Oi Fabiana

Cresci vendo o narcotr�fico  se desenvolver aproveitado a estrutura montada do jogo do bicho, decorrente de sua ilegalidade.

A maioria de meus amigos de adolec�ncia e inf�ncia n�o chegou aos trinta anos. Sempre estudei em escola p�blica, quando se tinha qualidade nestas. Vejo o quanto � importante se ter escolas p�blicas de qualidade, para que os menos favorecidos tenham uma oportunidade.

H� uns dois anos atr�s encontrei um amigo querido uns dos gerentes do Dono do Morro Juramento, no Rio de Janeiro. Seu nome era "Copeba".

Indo visitar os meus pais, ao subir a rua onde me criei, um dos agentes do Morro me abordou. N�o era um assalto, era uma batida. O Copeba viu e me liberou, contudo tive que pagar um ped�gio de cinco reais.

Ao final da tarde o Copeba foi a minha casa fomos a num bar onde costum�vamos ir quando o Meng�o abotoava o vasco. Estava chateado pois tive que pagar cinco reais para subir a minha pr�pria rua. Ele me respondeu. ï¿½ o pre�o que agente paga para cuidar da gente.

O Copeba nunca teve �ndole m�. Na escola disput�vamos as garotas e as notas. No futebol sempre o vi jogando lealmente. N�o �ramos uns cavalheiros mas �ramos normais. Fomos at� crismados.

Nunca fui melhor do que ele nem ele melhor do que Eu, �ramos amigos.

De repente a vida nos jogou para dois lados opostos.

Naquele fim de tarde ele me narrou como um desabafo a primeira pessoa que ele matou e suas atividades e sua ascens�o no narcotr�fico.

Ele retransido,  pude perceber como a vida pode desgra�ar uma pessoa.

Perguntei-lhe porque n�o saia daquela vida com o dinheiro e as posses que j� tinha conseguido.

Ele me respondeu que Eles o achariam e a sua mulher junto com a sua filha o encontrariam num mundo bem melhor. Disse-me que sabia que tinha vida curta, que n�o aproveitaria o dinheiro, mas que sua  fam�lia sim. Nesta via a sua segunda chance de fazer as coisas certas.

O Copeba nunca tinha deixado de ser o Copeba, mas o caminho que ele veio a trilhar tornou um eventual retorno, nada mais do que uma licen�a po�tica.

Na vida real, um ano depois o meu amigo morreu em atividade. Sua fam�lia hoje tem conforto, dignidade e n�o vive numa atividade il�cita.

Sabe, � muito dif�cil, se vc faz uma coisa aqui, garantir l� na frente que as coisas ser�o desta ou daquela maneira, � muito mais relativo do que pensamos. N�o raras vezes fazemos as coisas certas e estamos errados. �s vezes fazemos as coisas erradas e estamos certos.

Quando temos um tema o apresentamos no plano de Dever Ser. O meu Dever Ser, o seu Dever Ser, o de todos, far� surgir um todo dial�tico que nos conduzir� a uma solu��o que, mesmo assim, ter� muito que se ajustar com a realidade, e, quando n�o, pode fazer mais mal do que o bem.

Operacionalizar uma mudan�a, qualquer mudan�a, � algo desgastante. Al�m dos aspectos que vc corretamente descreveu, as pessoas somente come�am a verdadeiramente se importar quando s�o atingidas direta ou indiretamente. Este aspecto psico-social representa um �bcie t�o grande quanto os que vc mencionou.

Hoje se uma pessoa somente tem dignidade quando assistida em planos de sa�de, como desejar que o Estado cuide do tratamento de dependentes?

N�o se tem sequer uma pol�tica nacional de tratamento de qualquer da depend�ncia.

N�o posso cuidar de tudo. Concentro-me t�o somente no dever-ser, sem tirar qualquer das raz�es que vc firmou com muit�ssima propriedade.

E na minha �tica o Estado deve retirar o monop�lio dos narcotraficantes, tratar a depend�ncia, qualquer depend�ncia, como uma s�ria quest�o de sa�de p�blica, e n�o t�o somente, como caso de pol�cia, ou com uma lei draconiana.

