Ótima nota! 
Abraços,
Chico Miraglia 

> On 27 Apr 2019, at 10:14, itala loffredo <[email protected]> wrote:
> 
> Obrigada, caros membros da Diretoria da SBL!
> Itala
> 
>> Em sex, 26 de abr de 2019 às 23:17, Cassiano Terra Rodrigues 
>> <[email protected]> escreveu:
>> Colegas, divulgo aqui a Nota de Repúdio elaborada pela Diretoria da SBL às 
>> últimas declarações do Presidente Bolsonaro e seu Ministro da Educação 
>> Abraham Weintraub sobre a filosofia e a sociologia no contexto da educação 
>> brasileira. 
>> 
>> Atenciosamente, 
>> Cassiano.
>> 
>> 
>> Nota de repúdio da Sociedade Brasileira de Lógica às declarações de Sua 
>> Excelência, Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, e 
>> Sua Excelência, Ministro de Estado da Educação, Abraham Weintraub
>> 
>>  
>> 
>> Em apoio à ANPOF – Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia.
>> 
>> Em apoio à SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, ao 
>> movimento #CiênciaOcupaBrasília e à mobilização nacional de 8 e 9 de maio de 
>> 2019 contra os cortes orçamentários em Ciência, Tecnologia e Informação.
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>> A Sociedade Brasileira de Lógica (SBL) repudia veementemente as recentes 
>> declarações, por parte de Sua Excelência, o Presidente Jair Bolsonaro, e de 
>> S. Exa., o Ministro da Educação Abraham Weintraub, a respeito do ensino e da 
>> pesquisa nas humanidades, particularmente a filosofia e a sociologia.
>> 
>>  
>> 
>> As declarações são desastrosas e ofensivas não só aos profissionais dessas 
>> áreas, como também deslegitimam toda a área das humanidades em todos os 
>> níveis da educação brasileira, sem excetuar o ensino mais básico da 
>> alfabetização mais chã, explicitamente mencionada por Sua Excelência o 
>> Presidente – como se fosse possível aprender a ler e a contar sem reflexão e 
>> autoconsciência. Chegando mesmo a dizer que apenas ricos deveriam se dedicar 
>> aos estudos filosóficos, S. Exa. o Ministro junta-se à Sua Excelência o 
>> Presidente na repetição de preconceitos rasos, caracterizados por um 
>> utilitarismo de vista curta e um atroz elitismo. Dos muitos problemas 
>> passíveis de ser levantados, ressaltamos dois erros nessas declarações.
>> 
>>  
>> 
>> O primeiro erro é supor que só tem valor o que é imediatamente útil. Como 
>> filosofia e sociologia não trazem “retorno de fato”, devem ser consideradas 
>> inúteis e, portanto, sem qualquer valor. Ora, a verdade é que esse discurso 
>> trai uma preocupação exagerada com o que é desqualificado – se filosofia e 
>> sociologia nada produzem de fato, por que então atacá-las? Se são inúteis e 
>> desprovidas de todo valor, por que interessariam justamente aos ricos? O 
>> ataque parece revelar justamente o oposto do que está dito: filosofia e 
>> sociologia realmente são valiosíssimas, a ponto de merecerem menção direta, 
>> e, por isso mesmo, devem ser eliminadas do currículo, ou reduzidas ao mínimo 
>> disponível apenas às classes mais favorecidas. Cabe perguntar, portanto, se 
>> as palavras de Sua Excelência o Presidente e de S. Exa. o Ministro revelam o 
>> que seus enunciadores pensam ou se há algo que pensam e não manifestam 
>> abertamente.
>> 
>>  
>> 
>> O segundo erro, apoiado numa rígida e insustentável separação entre teoria e 
>> prática, é tão grave quanto o primeiro. Se o valor de uma área de estudos é 
>> reduzido exclusivamente às suas aplicações e resultados imediatos, então a 
>> própria lógica do processo de conhecer é invertida: raciocinamos para chegar 
>> às conclusões, para depois buscar descobrir o que fazer com elas, e não o 
>> contrário. Se as aplicações práticas e os resultados imediatos tornam-se 
>> critérios normativos para avaliar o conhecimento, então podemos deixar de 
>> raciocinar, basta aplicar fórmulas já conhecidas. Por que pensar, se basta 
>> só repetir? “Trabalhe, não pense”, diz um lema de assujeitamento já 
>> conhecido.
>> 
>>  
>> 
>> É claro, seria ingenuidade supor que apenas a filosofia e a sociologia são 
>> capazes de produzir pensamento “consciente” ou “crítico”, da mesma forma 
>> como seria ingênuo tentar defender sua “utilidade”. O conhecimento, em 
>> qualquer área, é sobretudo inútil, contudo tão somente no sentido de que seu 
>> produto maior não é nada de imediato e material, mas sim a autonomia de 
>> pensamento e a criticidade de consciência, atingidos apenas no contato com o 
>> mundo real e na apropriação do saber produzido por outras pessoas, em todas 
>> as áreas.
>> 
>>  
>> 
>> A esse respeito, é impossível esquecer que o lema da nossa bandeira é uma 
>> adaptação de outro, de Auguste Comte: “O amor como princípio, a ordem como 
>> base e o progresso como meta”. Isso porque a Escola Militar do Rio de 
>> Janeiro, já durante o século XIX, foi o principal centro de ensino 
>> sistemático da doutrina de Comte, o positivismo. Com isso, toda uma geração 
>> de militares brasileiros tornou-se positivista, a mesma geração que, em 
>> 1889, protagonizaria a Proclamação da República. De fato, Comte tornou-se 
>> filósofo após formar-se em engenharia e ser professor de matemática. Seu 
>> positivismo continha uma classificação das ciências que exerceu forte 
>> influência sobre a sociologia. Então, apesar de descartarmos do lema da 
>> bandeira justamente o amor, parece que a filosofia e a sociologia, no final 
>> das contas, são bem mais importantes para o país do que as últimas 
>> declarações de Sua Excelência o Presidente e de S. Exa. o Ministro admitem.
>> 
>>  
>> 
>> Muito embora possa não saber, quem pensa sempre filosofa, e quem reflete 
>> sobre as condições práticas de sua profissão no contexto da comunidade em 
>> que vive sempre pensa sociologicamente. A filosofia e a sociologia agregam, 
>> sim, método e autoconsciência ao impulso da curiosidade própria do querer 
>> saber que é a vida do conhecimento. Seus questionamentos são tão frutíferos 
>> quanto inevitáveis, e esse parece ser seu maior perigo. Com efeito, desde 
>> Sócrates até hoje, perguntar por que devemos preferir as respostas às 
>> perguntas acaba por desestabilizar crenças assentadas e acríticas.
>> 
>>  
>> 
>> Esse é o questionamento que os poderosos – em todas as épocas, em todos os 
>> lugares – costumam não tolerar e que é nossa responsabilidade, como cidadãos 
>> e como membros da comunidade acadêmica-científica brasileira, manter vivo.
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>>  
>> 
>> Diretoria 2017-2019, 26 de Abril de 2019.
>> 
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