Segunda-feira, 22 de julho de 2002
Por carta, 'Gelei�o' desafia o Governo
Em tr�s cartas enviadas a autoridades p�blicas - incluindo o governador Geraldo Alckmin -, Gelei�o, detido no pres�dio mais seguro do pa�s, critica, ofende e amea�a o poder p�blico e faz v�rias exig�ncias

Nem muralhas, nem bloqueador de celulares e nem as regras r�gidas do pres�dio de Presidente Bernardes s�o suficientes para calar a voz e as provoca��es do assaltante Jos� M�rcio Fel�cio, o Gelei�o - o homem n�mero um do Primeiro Comando da Capital (PCC) -, ao governo estadual.

De dentro da penitenci�ria mais segura do Pa�s, Gelei�o continua a se comunicar com o mundo exterior sem nenhum risco de censura, como lhe garante a Constitui��o Federal. Na �ltima quinta-feira, ele escreveu tr�s cartas abertas a autoridades p�blicas, com c�pias para a reportagem do JT.

Nas p�ginas, cheias de erros ortogr�ficos e gramaticais, Gelei�o parte para o ataque. Critica e ofende o governo, faz uma amea�a velada de nova reviravolta no sistema penitenci�rio, denuncia ter sofrido tr�s tentativas de homic�dio e pede alimenta��o, como fazia quando tinha livre acesso a celulares.

As correspond�ncias s�o endere�adas a tr�s pessoas: o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o secret�rio-adjunto da Administra��o Penitenci�ria, Jos� Carneiro Rolim Neto, e o coordenador dos pres�dios da regi�o oeste, Carlos Alberto Panucci. Elas ser�o entregues hoje, em m�os, pelo advogado M�rio S�rgio Mungioli.

Na carta malcriada enviada a Alckmin, o fundador da organiza��o criminosa que atua dentro e fora dos pres�dios n�o poupa insultos. Sem medo de ser punido pelas ofensas gratuitas, o criminoso chama o governo de mentiroso, de ladr�o e de fazer propaganda pol�tica "em cima do partido" fundado por ele.

"Hoje, vem querendo se promover em cima de mim e do PCC, querendo mostrar para a popula��o que est� combatendo a criminalidade", escreve.

O assaltante diz ainda que o governo pode at� conseguir mat�-lo, mas nunca conseguir� exterminar a organiza��o criminosa. "Pode me matar, mas jamais ir� acabar com o PCC, porque o PCC nasceu para combater os ditadores e opressores deste Pa�s."

Na carta de cinco p�ginas, Gelei�o declara que o governo n�o pode ter gasto R$ 8 milh�es dos cofres p�blicos na constru��o do pres�dio de Presidente Bernardes porque o local n�o tem "banheiro de ouro" e nem cozinha para preparar a alimenta��o dos presos.

'Prefiro morrer de p� do que de joelhos'

O final da mensagem � um desafio a Alckmin. "Aqui finalizo.

Esperando apenas sua rea��o massacrante, porque prefiro morrer de p� do que de joelho." A provoca��o vai al�m. Gelei�o termina a carta exibindo o lema da fac��o: "Paz, Justi�a e Liberdade". Em seguida, assina: "Eu, Jos� M�rcio Fel�cio, fundador do PCC".

Gelei�o foi transferido para o Centro de Readapta��o Penitenci�ria (CRP) de Presidente Bernardes em maio, ap�s a Pol�cia Civil desvendar que, de dentro do pres�dio de seguran�a m�xima de Avar�, onde estava isolado, o fundador do PCC tentava articular uma nova megarrebeli�o no Estado, com o objetivo de impedir a instala��o do anexo de Presidente Bernardes.

O PCC foi fundado em 1993, dentro do CRP da Casa de Cust�dia de Taubat�.

Desde o princ�pio, um dos objetivos principais da organiza��o � desativar esse tipo de regime, onde os presos ficam 23 horas por dia nas celas, t�m direito a duas horas de visitas semanais, n�o t�m acesso a celulares e ainda enfrentam dificuldade para engendrar motins e rebeli�es. Nos CRPs, os presos n�o podem ter contato f�sico com seus familiares.

Com o coordenador dos pres�dios da regi�o oeste, o l�der do PCC � mais sucinto. Afirma que o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) � cruel e n�o recupera ningu�m. Deixa impl�cito que o sistema penitenci�rio pode sofrer uma nova reviravolta caso a administra��o insista em manter a suspens�o de alimentos e literatura a que os presos tinham direito.

"O leite em p�, os frios e os livros s�o coisas que temos h� anos. N�o � justo que (a dire��o) fa�a isso, pelo simples prazer de nos massacrar." Ele prossegue dizendo: "O senhor mesmo sabe que a unidade n�o supre nossas necessidades. Mas se for continuar desta forma, pode ter certeza que iremos ter problemas no futuro, porque n�o � justo fazer isso, n�o!"

Na mensagem enviada ao secret�rio-adjunto da Secretaria da Administra��o Penitenci�ria (SAP), Jos� Caneiro Rolim Neto, Gelei�o pega mais leve - � quase gentil. Suplica, em nome de toda a popula��o carcer�ria do pres�dio de Presidente Bernardes, que o secret�rio inclua na lista do jumbo mensal dois quilos de leite em p�, 200 gramas de queijo, 200 gramas de mortadela e um livro.

O diretor-geral do pres�dio, Ant�nio S�rgio de Oliveira, afirmou que � vetada a entrada de qualquer tipo de alimento em p� para os internos. "� muito arriscado porque o alimento poderia entrar misturado com coca�na."

Oliveira nega a suspens�o da literatura aos presos. "Como nossa biblioteca � pequena, o preso s� n�o pode pegar o livro e ficar uma eternidade com ele.

Estabelecemos um prazo para todos", disse.

Sem medo de um novo processo

O secret�rio da Administra��o Penitenci�ria, Nagashi Furukawa, que tomou conhecimento das cartas do assaltante por interm�dio do JT, afirmou que Gelei�o tem todo o direito, concedido por lei, de se corresponder com quem quiser, mas que ele pode ser responsabilizado pelas declara��es que faz contra o governo.

"Ele incide em crime de cal�nia quando imputa ao governo um ato criminoso, como desvio de verba e roubo. Se essas cartas chegarem at� mim, vou encaminh�-las ao juiz respons�vel pela execu��o do preso, para que ele tome provid�ncias", adiantou Furukawa.

Segundo o secret�rio, se o ato de Gelei�o resultar num novo processo criminal, isso ser� considerado falta grave, o que poder� deix�-lo isolado no CRP de Presidente Bernandes por mais um ano.

O advogado M�rio S�rgio Mungioli, que assumiu a defesa de Gelei�o na semana passada, afirmou que o preso n�o teme um novo processo. "Ser� apenas mais um. Mas o Jos� M�rcio disse que pode provar o que est� dizendo", afirmou o advogado.

Segundo Nagashi, os diretores das unidades de RDD - Casa de Cust�dia de Taubat�, penitenci�ria de Avar� e de Presidente Bernardes - est�o elaborando uma lista-padr�o de alimentos e objetos de higiene para compor o jumbo.

O secret�rio esclareceu que, uma vez por m�s, os presos t�m direito � entrada de alimento cru, al�m do chamado "jumbo gordo" (alimentos prontos) nas quatro datas festivas do ano: P�scoa, Dia das M�es, Dia dos Pais e Natal.




RITA MAGALH�ES Jornal da Tarde
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