 

Amigavelmente

Acho que consegui ser mais extenso que vc.....

Hetan

   
 
 -----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]]
Enviada em: s�bado, 10 de junho de 2000 20:55
Para: [EMAIL PROTECTED]
Assunto: [penal] Re: [penal] RES: [faroljuridico2] Drogas e Viol�ncia Urbana

Assistente de Criação

 

Prezado Etan;
 
                   Conhe�a agora a opini�o de mais uma pessoa e seu depoimento pessoal...
                   "Quando eu tinha mais ou menos 14 anos passei por uma fase dif�cil, nada relacionado � fam�lia, apenas minha transi��o - mudan�a para a idade adulta - foi meio dolorida.  Nessa �poca conhec� pessoas de todos os n�veis e depend�ncias, daquelas que afirmam beber socialmente, fumar esporadicamente e cheirar sempre que tem vontade.  Nesse mesmo tempo me foi oferecido drogas, e, apesar de todo o conselho da minha m�e, experimentei algumas.  Veja bem, n�o estou sendo hip�crita como o Clinton que diz que "fumou, mas n�o tragou" , eu fumei, traguei e, acima de tudo, viajei.  Satisfeita minha curiosidade em rela��o a uma determinada droga, fui conhecer de perto outra... e aconteceu exatamente a mesma coisa:  n�o vi vantagem alguma.  Devo ter feito o mesmo percurso umas duas, tr�s, vezes, e parei nelas.  Muitas pessoas que entraram comigo ficaram no meio do caminho.
                Atualmente sou uma viciada em nicotina, fumo, sem pensar, dois ma�os por dia, e, apesar de ter come�ado "menina ainda"  , com uns 15 anos, n�o culpo ningu�m pelo meu v�cio, apenas a mim mesma.  Ainda que eu j� tenha passado por muitos problemas por causa do cigarro, acho um absurdo qdo vejo na televis�o que fulano quer indeniza��o  da Philip Morris, por exemplo.  Assim � f�cil:  na hora do "bem-bom" , todo mundo quer, quando n�o d� mais pra fumar: "d�-me o seu dinheiro pois vc � o culpado"...
               Sou a favor da legaliza��o; se tem quem vende � porque tem quem compra, e, n�o vai ser por causa de uma lei que v�o deixar de faz�-lo, entretanto, da� afirmar que isso diminuiria o tr�fico de drogas e influ�ncias, eu n�o concordo; cigarro paga imposto e na avenida na frente da empresa em que trabalho, por exemplo, tem um senhor vendendo "mercadoria importada" ,  ingenuidade pensar que os "pequenos" que s�o os culpados pela entrada de tais mercadorias no pa�s, tem muita gente grande nessa hist�ria.
              Concordo que sou radical, at� admito cr�ticas (desde que construtivas) a esse respeito, mas n�o acredito naquela velha hist�ria de que "foram os amigos do meu filho que o levaram a isso" , � quest�o de personalidade ou falta dela.  Sei de m�dicos e doutos no assunto que afirmam que a depend�ncia varia de pessoa pra pessoa,  sei que a intelig�ncia do ser humano tamb�m � vari�vel, mas, cada um que responda por seus erros e que aguente suas consequencias.  Trabalho com planos de sa�de, e, desista se vc pensa que o governo vai gastar um centavo a mais com viciados, o Estado n�o se preocupa com a origem do problema, seja ele qual for, depois joga a culpa nos planos de sa�de e m�dicos.  Se ele (Estado)  vai arrecadar mais impostos com a libera��o n�o vai ser para o tratamento que essa verba vai ser dedicada. Nem sei se acredito em tratamento para esse caso.  Sou a favor da libera��o, legaliza��o, porque n�o entendo hipocrisia, mas, por outro lado, entendo que isso n�o vai mudar muita coisa, ou quase nada.  Entretanto, se continuar (o Estado)  a jogar toda a culpa no velho e conhecido morro e favela (ainda que os melhores pontos de venda sejam os bares da moda) , ele apenas estar� fazendo o mais c�modo pra ele:  culpa dos bandidos, n�s proibimos, ainda que muitos Estados (enquanto unidades federativas) tenham se fortalecido (politicamente, inclusive) com as drogas. Por fim:  n�o acredito que v�o conseguir legaliza��o: ï¿½ mais f�cil tratar um ou outro que n�o morreu por sorte, do que lotar postos de sa�de com maiores problemas.
 
