José Luis,
Convenhamos que é complicado fazer afirmações categóricas sobre a
origem de formas musicais. Sempre haverá controvérsias por falta de
documentação. O melhor exemplo é a origem do próprio fado. Tinhorão
causou arrepios nos portugueses quando apontou o Brasil como o seu
berço, apoiado em documentação histórica. E, como não há referências
mais remotas, prevalece essa interpretação, que vem sendo cada vez
mais aceita pelos portugueses estudiosos do fado.
O caso de Cabo Verde é único, e não me parece nada absurdo afirmar que
a música portuguesa esteve na base da morna e de outras formas
musicais caboverdianas. Fatos são fatos. Negar isso, movido por um
tardio sentimento anti-colonialista, é que me parece pouco sensato.
Estamos falando de fusão musical, processo espontâneo nascido no
cotidiano das populações. Lembre-se que as ilhas eram desabitadas. Os
portugueses levaram para lá toda a população negra, começando por
escravos de origem guineense. A população branca era majoritariamente
portuguesa, misturada com marinheiros de diversas origens,
principalmente genoveses. Da mesma forma que no Brasil e nas outras
colônias, os portugueses levaram a sua música e seus instrumentos,
como a viola, o cavaquinho e o bandolim. Os africanos levaram também
sua música e lá fizeram seus instrumentos. Do contato dessas duas
sensibilidades nasceram diversas formas musicais. O lundu é um bom
exemplo disso, misturando harmonias e melodias européias com os cantos
e ritmos africanos. Na dança, o lundu mistura o estalar dos dedos das
danças ibéricas com a umbigada típica das danças africanas. Consta que
o lundu preexistia, foi levado para Cabo Verde, lá tomando
características próprias.
Abs
Alan


Em 09/08/07, José Luis Vivas Frontana<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> Alan Romero wrote:
>
>
>
> >É natural e indiscutível que a música
> >portuguesa esteja na origem profunda da música feita nas ilhas, como
> >decorrência do próprio processo de colonização.
> >
> É discutível sim, e não tem nada de natural. Justamente uma das
> hipóteses mais verossímeis sobre a origen do fado é o lundum de Cabo
> Verde, levado pelos marinheiros. Não há nada na música portuguesa de
> origem camponesa que se pareça ao fado, que eu saiba.  O que o processo
> de colonização determinou é que tudo o que é original vem da metróple,
> as colônias só copiam. Não há nenhum a base para essa afirmação.
> Poderiamos também dizer que "é natural e indiscutível que a música
> caboverdiana esteja na origem profunda da música feita em Portugal".  É
> uma hipótese tão lógica como a oposta, e se  parece mais estranha é
> porque nossas mentes ainda estão muito colonizadas.
>
> JLV
>
>
> >Certamente aí tiveram
> >seu papel o lundu, a valsa e outras formas musicais ao gosto da época,
> >da mesma forma como ocorreu no Brasil colonial.
> >Por outro lado, como a música é um fenômeno em constante
> >transformação, é totalmente compreensível que a música brasileira
> >tenha dado seu contributo, de alguma forma influenciando a música que
> >já se fazia nas ilhas, principalmente a partir do advento do rádio e
> >sua popularização. Não sou eu que o afirmo, e sim os próprios
> >caboverdianos. Pode não estar documentado em livros, mas é a tradição
> >oral e a própria experiência da geração que faz música hoje. O
> >arquipélago está relativamente próximo da costa brasileira, e o oceano
> >propicia condições ideais para a propagação das ondas hertzianas. Isso
> >já era um fato nas primeiras décadas do século passado, aparelhos de
> >rádio comuns captam facilmente emissoras brasileiras. Cesária Évora
> >sempre fala da alegria que sentia ao ouvir cada novo disco da Ângela
> >Maria. Como foi discutido aqui anteriormente, a semelhança da morna
> >com as formas musicais brasileiras salta à vista (melhor dizendo: aos
> >ouvidos! hehe), de uma maneira que não ocorre com outras músicas. Para
> >quem tem ouvidos de ouvir, creio ser o melhor indicador dessa
> >influência.
