Sabe Caio, essa sua frase "O samba carioca tem mais é que se dar ao valor, e
manter suas raízes, sem timbales", me soa curiosa. Explico. Sou um
cavaquinhista carioca que mora em Salvador e vive cercado desses dois universos
o "samba carioca que a gente toca aqui" e o samba de roda que alguns grupos
fazem uma adaptação na letra (apelativa) transformando num outro gênero: a
quebradeira (do verbo quebrar, mexer, rebolar), entre outros pois o universo do
choro aqui também é riquíssimo, apesar da agenda do samba e choro não comentar.
É engraçado pelo seguinte, aqui em Salvador tem uma casa de samba bem gostosa
(quem for tribuneiro e morar aqui pode confirmar - quer ver uma coisa: quem
conhece o Bêco de Gal aí dê um oi!), chamada Beco de Gal. Gal do Bêco, como é
conhecida a sambista dona do lugar (que eu guardo no meu coração num cantinho
muito especial, por sinal minha madrinha no samba e na vida), detesta
quebradeira, e é sambista baiana (fluminense pra falar a verdade, mas com
quase 30 anos de Salvador). Eu tive o privilégio de poder tocar lá com muita
gente boa, e era interessante notar a divisão do público em gostos: os mais
novos, quebradeira; e os mais velhos (ou não!) samba - que vc quer chamar de
carioca...(pra mim samba é samba, seja aqui, aí ou em Marte). Os mesmos músicos
que tocavam músicas do Ilê, passavam pra Zeca Pagodinho e cantavam samba de
roda (além de se aventurarem no chorinho e se acabarem na quebradeira). Tocar
samba de roda (samba-de-roda mesmo, sem apelação, de Santo Amaro, no improviso
quase...) com Cumpadre Washington (cantor do é o tchan), é uma aula de cultura.
Claro, não me cobre harmonias rebuscadas ou versos filosóficos, de um gênero
que nasceu numa Bahia Semi-rural.Mas é bonito. Ás vezes chega a emocionar pela
pureza. Sem contar nas baixarias de violão que ficam duelando com o cavaco.
Agora, cultura mesmo é um conceito muito amplo. Seria muito interessante se
todo mundo pudesse ter acesso a uma matéria chamada
etnomusicologia. Ela fala mais ou menos isso: Tudo o que o ser humano faz é
cultura. Existe todo um contexto sócio-cultural, uma série de valores (por
sinal o problema axiológico - dos valores, em filosofia está aí para ser
resolvido: quem se aventura a definir os valores corretos para a humanidade?),
que determinam o que é agradável para cada nicho populacional pertencente a
determinada "célula-socio-economica-cultural".
Mas voltemos ao Bêco de Gal. É engraçado o seguinte: não existe diferença
alguma na condução técnica (harmonia-rítmo-melodia) que diferencie o samba de
roda (patrimonio da humanidade), para a quebradeira ("gen defeituoso do
micróbio do verme do cocô do cavalo do bandido" aqui na tribuna): só muda a
letra. E outra viu? Não me esbarro só com Cumpadres Washingtons por lá não, tem
muito sambista carioca e paulista que vai até lá tomar uma em paz e dar uma
palhinha (ou só curtir. Se manifestem por favor, não deduro ninguém pra
esposa!). Outra coisa engraçada é o termo timbales (instrumento de percussão
com timbre agudo - ás vezes é bom ás vezes é chato pra cacete, igual tamborim).
No box de 14 CDs de Noel Rosa tem uma gravação em um deles (estou com sono e
cansado não vou me levantar pra saber qual o número do CD ou qual é a música)
cuja base é feito - se não me engano por Braguinha - com um lápis batendo no
dente. PORRA! Um lápis batendo no dente! Pegue um cd aí de Marisa Monte, no
caso "Verde, Anil, etc..." (tá aqui do meu lado, por isso vou falar dele). Tem
na percussão:
Surdo virado
Lata de lixo
Fundo de panela
pulseira
Vagem
Sem contar nos pratos, facas, caixas de fósforos (que possivelmente me dirão
que são cariocas) junto com trompas, cellos, bandolim, clarineta, violão e um
tal de flugel horn (que se não morder e o som for bão nóis góizta)...
Aí eu coloco o dedo na ferida. O CD tem músicas completamente diferentes.
Qual é o rótulo desse som? Por quê? Se eu jogar num balaio escrito "Brazilian
Music", colocar pra vender a 1,99 em Paris? Qual é o problema? Aguardo
Respostas.
