O Marcelo tem bons pontos...

Organizando tanto assunto:

1 - samba x axé
2 - bairrismos x cultura brasileira
3 - Rio x Bahia
4 - Pop x raiz
5 - Cumpadre Washington x Noel x MM
6 - timbales do CW  x lápis batendo no dente do Braguinha
7 - Beth x Ivete... etc

Uhm... Será que estou sentindo o cheiro de um certo *etnomusicocentrismo* na
discussão..?
Tribuneiros, atirai a primeira pedra!
(se alguém desviar o assunto para "outras discussões etnicas", quem atira a
pedra sou eu!)


.....
Em tempo, já que acabei de inventar a palavra (que deve ter algum hífen aí
no meio):

Etnomusicologia:
[De etn(o)- + musicologia.] S. f.
1.  Estudo dos sistemas musicais dos diversos povos, em seus aspectos
formais (os sons e as maneiras de combiná-los) ou socioculturais (usos e
comportamentos relativos à música, o papel desta, etc.).

Etnocentrismo:
[De etn(o)- + -centr(o)- + -ismo.] S. m.
1.  Tendência do pensamento a considerar as categorias, normas e valores da
própria sociedade ou cultura como parâmetro aplicável a todas as demais.


Beijinhos
Aline - colocando lenha na fogueira.





On 9/1/06, Marcelo Neder <[EMAIL PROTECTED] > wrote:

Sabe Caio, essa sua frase "O samba carioca tem mais é que se dar ao valor,
e manter suas raízes, sem timbales", me soa curiosa. Explico. Sou um
cavaquinhista carioca que mora em Salvador e vive cercado desses dois
universos o "samba carioca que a gente toca aqui" e o samba de roda que
alguns grupos fazem uma adaptação na letra (apelativa) transformando num
outro gênero: a quebradeira (do verbo quebrar, mexer, rebolar), entre outros
pois o universo do choro aqui também é riquíssimo, apesar da agenda do samba
e choro não comentar. É engraçado pelo seguinte, aqui em Salvador tem uma
casa de samba bem gostosa (quem for tribuneiro e morar aqui pode confirmar -
quer ver uma coisa: quem conhece o Bêco de Gal aí dê um oi!), chamada Beco
de Gal. Gal do Bêco, como é conhecida a sambista dona do lugar (que eu
guardo no meu coração num cantinho muito especial, por sinal minha madrinha
no samba e na vida), detesta quebradeira, e é sambista baiana (fluminense
pra falar a verdade, mas com
quase 30 anos de Salvador). Eu tive o privilégio de poder tocar lá com
muita gente boa, e era interessante notar a divisão do público em gostos: os
mais novos, quebradeira; e os mais velhos (ou não!) samba - que vc quer
chamar de carioca...(pra mim samba é samba, seja aqui, aí ou em Marte). Os
mesmos músicos que tocavam músicas do Ilê, passavam pra Zeca Pagodinho e
cantavam samba de roda (além de se aventurarem no chorinho e se acabarem na
quebradeira). Tocar samba de roda (samba-de-roda mesmo, sem apelação, de
Santo Amaro, no improviso quase...) com Cumpadre Washington (cantor do é o
tchan), é uma aula de cultura. Claro, não me cobre harmonias rebuscadas ou
versos filosóficos, de um gênero que nasceu numa Bahia Semi-rural.Mas é
bonito. Ás vezes chega a emocionar pela pureza. Sem contar nas baixarias de
violão que ficam duelando com o cavaco. Agora, cultura mesmo é um conceito
muito amplo. Seria muito interessante se todo mundo pudesse ter acesso a uma
matéria chamada
etnomusicologia. Ela fala mais ou menos isso: Tudo o que o ser humano faz
é cultura. Existe todo um contexto sócio-cultural, uma série de valores (por
sinal o problema axiológico - dos valores, em filosofia está aí para ser
resolvido: quem se aventura a definir os valores corretos para a
humanidade?), que determinam o que é agradável para cada nicho populacional
pertencente a determinada "célula-socio-economica-cultural".
Mas voltemos ao Bêco de Gal. É engraçado o seguinte: não existe diferença
alguma na condução técnica (harmonia-rítmo-melodia) que diferencie o samba
de roda (patrimonio da humanidade), para a quebradeira ("gen defeituoso do
micróbio do verme do cocô do cavalo do bandido" aqui na tribuna): só muda a
letra. E outra viu? Não me esbarro só com Cumpadres Washingtons por lá não,
tem muito sambista carioca e paulista que vai até lá tomar uma em paz e dar
uma palhinha (ou só curtir. Se manifestem por favor, não deduro ninguém pra
esposa!). Outra coisa engraçada é o termo timbales (instrumento de percussão
com timbre agudo - ás vezes é bom ás vezes é chato pra cacete, igual
tamborim).
No box de 14 CDs de Noel Rosa tem uma gravação em um deles (estou com sono
e cansado não vou me levantar pra saber qual o número do CD ou qual é a
música) cuja base é feito - se não me engano por Braguinha - com um lápis
batendo no dente. PORRA! Um lápis batendo no dente! Pegue um cd aí de Marisa
Monte, no caso "Verde, Anil, etc..." (tá aqui do meu lado, por isso vou
falar dele). Tem na percussão:

  Surdo virado
  Lata de lixo
  Fundo de panela
  pulseira
  Vagem
Sem contar nos pratos, facas, caixas de fósforos (que possivelmente me
dirão que são cariocas) junto com trompas, cellos, bandolim, clarineta,
violão e um tal de flugel horn (que se não morder e o som for bão nóis
góizta)...
Aí eu coloco o dedo na ferida. O CD tem músicas completamente diferentes.
Qual é o rótulo desse som? Por quê? Se eu jogar num balaio escrito
"Brazilian Music", colocar pra vender a 1,99 em Paris? Qual é o problema?
Aguardo Respostas.

