T�cito P Santos
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Jornal da Ciencia (JC E-Mail)

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25/setembro/2001 - No. 1881 - Noticias de C&T - Servico da SBPC
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As novas relacoes internacionais, artigo de Ricardo Sitenfus:
"De que adianta bombardear o Afeganistao?"



O autor, doutor em relacoes internacionais pelo Instituto Universitario de
Altos Estudos Internacionais de Genebra, e' professor titular da Faculdade
de Direito da Universidade Federal de Santa Maria, RS, e professor convidado
do Instituto de Altos Estudos da America Latina (Universidade Paris 3). Este
artigo foi publicado na "Folha de SP":



O gesto extremo de pessoas ordinarias despertou bruscamente o mundo para a
sua propria estreiteza. Antes que os desdobramentos do ataque de 11 de
setembro venham a marcar com ainda mais vigor as relacoes internacionais, ja
' sao visiveis alguns pontos de ruptura.



Eles podem resultar numa evolucao positiva, reforcando a cooperacao
internacional, ou negativa, com o avanco do nacionalismo, do maniqueismo e
da xenofobia.



Em primeiro lugar, a ideia de que a historia havia acabado mostrou-se
absurda: ainda ha' espaco para o inesperado, o curso do mundo nao esta'
definido. O determinismo com que todos os fatos eram apresentados deu lugar
'a incerteza.



Nada e' inevitavel, a comecar pelo atual modelo de globalizacao. Sendo
assim, nenhuma submissao e' obrigatoria.



Num mundo em mutacao, os gigantes pagam o preco de sua propria forca. Nao se
trata de uma interpretacao positiva do terrorismo, mas da simples
constatacao de que ha' elementos outros em jogo alem dos fatores economicos
e que o determinismo e', antes, um argumento a sustentar o conformismo.



Em segundo lugar, a pauta de governo da administracao Bush foi atingida em
sua essencia. O presidente americano acreditou que poderia conduzir uma
politica externa 'a la carte, agindo no exterior somente em ultimo caso, com
custo minimo possivel, guiado apenas por seus interesses internos.



Entre os exemplos dessa decisao politica esta' a recusa em subscrever
importantes convencoes internacionais, como o Protocolo de Kyoto. Mas,
sobretudo, ha' o incondicional apoio a uma das partes no gravissimo conflito
no Oriente Medio. Desabou com as torres gemeas a ideia de que "a paz e' a
guerra alhures".



Uma eventual "paz dos cemiterios" entre israelenses e palestinos pode
significar a guerra no Ocidente. O estilhaco atroz de um conflito criado
pela comunidade internacional nos anos 40, que ela desde entao se recusa a
enfrentar, talha o horizonte do novo seculo.



Mais do que uma prova de que nenhum lugar do planeta e' intocavel, ja' que a
propria superpotencia foi atacada em seu coracao financeiro e militar, o 11
de setembro e' um desesperado apelo para que Washington seja mais do que
simples guardia do status quo.



Ora, Bush sai hoje da concha e volta-se para a comunidade internacional,
dirigindo-se inclusive a Cuba, com inedita consciencia de pertencer a um
mundo interligado e dependente. Surge entao a terceira questao: sobre que
bases sera' construida essa nova consciencia coletiva internacional?



E' espuria a tentativa de infantilizacao do mundo por meio da ideia de
guerra do bem contra o mal. E' ate' compreensivel que o pitoresco Bush
apresente o mundo como um bom faroeste.



Mas os EUA ja' colaboraram com regimes politicos perversos, lancaram a bomba
atomica e aceitam de bom grado a miseria que seu sistema economico provoca
na maior parte do mundo. Nesse "casting", o papel de mocinho seria
inverossimil.



Por outro lado, a visao do bandido e' fluida, aumentando o risco de atirar
no proprio pe'. Embora Osama bin Laden seja inimigo declarado dos EUA, estes
encontram dificuldades para obter provas cabais de sua participacao no
ataque de 11 de setembro.



Sua fortuna pessoal, em termos de custo de operacoes militares, e'
insignificante. Obvio que o financiamento provem de outras fontes e, mais
importante, que ha' grupos autonomos decididos a agir.



E aqui surge a quarta questao: como pessoas comuns, tao instruidas quanto a
elite ocidental, que fizeram seus estudos na Europa e desfrutaram do
"american way of life", tornam-se capazes de tais atos de barbarie?



O terrorista diabolico, demente, ignorante e insociavel -como o pintava o
imaginario ocidental- pode ser, na verdade, um homem gentil, inteligente e
socialmente adaptado, que elabora com lucidez e precisao impressionantes o
golpe que vai ceifar a vida de milhares de inocentes, que planeja no seu
cotidiano ordinario o gesto que marcara' a historia.



Os terroristas, ao cometerem um ato de inominavel covardia, foram movidos,
paradoxalmente, por uma coragem impressionante, que, originando-se no
fanatismo, e' executada por meio do conhecimento e, portanto, da ciencia.



Talvez seja essa a mais terrivelmente incomoda constatacao do episodio, pois
mostra o quanto os servicos de inteligencia sao -e continuarao sendo-
incapazes de combater o terrorismo suicida. A unica inteligencia que pode
evitar a barbarie nada tem a ver com os canones que orientam a CIA e o FBI.



O desafio e' maior. Mais do que nao obter a paz internacional, paises como
os EUA contribuem, em suas acoes e omissoes, para que a guerra e a injustica
perdurem em muitos rincoes do mundo, conforme seus interesses estrategicos.
Patente exemplo esta' no apoio concedido pelos americanos aos proprios
talebans na luta contra os sovieticos.




Ora, nao e' a guerra ou o ataque ao mundo islamico que coibira' essa furia.
Uma reacao militar indiscriminada do Ocidente so' pode potencializa-la
assustadoramente. De que adianta bombardear o Afeganistao?



A unica forma de combater os terroristas nao tem apelo eleitoral nem
resultado rapido. E' eleger a guerra, a miseria e a intolerancia como
inimigos.


A predominancia dos interesses economicos que caracteriza a nossa epoca e a
submissao do espaco politico coletivo ao imperio financeiro traz um
bem-estar restrito a poucos, falso e precario.



Somente o tratamento coletivo dos problemas da humanidade, com a
predominancia dos interesses do homem -e nao de alguns homens-, construindo
o imperio da solidariedade e do direito, pode opor-se 'as barbaries da nossa
epoca -o terrorismo entre elas. (Folha de SP, 25/9)





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