 
 
    PS:  n�o sei de outras cidades, mas em Sorocaba/ SP (acompanhei o caso)  uma m�e quis que o Estado custeasse o tratamento da filha: sabem a resposta do promotor:  "podemos prend�-la...".
    Desculpem o comprimento da mensagem.
  Abra�os Fraternais;
  Fabiana Godoy
----- Original Message -----
From: Hetan
Sent: Saturday, June 10, 2000 10:52 AM
Subject: [penal] RES: [faroljuridico2] Drogas e Viol�ncia Urbana

Caro Juber 

Est� � uma delicada quest�o de pol�tica criminal.

Se por um lado vc diz, com raz�o, que "n�o produzir� nenhum efeito qualquer o endurecimento da legisla��o espec�fica – as pessoas desclassificadas e inescrupulosas que se dedicam ao tr�fico fazem tudo por dinheiro e n�o haver� de ser a amea�a de pena mais grave que as afastar� da busca da fortuna il�cita". Temos que a liberalidade para as drogas legalizadas como o �lcool e o fumo tamb�m n�o contribu�ram em nada para resolver o problema.

Tem-se um sofisma que institucionalizou no direito latino. A erronia id�ia de que o Direito modifica a Sociedade, alardeada especialmente pelos economistas. A crise do Direito Penal hoje est� em maior grau na aplica��o do Direito, especialmente devido a sua morosidade, e n�o na exist�ncia de normas punitivas.

Sejamos pragm�ticos.

O enriquecimento do Poder do Traficante se d� unicamente porque a lei ao estabelecer a proibi��o da comercializa��o do trafico, indiretamente criou uma reserva de mercado ï¿½queles que traficam, exercendo estes o monop�lio da atividade.

Ora o que a nova lei precisa fazer � retirar o monop�lio dos traficantes e fazer o Estado assumir este monop�lio. 

O viciado encontra no Estado um fornecedor mais barato com menor riscos. Sua paga ser� cumprir um tratamento contra a depend�ncia.

O n�o cumprimento do tratamento implicar� em restri��es  direito culminado progressivamente na  restri��o de sua liberdade.

� o modelo Ingl�s.

O modelo da comercializa��o n�o resolve o problema, exceto com iniciativas como a dos EUA, importando em pesadas indeniza��es aos dependentes. O qu� em si � um contra-senso. O Governo autoriza o uso de uma droga e reconhece vinte anos depois o seu mal, punindo a Ind�stria. -O Governo n�o deveria suspender o uso do cigarro e do fumo nos EUA?

O nosso modelo repressivo t�o somente criou um Monop�lio para os traficantes. Seu poder aumenta, e, de fato, se n�o for denunciado pela grande m�dia, somente responde as penas da lei os mais desfavorecidos economicamente.

O Modelo do Monop�lio seria uma alternativa intermedi�ria. Surgiriam problemas quanto a efetiva��o do modelo. O Estado � uma institui��o preparada para esta nova responsabilidade? Teria ele condi��es reais de assistir todos os dependentes e prestar-lhes a devida assist�ncia m�dica.

Lembremo-nos que a Inglaterra guarda sonoras diferen�as culturais, sociais e institucionais com o Brasil.

O grande benef�cio da mudan�a para o Monop�lio seria em curto prazo quebrar a organiza��o atual do narcotr�fico. Estes trataram de novas pol�ticas de manuten��o do poder ficando vulner�veis.

Oxal� tenhamos ent�o vontade pol�tica para inferir-lhes um golpe fatal.

