Bom, vou bater uma bola com o Fernandão e ver se isso pode ajudar em algo:
Pra quem não lembra ou não me conhece cheguei por aqui em 2003
querendo difundir o uso do linux com base no melhor desktop
enviroment da história da humanidade : KDE.
Acho que você partiu do que todos partimos: evangelização-linux. Talvez
isso tenha a ver com os jesuítas e toda a base do nosso sistema
educacional: imaginamos que o outro não sabe de nada e nos colocamos em
situação de convertê-lo.
Numa época que o grupo não tinha noção nem de que distro usar em
máquinas velhas, metareciclagem pra mim foi fazer uma distro linux
pra máquina velha (metalinux), me dediquei nesse trampo durante
vários meses... Esforço inútil, então metareciclagem pra mim virou
"capacitar" um grupo de jovens para criação de uma cooperativa de
manutenção de micros... (projeto XuXu)
Tem a ver com inserir o nego no mercado de alguma forma. E partimos
disso, porque achamos que isso é o fundamental. Que o nego tenha
condições de arranjar alguma grana para gastar com o que queira. E isso
não está mau. O ponto é ficar só nisso...
Depois de um tempo metareciclagem pra mim foi criar documentações
sobre coisas complicadas para alimentar o metareciclagem para que o
movimento pude-se desenvolver suas tecnologias (komain) e oficinas
de todos tipos tamanhos e cores...
Isso foi um puta esforço bacana. A apostila do Meta e o Komain têm
ajudado muita gente a caminhar. O ponto é ficar só nisso... Porque se
não seguimos orientando os grupos, as coisas tendem a minguar. Não é
fazer tudo sozinho, ou assumir a postura de um livro (se o nego quer
saber, tem que ir até a estante e tirar você de lá), mas é reconhecer no
outro essa capacidade de caminhar e orientá-lo , através da experiência
que já se tem. E isso não tem a ver com saber mais que o outro, mas com
saber algo que o outro desconhece. Então se compartilha, se troca e se
aprende ensinando.
Desenvolvi uma distro sozinho para uma comunidade, pééééé. Errado, o
correto deveria ter *usado* a comunidade e desenvolvido (ou não) com
a comunidade....
Negritei o usado, para chamar a atenção sobre o termo, porque talvez
reflita uma postura. Você deveria ter orientado a galera na confecção de
uma distro. Acompanhado os erros e acertos. Enxergado as possibilidades
propostas pelos caras. Usar, significa ver o outro como uma prótese sua.
Como se ele não tivesse a sua opinião acerca do mundo. E como se isso
não fosse importante. Orientar é diferente. Envolve consenso.
No projeto Xuxu, acho que influenciei a molecada a criar uma
cooperativa, não tenho muita certeza se foi uma coisa que partiu
deles ou se foi realmente reflexo da oficina que eles tiveram
comigo... o fato é que *a cooperativa não rolou.*
Sobre as documentações que criei, relendo o material parece que
escrevi páginas e páginas de documentação *para os metarecicleiros e
não para os alvos da máquina metarecicladeira....*
Enfim, fiz tudo de forma superficial, *não tive os impactos que
esperava*... e algumas coisas que fiz para a metareciclagem vingaram
fora da metareciclagem, não sei falar a lingua do meta.
Creio eu que isso tem a ver com a sua capacidade de liderança e com o
trator Fernandão. Só que isso não adianta. Acaba sendo falso. Enquanto
você coloca toda a sua energia no projeto e vai comandando, a coisa
rola. Quando sai, a coisa mingua... É preciso orientar orientadores.
Manter esse canal de diálogo estreito. Ter uma visão de conjunto e um
projeto conjunto. Para isso, temos que abrir mão da autoridade
(intelectual, militar, física) e tratar o outro como gostamos de ser
tratados. Ter o outro em conta. E não imaginar que ele siga o que
pretendemos para ele.
Acho que temos que ir cada vez mais em direção a esses que têm
dificuldade com a coisa. Tem achado bacana essa movida em direção às
escolas (Marc Braz, Elly e etc...) Mas acho que a criação destes espaços
em conjunto com as comunidades que possam abrigá-los, pode trazer algo
mais para a comunidade do que um telecentro. Pode trazer a eles a visão
de sua capacidade de se organizar para resolver algo. Sem depender de
autoridade nenhuma. Em consenso.
E eu acho que isso é ouro.
Abraço
Djair
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