Pessoal,

Assisti alguns dias atrás o vídeo/entrevista promovido acredito pela SBFA,
com o Marcos Silva, Cassiano e Walter, em homenagem ao Walter, com várias
questões relacionadas a desenvolvimentos recentes em lógica paraconsistente.

Fiz até uma pergunta, online: perguntei em qual sentido a escola
brasileira, digamos assim, da paraconsistencia, se diferencia do Graham
Priest. Outra pessoa perguntou se a lógica paraconsistente desemboca em um
compromisso com a dialética.

As respostas do Walter, se não me falha a memória, num tom bem humorado e
descontraído, foram mais ou menos assim:

1. Na lógica paraconsistente tal como a praticamos ou concebemos (na
linhagem direta do Newton da Costa) não há compromisso ontológico, isto é,
ninguém precisa se comprometer com a suposta existência de contradições no
mundo real, como faz o Graham Priest. Isso dá à corrente brasileira
(original) mais versatilidade: pode ser usada em mais contextos;

2. Não há compromisso direto da paraconsistência como sistema de lógica com
a dialética como corrente filosófica;

3. Graham Priest ajudou a popularizar a lógica paraconsistente.


OK. Eu não mexeria em nenhuma dessas afirmações.

Fiz a pergunta sobre o Priest pois gostaria de saber se ele é precursor ou
se ele é usuário. E claro que ele é um popstar, quem não acha bacana um
matemático que luta karatê e escreve sobre zen-budismo e publica livros de
amplo alcance sobre lógicas não classicas... Eu estava querendo saber se
ele está entre os desenvolvedores criadores ou mais entre os usuários... E
se haveria aqui algum uso talvez meio indevido da paraconsistencia sem
citar Newton da Costa (espero que não).

Bem.

Agora, outro problema: a motivação filosófica.

Minha opinião: Newton da Costa estava fortemente imbuído de uma concepção
de dialética, era um dialético, embora motivação filosófica não corresponda
diretamente ao produto matemático final. Mas a motivação filosófica ajuda a
entendermos a gênese: como ou por quê um autor foi por aquele caminho. E
para a gênese, a precisão na história das ideias é relevante.

Vejam esse vídeo aqui:

https://www.youtube.com/live/35WY6QO_YMc?is=_h0sXxA5cWFEDeJQ

Tem 9 mil visualizações.

O que este autor diz sobre Heráclito é meio escandaloso: parece que
Heráclito é Parmênides nessa interpretação (pois é em Parmênides que
encontramos a filosofia de uma unidade, um todo).

Mas o pior é o que ele diz sobre Newton da Costa.

Segue a minha crítica:

(Obs.: não é porque um cara seja um popstar que fala em nome do marxismo
que ele esteja imune à crítica.)

Um ecletismo nocivo por suas meias-verdades (que são também meias-mentiras)

Este autor, Gustavo Machado, é curioso por mais de um motivo...

Primeiro, demonstra um ecletismo difícil de ser superado. Sozinho,
individualmente, do alto de sua tribuna privada e monetizada, ele trata de
todos os aspectos do conhecimento humano: economia, filosofia, história,
literatura, sociologia, computação, matemática, lógica...

Não há nada errado em buscar universalidade. Mas quando esta busca é
individual, não mediada pelo confronto de ideias em uma comunidade
científica ou filosófica, há um risco sério de que a pretensão de
universalidade se transforme rapidamente em profusão de meias-verdades e
equívocos banais que, no contexto de uma busca coletiva pelo saber, seriam
facilmente corrigidos. Em outras palavras, se você não for um Leibniz, se
for um mortal comum, por mais que seja relativamente fácil ter uma tribuna
privada onde se possa discorrer sobre tudo, é conveniente buscar a mediação
coletiva.

O segundo aspecto curioso deste autor é que ele acerta o alvo diversas
vezes e erra o alvo algumas vezes. Os acertos, em geral, correspondem a
saberes bastante conhecidos, a verdades banais, inofensivas. O problema são
os erros. Pois os erros, neste autor, são bastante nocivos.

