Fonte: Revista Isto�
 
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Andr�a B. Carvalho
Curitiba - PR
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  BRASIL 19/07/2002
Viol�ncia  

Longe e abandonado
Testemunha da chacina da Candel�ria � a prova
de que est� tudo errado no programa de prote��o

Francisco Alves Filho

  Rauf Tauile/Ag. O Globo - Agosto de 2001
  Wagner dos Santos: "Acordo no meio da noite assustado, com a impress�o de que vou ser assassinado�

Em meio � luta contra o crime organizado no Brasil, a prote��o �s testemunhas � citada pelos especialistas como uma das principais provid�ncias para desmontar as quadrilhas. As informa��es extra�das dos depoimentos podem ajudar a surpreender os bandidos e atac�-los em seus pontos fracos. Mas, a julgar pela situa��o de Wagner dos Santos, 30 anos, que viu e denunciou um dos crimes de maior repercuss�o no Pa�s e no Exterior, a chacina da Candel�ria � em que seis policiais mataram a tiros oito garotos de rua �, o Programa de Prote��o � Testemunha do governo federal simplesmente n�o existe. Depois de apontar os matadores, Wagner acabou levado para a Su��a pela ONG Viva Rio, ganhou um emprego e n�o recebeu mais ajuda. Teve dificuldade de adapta��o ao clima e � l�ngua. Passou por cinco empregos e atualmente trabalha em Genebra como eletricista. V�tima de paralisia facial causada por uma bala alojada na coluna, Wagner sofre com as sequelas da chacina. �Sinto fortes dores na cabe�a, no ouvido e na garganta e n�o tenho dinheiro para o tratamento�, lamentou a ISTO�, por telefone. Na ter�a-feira 23, uma passeata no centro do Rio vai marcar os nove anos da chacina da Candel�ria. Apenas tr�s dos policiais acusados foram condenados.

Em agosto do ano passado, Wagner veio ao Brasil para uma cirurgia no m�sculo do pesco�o, que seria custeada pelo governo estadual. At� hoje, o m�dico Paulo Carvalho n�o recebeu. A testemunha precisa ser operada novamente, mas n�o tem de onde tirar o dinheiro. O que ganha com eletricista e os dois sal�rios m�nimos que recebe como ajuda do governo do Rio n�o s�o suficientes para custear os rem�dios contra a dor e a depress�o. �Tenho pesadelos, acordo no meio da noite assustado, com a impress�o de que vou ser assassinado�, conta. Wagner diz j� ter pensado em suic�dio pelo menos duas vezes. Para a advogada Cristina Leonardo, da ONG Centro Brasileiro de Defesa da Crian�a e do Adolescente, o caso mostra como se sente indefeso qualquer brasileiro que queira dar seu testemunho contra algum bandido. �Seriam necess�rias garantias para a testemunha continuar morando em seu pr�prio pa�s, como mudan�a de identidade e tratamento de sa�de�, defende. Para Cristina, um dos maiores erros � o fato de o governo ter passado a coordena��o do programa �s organiza��es n�o-governamentais.

Wagner dos Santos mora num apartamento de sala e quarto e tenta esquecer suas mazelas tocando pagode com alguns brasileiros que est�o na Su��a. �N�o s�o meus amigos, s�o conhecidos�, ressalva. Apesar de todas as dificuldades, diz que fez o que acreditava ser o certo. �Temos de defender a vida.� Sua maneira mais frequente de contato com o Brasil s�o as conversas por telefone com as tr�s irm�s que moram no Rio. Nos planos para o futuro, n�o pensa em voltar ao Pa�s e n�o quer ter filhos. �Sou um negro pobre que apanhou muito. N�o quero que eles sofram o que eu sofri�, desabafa.

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