classificação das ciências que exerceu forte
> influência sobre a sociologia. Então, apesar de descartarmos do lema da
> bandeira justamente o amor, parece que a filosofia e a sociologia, no final
> das contas, são bem mais importantes para o país do que as últimas
> declarações de Sua Excelência o Presidente e de S. Exa. o Ministro admitem.
>
>
>
> Muito embora possa não saber, quem pensa sempre filosofa, e quem reflete
> sobre as condições práticas de sua profissão no contexto da comunidade em
> que vive sempre pensa sociologicamente. A filosofia e a sociologia agregam,
> sim, método e autoconsciência ao impulso da curiosidade própria do querer
> saber que é a vida do conhecimento. Seus questionamentos são tão frutíferos
> quanto inevitáveis, e esse parece ser seu maior perigo. Com efeito, desde
> Sócrates até hoje, perguntar por que devemos preferir as respostas às
> perguntas acaba por desestabilizar crenças assentadas e acríticas.
>
>
>
> Esse é o questionamento que os poderosos – em todas as épocas, em todos os
> lugares – costumam não tolerar e que é nossa responsabilidade, como
> cidadãos e como membros da comunidade acadêmica-científica brasileira,
> manter vivo.
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> Diretoria 2017-2019, 26 de Abril de 2019.
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