Vejamos um dos erros desta "live de terça".

Tive a oportunidade de conhecer o Prof. Newton da Costa, conversar com ele
pessoalmente em duas ocasiões.

A primeira, em 2007, na Casa do Professor Visitante da Unicamp. Encontrei o
Prof. Newton da Costa lá, que me recebeu com muita gentileza e foi muito
generoso. Meu plano era conduzir uma entrevista sobre lógica, teoria do
conhecimento e marxismo. Conversamos por cerca de uma hora e meia, quase
duas horas. Fiz cerca de 10 ou 15 perguntas. Tenho a gravação da entrevista
ainda hoje, mas ela nunca foi publicada. Deveria sair na revista Marxismo
Vivo, mas o resultado (pela debilidade do entrevistador, é claro) não foi
totalmente satisfatório: ficou complicada demais para um leigo e
superficial demais para um especialista.

A segunda ocasião foi em um evento promovido pela UFPR em 2019 para
comemorar os 90 anos do Prof. Newton da Costa. Na época eu estava
trabalhando com o Prof. Adonai Sant'Anna (como matemático amador palpiteiro
associado, ex-aluno) num projeto de pesquisa sobre uma teoria fundacional
para a matemática. O Prof. Newton tinha dado uma olhada nos "manuscritos"
do Prof. Adonai e aceitou nos receber para fazer alguns comentários. O
encontramos em um café no Shopping Itália. Depois do bate-papo eu disse ao
Prof. Newton que não tinha conseguido publicar aquela entrevista de 2007...
Ele retrucou: "Publique agora, diga que eu autorizei".

Newton da Costa sempre foi um pensador dialético e defensor da dialética.
Mais ainda: esteve muito próximo do marxismo.

Uma forma de você esterilizar um adversário é cobri-lo de elogios,
envolvê-lo num véu místico, e depois guardá-lo no bolso (ou na estante,
neste caso).

É precisamente o que Gustavo Machado faz neste vídeo.

Não é possível que Gustavo Machado tenha lido o livro que tomou da estante
e mostrou diante da câmera.

Também não é possível que ele tenha visto o documentário recente lançado
sobre Newton da Costa.

Primeiro, neste livro, Newton da Costa diz algo como (citando de memória,
não tenho um exemplar não lido na estante, mas tenho um exemplar lido na
memória):

"Entre os objetivos da lógica paraconsistente estão:

1. Desenvolver técnicas lógico-formais para dar conta do pensamento dos
partidários da dialética, como Heráclito, Hegel, Marx e Lenin."

São também muito conhecidas diversas entrevistas e publicações de Newton da
Costa em que ele ataca a crítica de Popper à dialética.

Popper evocava o princípio da explosão (de uma contradição formal, pode-se
deduzir qualquer coisa) e afirmava que a dialética, uma lógica da
contradição, necessariamente seria trivial.

Newton da Costa diz, neste documentário que Gustavo Machado citou sem
assistir:

"A importância filosófica da lógica paraconsistente, por exemplo para o
marxismo, é que ela refuta a crítica de Popper contra a dialética." Para
bom entendedor, meia palavra basta.

Gustavo Machado diz neste vídeo, do alto do seu ecletismo:

"A lógica paraconsistente não tem nada a ver com a dialética".

Essa afirmação é falsa e corresponde a um movimento para esterilizar o
conteúdo filosófico da paraconsistência.

Diga-se de passagem, marxistas mais perspicazes que Gustavo Machado, como
Graham Priest, apoiam-se nas lógicas paraconsistentes para construir uma
filosofia que explique ou justifique a existência de contradições no mundo
real, que Priest chama de "dialeteia".

É verdade que da lógica de Newton da Costa não se deduz ou não há
comprometimento, como ocorre em Priest, com a suposta existência de
contradições no mundo real.

Mas é falso que a lógica paraconsistente de Newton da Costa não tenha nada
a ver com a dialética.

E este erro é muito mais nocivo do que as verdades banais encontradas em
Gustavo Machado (que ele parece atingir por acaso, já que o ecletismo não é
um caminho seguro).

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