Histórias de Pai

Luis Fernando Veríssimo

Todo pai conhece estas histórias, os filhos não acreditam que crescer é
perigoso. Não adianta você avisar: "Continue criança, não pense, não saia
daqui, não cresça. Eu penso por você, eu sei o que você precisa e o que você
precisa saber. Eu conheço o mundo e sei que não é um lugar para você, não é
um lugar para crianças. Não vá..." Não adianta, eles crescem e vão. Depois
se queixam.

Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos do barro, Adão e Eva.
Naquele tempo não precisava mãe. O pai fez o que pode pelas crianças. Elas
tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro
ou um macaco para brincar, o pai fazia. Se queriam uma pizza, o pai mandava
buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que eles não
precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o
que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram
felizes porque não sabiam.

O Adão ainda era acomodado, mas a Evinha... Um dia o pai a pegou descascando
uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da
menina descobriu e antes que ele pudesse dizer "Dessa fruta não co..." ela
já tinha comido e gostado.

Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área
dos hortifrutigranjeiros e determinar que frutas do quintal podiam e não
podiam ser comidas e escolheu uma fruta como a mais proibida de todas, pois
se comesse dela a menina saberia.

Saberia o quê? O pai especificou. Só disse que o que saberia seria terrível
e que depois não se queixasse.

E Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande
tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber e que
nunca mais seria a mesma.

- O que é que eu sei de tão terrível que não sabia antes? - perguntou Eva,
ainda mastigando a fruta proibida.

- Que você pode desobedecer. Que você pode escolher e pensar com sua própria
cabeça e me desafiar. Que você não é mais criança.

E Eva cresceu diante dos olhos do pai e no momento seguinte já estava
dizendo que queria morar sozinha e fazer bolsa de inglês em Nova York e
saber como era o mundo lá fora. E o pai suspirou e disse que ela podia ir e
levas o palerma do Adão junto e que os dois jamais voltassem e pedissem a
sua ignorância de volta.

Quando contou esta história a outro pai, o pai abandonado ouviu do outro que
sua história não era nada.

- Pior aconteceu comigo e com o meu Prometeu. Ele era um ótimo filho. E como
me admirava e respeitava! Para ele era eu no céu e eu na terra também. Ele
tinha tudo em casa e eu o protegia com o meu poder. Ele também era feliz e
não sabia, ou era feliz porque não sabia. E não é que um dia descobri que
ele tinha roubado o meu fogo para dar ao amigos? Logo o fogo, o símbolo do
meu poder e da minha autoridade, distribuído entre outras crianças ingratas
como meros cigarros roubados.

- Você o expulsou de casa, como eu?

- Não, amarrei numa pedra para os abutres comerem o seu fígado. Eu sou da
escola antiga.

- Não foi um castigo um pouco...

- Tem que dar o exemplo. Senão, não demora, estarão todos os filho achando
que sabem mais que nós e roubando o nosso poder.

- E depois se queixando.

- Exato.

Apesar da má experiência com os dois primeiros, o pai teve muitos outros
filhos. Mas criou-os com energia e disciplina, sempre atento a qualquer
sinal de rebeldia, a qualquer repetição da síndrome de Eva. Para o seu bem,
para protegê-los, para lhes assegurar a felicidade.

A qualquer manifestação de dúvida, reagia.

- Pai, por que...

- Quieto.

- Mas pai...

- Não tem por que nem por quanto. Eu é que sei. Eu sou a resposta de tudo e
isso é tudo que vocês precisam saber.

E os filhos e as filhas, em geral, obedeciam ao seu pai e honravam a sua
sabedoria e não cobiçavam o poder e eram felizes - ou pelo menos eram bem
ajustados - em sua casa. Mas apesar de toda a vigilância, sempre haveriam os
decascadores de banana.

Sempre haveriam os dispostos a trocar a segurança da casa pelo descobrimento
do mundo, mesmo que isso os matasse.

Teve Copérnico, que insistia que a Terra não era, afinal, o centro do
universo, apesar do pai mandá-lo para o quarto sem sobremesa todas as vezes.
Teve Tycho Brahe, que descobriu uma estrela nova no horizonte e desconfiou
que estrelas não eram, como dizia o pai, constantes e eternas. Teve Galileu
com seus malditos telescópios, enxergando mais do que qualquer pessoa normal
precisava ver. E teve o Newton. Quando Newton mostrou ao pai a maçã que lhe
caíra na cabeça e contou que, em dois segundos, deduzira tudo sobre a força
da gravidade e suas implicações no movimento da Lua, e a possibilidade
dele - ele, um filho! - conhecer e descrever as leis do universo, o pai teve
dois pensamentos. Pensou: preciso cortar as árvores do quintal, pois as
frutas estão influindo demais na história desta família. E pensou: preciso
amarrar o Newton a uma pedra para os abutres comerem o seu fígado e os
filhos aprenderem a não saber mais do que eu. Mas não fez nem uma coisa nem
outra. Depois que o Newton também saiu de casa para fazer carreira na
física, o pai desistiu. Continuou criando os filhos com energia e
disciplina, mas sabendo que nunca os impediria de crescer e de saber e de
abandoná-lo um dia. Todos os pais conhecem o sentimento deste pai. E depois
ainda veio o Darwin! Filhos ingratos, filhos ingratos.

Não é consolo saber que tantos, hoje, querem voltar para a casa e as
certezas do pai, pois do nada adiantou descobrir o mundo e descobrir que não
se sabe muito mais do que ele. Abandonam a ignorância que os protegia por
nada mais perene do que uma fruta.

E agora se queixam.  

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