Marcelo Neder
Cavaquinhista OMB/BA 10.180/05
Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Oi Aline,
é possível que o grupo sitado não seja realmente um grupo de Axé, eu sitei
um exemplo de o que se faz de ruim na Bahia, e na minha opinião o "gênero"
axé não fica muito atrás, volto a perguntar o que a Timbalada, Olodum,
Daniela Mercury (enquanto axé), Ivete (agora tb sertaneja) contribuem para a
melhoria da nossa discografia (enquanto divulgadores de cultura)?.... Eles
se preocupam apenas em fazer um ritmo gostoso, uma levada diferente e é só
..... Não acho que a Beth Carvalho vá acresentar nada de positivo ao
trabalho dela, se o resultado for mais uma batucada com dendê (só pra dar um
tempero da moda ....). Não acho mesmo. O Samba carioca tem mais é que se dar
ao valor, e manter suas raízes, sem timbales.
Caio Pontual.
__________________________________________________________________
Oi Caio!
Eu entendi exatamente ao que você quis se referir.
Mas ainda assim, continuo a pergunta: você CONHECE o axé?
Diga-se de passagem, que quando o "É o Tchan" surgiu, o axé já existia há
muitos anos, com o Olodum, o Timbalada, Daniela Mercury... Você pode até não
gostar, mas nem na Bahia isso é considerado no mesmo patamar que essas
músicas de baixaria a que você se refere.
E como eu disse, a maioria dos baianos considera o "É o Tchan" como uma
banda de pagode, e não de axé. Pra isso, basta lembrar que o nome original
da banda, antes do sucesso estrondoso da música do "segura o tchan", era
"Gera Samba". E que a tal banda que cantava "na boquinha da garrafa" se
chamava "Cia. do Pagode".
Enfim, eu posso garantir a você que em todos os estilos musicais há produtos
de qualidade.
(Que é muito diferente de gosto pessoal. Eu mesma DETESTO rock'n roll, mas
não posso deixar de assumir que um ou outro "barulhento" tem o seu valor...)
:-)))
Se eles vão chegar na mídia, são outros 500.
Se vão chegar a nós sem que busquemos por eles... acho difícil.
Beijinhos
Aline
On 8/29/06, Caio Pontual wrote:
>
>
> Cara Aline,
> eu não me referí a música baiana, mas sim a exurrada de músicas que se
> convencionou chamar de axé-music. Considero a música baiana (a que tem
> conteúdo) como das melhores (vide Caymmi, Caetano, Gil, Raul, Elomar,
> Tomzé
> e tantos menos votados), esse grupo É o TChan foi sitado como um exemplo,
> pois eles foram um dos pioneiros dessa leva, aí eu também poderia incluir
> os
> pagodeiros/sertanejos da nova era. Não excluo tb os bregas do Pará que
> estão
> divulgando o que há de pior nesse gênero, há quem goste, mas o que me
> causa
> maior preocupação é quanto ao conteúdo dessas músicas (se é que podemos
> chamar isso tudo de música), temos aqui tb uma mina de vulgaridade e
> baixarias em letras e músicas, que são os ditos forros "modernos".
> E em tudo isso a minha crítica vem se somar àquelas que dizem da ganância
> das gravadoras e mídia televisiva que só vai aonde se vende fácil, sem
> levar
> em conta a contribuição que esse "artistas" podem estar dando ao povão
> (tão
> cheios de vida de gado - vide Zé Ramalho).
>
> Bjs. Caio Pontual.
>
> PS. Gostaria que vc autoriza-se a divulgação dessa conversa para os
> demais.
>
> __________________________________________________________________
>
> Poxa, Caio.
>
> Sem querer entrar em detalhes, você realmente CONHECE música baiana ou
> só viu o que chegou a tocar no Domingão do Faustão?
>
> Acontece a mesma coisa com o samba. Quem CONHECE sabe o valor.
> Mas a maioria das pessoas acha que samba se resume a um campo nebuloso
> entre o próprio "É o Tchan" (que, na Bahia, não é considerado axé) e
> aqueles pagodes enlatados...
>
> Em todos os gêneros há produções interessantes.
> A questão é que a mídia TENDE a nivelar tudo por baixo...
> ...e de vez em quando, só de vez em quando mesmo, acerta.
> :-)
>
> Eu estou passando por uma experiência muito interessante, fazendo
> parte de um grupo onde só existem 2 pessoas do Rio e as outras todas
> vem das mais diversas cidades do Brasil. Todos interessantíssimos,
> fazem parte da elite cultural e intelectual do país. Estou aprendendo
> a apreciar maravilhas regionais que estavam longe do meu universo - e
> vice-versa.
>
> É muito interessante relativizar a visão cultural que existe em outros
> cantos do país...
> :-)
>
> Beijo!
> Aline
>
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