Sutil feito uma pata de elefante.
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A fábula do Gato Barbudo
 
Um fazendeiro plantava milho e armazenava o milho no
paiol. Com o milho, o fazendeiro alimentava as
galinhas, os cavalos, as vacas, ovelhas e todos os
outros bichos da fazenda. Os bichos da fazenda, por
sua vez, garantiam ao fazendeiro o seu sustento.
Os ratos insistiam em roubar o milho armazenado no
paiol.
Quem cuidava do paiol era um cachorro. Um cachorro
preto e grande. Quem cuidava do paiol antes do
cachorro cuidar do paiol era o pai do cachorro e,
antes do pai do cachorro assumir a sua função, quem
cuidava do paiol era o avô do cachorro. E sempre foi
assim, a família do cachorro cuidando do paiol, e não
deixando que os ratos comessem todo o milho.
Era um trabalho duro: os ratos não acabavam nunca e,
chovesse ou fizesse sol, lá estavam para roubar uma
espiga aqui, outra ali. O cachorro não tinha folga e
para fazer frente à rapidez dos ratos, mantinha os
músculos em forma e os reflexos ligeiros.
Em compensação, o cachorro adorava o seu trabalho.
Afinal, se não fosse por ele, os ratos já teriam há
muito tempo comido todo o milho e acabado com a comida
dos demais bichos. Em reconhecimento ao seu trabalho,
a bicharada elegeu o cachorro o presidente da fazenda.
E claro que o mando do presidente não era perfeito,
discussões surgiam, a insatisfação aparecia. Mas, de
uma coisa todos podiam ter certeza: quem trabalhasse,
ganhava o seu quinhão.
Um dia, apareceu na fazenda um gato. Um gato magro e
bigodudo. Tão bigodudo que, tivessem barba os gatos,
esse poderia ser um gato barbudo. O cachorro, como
todo cachorro que se preza, ciente da sua função e do
valor do seu trabalho, latiu para o gato, quis que o
gato fosse embora. O cachorro sentia que aquele bicho
de ar debochado, malicioso, sem muito gosto para o
trabalho, não poderia ser grande coisa. O fazendeiro
não ouviu o que o cachorro quis dizer, e o gato foi
ficando, foi ficando, foi ficando...
O gato, que não trabalhava (que, aliás, nunca tinha
trabalhado), tinha bastante tempo para conversar com
os outros bichos da fazenda. E chegava de mansinho
junto da bicharada, magrinho, fraquinho, e começava a
miar. Os outros bichos, muito bonzinhos, paravam para
escutar o que o gato tinha para dizer:
- Miau, miau, ai, ai. O que vai ser de mim. Não existe
lugar nesta fazenda para um bichinho como eu, tão
injustiçado, tão fraquinho! Veja, não posso trabalhar,
o sistema é tão injusto! Só por que não nasci forte
como o senhor, Seu Cavalo, só por que não posso dar
leite como Dona Vaca, não posso trabalhar! O Seu
Cachorro, o dono do poder, não avalia essas
contingências históricas e me mantém mergulhado nessa
penúria...
- Mas, Seu Gato, e aquele trabalho que lhe ofereceram
na casa, como guardião da dispensa?
- Não aceitei, Seu Cavalo. Na verdade, prefiro
continuar minha luta por condições mais dignas!
No fim, depois de tanta ladainha, os bichos começaram
a acreditar no gato. A sentir pena do gato.
E o gato, que se dizia injustiçado.
Que se fazia passar por vítima.
Que era explorado pelo Sistema e, principalmente, pelo
cachorro que lhe negava tais milhos.
Conquistou a simpatia dos bichos.
E fez com que os bichos acreditassem que ele, tão
sofrido, tão maltratado, iria garantir a todos
melhores condições de vida.
Tanto miou, tanto fez, que um dia os bichos revoltados
com a situação de absoluta miserabilidade do gato e
com a injustiça social reinante na fazenda, resolveram
destituir o cachorro.
E de nada adiantou o cachorro insistir que cuidar do
paiol não era para qualquer um. Que ele havia treinado
muito para assumir essa função. Que os ratos não eram
mole, e não dariam trégua assim tão fácil.
Afastaram o cachorro e, por unanimidade, colocaram no
seu lugar o gato.
Os bichos sabiam que o gato dantes nunca havia
trabalhado. Que não tinha sequer se preparado para
assumir a função mais importante na fazenda.
Mas acreditaram que o gato, por ter sofrido mais do
que ninguém com a política do cachorro, traria ordem e
moralidade à administração do paiol.
No começo, tudo foi festa: no lombo de Seu Cavalo,
viajava o gato para outros sítios e fazendas, falando
sobre a sua conquista. Contava aos outros bichos que
agora a fazenda vivia uma nova realidade. Tanta era a
festa, tanta era a euforia, tanta era a esperança, que
os bichos não perceberam que mais e mais gatos não
paravam de chegar.
Gatos de todos os jeitos. Gatos vindos de todas as
partes.
Gatos, que em comum com o gato-presidente, nunca
tinham trabalhado na vida.
E o gato-presidente, que curiosamente chamava todos os
demais gatos de companheiros, precisava arranjar uma
função para essa gataiada.
Então, um dia, quando Seu Cavalo apareceu para puxar o
arado, percebeu que, no seu lugar, um bando de gatos
ocupava os arreios. E Dona Vaca, que produzia o melhor
leite da região, foi expulsa da estrebaria pelos
companheiros do gato-presidente. E as galinhas, no
galinheiro não moravam mais: nos poleiros, gatos e
mais gatos fingiam estar botando ovos.
E o gato-presidente remunerava prodigamente todos os
seu companheiros. Afinal, um trabalho em prol da
coletividade desempenhavam...
Como era de se esperar, o gato-presidente (que nunca
havia trabalhado na vida) não conseguia cuidar do
paiol. Os ratos logo perceberam a situação: atacavam,
como nunca haviam feito, o milho da fazenda.
Tão complicada ficou a situação que o gato-presidente
precisou conversar com o seu conselheiro. Um gato de
óculos, que miava de um jeito esquisito, puxando
demais os "erres":
- Miarr, presidente. A coisa tá feia. Em nome da
governabilidade da fazenda, temos que nos aliar aos
ratos!
- Companheiro, os fins justificam os meios! Devemos
passar aos demais bichos uma imagem de ordem e
tranqüilidade!
E os gatos fizeram um pacto com os ratos: os ratos
fingiam que não roubavam o milho, os gatos fingiam que
caçavam os ratos. Dessa forma, a bicharada acreditava
que os ratos estavam sendo combatidos, e os ratos, que
por baixo do pano recebiam suas espiguinhas e mantinham
os gatos no poder.
Entretanto, o milho foi acabando. E os bichos, que
haviam acreditado na conversa do gato-presidente, com
fome, começaram a ficar insatisfeitos.
E foram todos reclamar com o gato-presidente.
Tarde demais. O paiol já estava infestado de ratos,
ratos por toda parte, ratos em tudo. Ratos e gatos,
gordos, barbudos, aproveitando tranqüilamente o que
havia sobrado de milho no paiol enquanto o resto da
bicharada, os bichos que sabiam trabalhar, que davam
duro, ficaram sem comida.
* ** **
Obs: Qualquer semelhança dos gatos da fábula com os
gatos de verdade é fantasiosa. Os gatos são animais
simpáticos, que, como nós, ocupam seu lugar na ordem
natural das coisas. Diferentemente de muito petista
que existe por aí...
 
Aristides Athayde é advogado, professor de Direito
Internacional da Faculdade de Direito de Curitiba.

 
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