Cordialmente 

Hetan

 
 -----Mensagem original-----
De: Juber [mailto:[EMAIL PROTECTED]]
Enviada em: sexta-feira, 9 de junho de 2000 16:02
Para: [EMAIL PROTECTED]
Assunto: [faroljuridico2] Drogas e Viol�ncia Urbana

 
 
 
 
Produ��o, com�rcio e uso de drogas hoje il�citas:

A quest�o n�o � de tratar-se de coisa de rico ou de pobre. A diferen�a est� na modalidade, qualidade, quantidade e possibilidade. Os usu�rios tanto podem ser ricos como pobres: cada um tem sua problem�tica motivadora. Ricos e pobres sofrem os mesmos danos terr�veis das drogas.

Quando se fala em descriminar o uso e legalizar a produ��o e comercializa��o das drogas sempre surgem pessoas que n�o t�m condi��es de defender uma tese a favor ou contra que perguntam: "voc� sabe se essas pessoas que defendem a legaliza��o das drogas e a descrimina��o do uso s�o ou j� foram usu�rias de drogas?" Costumo responder: "conhe�o muitos defensores da legaliza��o, mas somente dois que declaram suas condi��es pessoais: um homem p�blico respeit�vel que defende a legaliza��o e se declara usu�rio de drogas e eu que defendo a legaliza��o e tamb�m declaro minha condi��o pessoal, isto �, n�o uso, nunca usei e n�o tenho vontade de usar drogas e, se voc� pensa em usar drogas, pelo conhecimento que tenho como estudioso do assunto, recomendo que desista da id�ia.

A descrimina��o do uso de drogas sem a devida legaliza��o da produ��o e comercializa��o �, no m�nimo, uma quest�o incoerente, ou seja, seria dizer que o indiv�duo pode usar drogas desde que a adquira de um traficante.

A legaliza��o da produ��o e comercializa��o das drogas e a descrimina��o do uso n�o v�o evitar que pessoas continuem morrendo em conseq��ncia do uso, mas � de se perguntar: a proibi��o est� evitando que algu�m use drogas?

Penso ser necess�ria a legaliza��o para esvaziar o objeto motivador do tr�fico (o dinheiro f�cil e farto) que gera corrup��o de juizes, promotores, policiais e outros, al�m de eleger governantes e parlamentares como tem demonstrado a CPI do narcotr�fico.

N�o produzir� nenhum efeito qualquer endurecimento da legisla��o espec�fica – as pessoas desclassificadas e inescrupulosas que se dedicam ao tr�fico fazem tudo por dinheiro e n�o haver� de ser a amea�a de pena mais grave que as afastar� da busca da fortuna il�cita.

A legaliza��o far� com que as fam�lias possam conhecer mais cedo o problema e dar a aten��o necess�ria; acabar� o aliciamento nas escolas e lugares outros; n�o mais existir� a guerra entre traficantes e entre estes e policiais – acabar�o as "balas perdidas" que atingem inocentes.

A arrecada��o tribut�ria poder� ser direcionada para campanhas preventivas e de tratamento dos dependentes.

Finalmente, as drogas l�citas, como cigarros comuns e bebidas alco�licas, tamb�m devem merecer aten��o orientadora.

Por �ltimo: o tr�fico n�o � coisa s� de ricos, mas, certamente, � motivado pelo dinheiro f�cil e farto, "lavado nos pa�ses que lavam mais branco".

Observa��es finais: os m�dicos sabem bem da dificuldade e sofrem quando t�m que decidir entre a vida da parturiente ou do fruto da concep��o.

A quest�o social resultante do tr�fico de drogas � semelhante: j� tomei minha dolorosa decis�o: � necess�rio e urgente que se legalizem a produ��o e comercializa��o das drogas e se descriminem o uso.

Juber Alves Baesso

PS: Gostaria de saber a opini�o de outros operadores do direito sobre o assunto e, tamb�m, de pessoas de outras �reas de conhecimento que eventualmente estejam nesta rede.



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