Marcelo Neder
Cavaquinhista OMB/BA 10.180/05
Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Oi Aline,
é possível que o grupo sitado não seja realmente um grupo de Axé, eu sitei

um exemplo de o que se faz de ruim na Bahia, e na minha opinião o "gênero"
axé não fica muito atrás, volto a perguntar o que a Timbalada, Olodum,
Daniela Mercury (enquanto axé), Ivete (agora tb sertaneja) contribuem para
a
melhoria da nossa discografia (enquanto divulgadores de cultura)?.... Eles
se preocupam apenas em fazer um ritmo gostoso, uma levada diferente e é só

..... Não acho que a Beth Carvalho vá acresentar nada de positivo ao
trabalho dela, se o resultado for mais uma batucada com dendê (só pra dar
um
tempero da moda ....). Não acho mesmo. O Samba carioca tem mais é que se
dar
ao valor, e manter suas raízes, sem timbales.

Caio Pontual.
__________________________________________________________________


Oi Caio!

Eu entendi exatamente ao que você quis se referir.
Mas ainda assim, continuo a pergunta: você CONHECE o axé?

Diga-se de passagem, que quando o "É o Tchan" surgiu, o axé já existia há
muitos anos, com o Olodum, o Timbalada, Daniela Mercury... Você pode até
não
gostar, mas nem na Bahia isso é considerado no mesmo patamar que essas
músicas de baixaria a que você se refere.

E como eu disse, a maioria dos baianos considera o "É o Tchan" como uma
banda de pagode, e não de axé. Pra isso, basta lembrar que o nome original

da banda, antes do sucesso estrondoso da música do "segura o tchan", era
"Gera Samba". E que a tal banda que cantava "na boquinha da garrafa" se
chamava "Cia. do Pagode".

Enfim, eu posso garantir a você que em todos os estilos musicais há
produtos
de qualidade.
(Que é muito diferente de gosto pessoal. Eu mesma DETESTO rock'n roll, mas
não posso deixar de assumir que um ou outro "barulhento" tem o seu
valor...)
:-)))

Se eles vão chegar na mídia, são outros 500.
Se vão chegar a nós sem que busquemos por eles... acho difícil.

Beijinhos
Aline



On 8/29/06, Caio Pontual wrote:
>
>
> Cara Aline,
> eu não me referí a música baiana, mas sim a exurrada de músicas que se
> convencionou chamar de axé-music. Considero a música baiana (a que tem
> conteúdo) como das melhores (vide Caymmi, Caetano, Gil, Raul, Elomar,
> Tomzé
> e tantos menos votados), esse grupo É o TChan foi sitado como um
exemplo,
> pois eles foram um dos pioneiros dessa leva, aí eu também poderia
incluir
> os
> pagodeiros/sertanejos da nova era. Não excluo tb os bregas do Pará que
> estão
> divulgando o que há de pior nesse gênero, há quem goste, mas o que me
> causa
> maior preocupação é quanto ao conteúdo dessas músicas (se é que podemos
> chamar isso tudo de música), temos aqui tb uma mina de vulgaridade e
> baixarias em letras e músicas, que são os ditos forros "modernos".
> E em tudo isso a minha crítica vem se somar àquelas que dizem da
ganância
> das gravadoras e mídia televisiva que só vai aonde se vende fácil, sem
> levar
> em conta a contribuição que esse "artistas" podem estar dando ao povão
> (tão
> cheios de vida de gado - vide Zé Ramalho).
>
> Bjs. Caio Pontual.
>
> PS. Gostaria que vc autoriza-se a divulgação dessa conversa para os
> demais.
>
> __________________________________________________________________
>
> Poxa, Caio.
>
> Sem querer entrar em detalhes, você realmente CONHECE música baiana ou
> só viu o que chegou a tocar no Domingão do Faustão?
>
> Acontece a mesma coisa com o samba. Quem CONHECE sabe o valor.
> Mas a maioria das pessoas acha que samba se resume a um campo nebuloso
> entre o próprio "É o Tchan" (que, na Bahia, não é considerado axé) e
> aqueles pagodes enlatados...
>
> Em todos os gêneros há produções interessantes.
> A questão é que a mídia TENDE a nivelar tudo por baixo...
> ...e de vez em quando, só de vez em quando mesmo, acerta.
> :-)
>
> Eu estou passando por uma experiência muito interessante, fazendo
> parte de um grupo onde só existem 2 pessoas do Rio e as outras todas
> vem das mais diversas cidades do Brasil. Todos interessantíssimos,
> fazem parte da elite cultural e intelectual do país. Estou aprendendo
> a apreciar maravilhas regionais que estavam longe do meu universo - e
> vice-versa.
>
> É muito interessante relativizar a visão cultural que existe em outros
> cantos do país...
> :-)
>
> Beijo!
> Aline
>


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