> >Abs
> >Alan
> >
> >
> >Em 08/08/07, Joaquim Pinho<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> >
> >
> >>Permito-me "discordar",ou melhor,sugiro,aos interessados,a pesquisa de quem
> >>influenciou quem,embora predomine o princípio de vasos comunicantes:-
> >>-a seresta -séc XVIII,está um pouco na linha das modas e modinhas(Caldas
> >>Barbosa,etc...);o Fado (de Lisboa),como é hoje conhecido,vem do mesmo séc-o
> >>mais antigo conhecido é o Fado do Marinheiro + ou- 1850,ou seja após um
> >>século,e nada tem a vêr (?)com o  Fado (dança,tipo umbigada,com origem no
> >>Rio de Janeiro-qual a semelhança com o Fado de Quissamâ,ainda hoje
> >>conhecido?-O  1ºsamba-canção gravado ,é o Pelo Telefone-1917 pelo
> >>Bahiano!!!Que curiosamente no 1º ano de gravações no Brasil-1902 grava
> >>Fados,(em Portugal a 1ªgravação é em 1904)entre eles o mais famoso
> >>Fado-CANÇÂO DE COIMBRA-O Fado Hilário do ex-estudante de Coimbra Augusto
> >>Hilário (1864-1896),e ainda hoje cantado-a melhor gravação é do Dr.Luiz
> >>Goes.Para esse estudo vidé:Memória de um Sargento de Milícias (brasileiro)e
> >>Scenas da Foz e Boémias do Espírito,do Camilo Castelo Branco."O fado" de
> >>João do Rio. No século XIX é que se dá a entrada da Guitarra Portuguesa no
> >>Fado.Nota-a afinação e a maneira de tocar,da Guitarra,bem como a sua fórma e
> >>dimensões é diferente em Coimbra,aqui, um tom abaixo do Si Lá Mi Si Lá Ré.
> >>-a principal via de transmissão,não foi via rádio,ou via disco,mas sim
> >>transmissão oral pelos marinheiros que escalavam os pórtos do
> >>Mindelo(o+imp)e da Praia.,excepto a partir de meados do séc XX-julgo que
> >>estatísticamente predominavam os marinheiros de origem portuguesa (mesmo no
> >>Brasil e na navegação de costa predominavam e que originou um célebre artigo
> >>duma Constituição Brasileira que proibia a propriedade de Qualquer tipo de
> >>embarcações-quaisquer que fossem as dimensões-a não brasileiros e que
> >>originou a célebre revolta dos Poveiros! Pescadores da Póvoa de Varzim,que
> >>então eram numerosos no Rio de Janeiro.Quem mais divulgou em Portugal a
> >>música caboverdeana nos anos sessenta foi o BANA.
> >>-Julgo interessante o estudo de Baptista Siqueira ,da Escola de Música da
> >>Universidade Federal do Rio de Janeiro-LUNDUM x LUNDU -1970 e não é talvez
> >>por acaso que o livro que citei de homenagem ao mais célebre compositor
> >>Caboverdeano-B.LEZA ,cite Mórnas e Lundu...
> >>-a tradição de Serenatas,em Portugal,tem,ainda hoje,a sua maior expressão em
> >>Coimbra,quer pelos estudantes,quer pelos futricas,(os não estudantes da
> >>cidade de Coimbra)-- A Universidade,foi fundada em 1290 e até 1911,à
> >>excepção duma temporada em que existiu,também a Universidade de Évora, era
> >>onde estudavam pessoas oriundas de todos os territórios que foram
> >>portugueses-entre eles muitos Brasileiros.Considera-se que o Fado-CANÇÃO DE
> >>COIMBRA é o resultado da mistura das músicas que os estudantes traziam das
> >>suas terras,à preexistente na população.-é uma música em geral de
> >>exterior---No Fado de Lisboa não ha qualquer intervenção tipo Serenata-é
> >>mais das Tascas,dentro de portas.mais informações sobre a Canção de Coimbra
> >>in---www.guitarradecoimbra.blogspot.com---e no sítio da Universidade de
> >>Coimbra ---www.uc.pt---a Biblioteca Nacional de Lisboa tem muitas partituras
> >>disponíveis gratuitamente  ---www.bn.pt---
> >>J.PINHO
> >>
> >>---- Original Message -----
> >>From: "Alan Romero" <[EMAIL PROTECTED]>
> >>To: "Tribuna" <[email protected]>
> >>Sent: Wednesday, August 08, 2007 9:34 PM
> >>Subject: Re: [S-C] cabo verde - Brasil
> >>
> >>
> >>Gente,
> >>Pegando o bonde andando, quero dar o meu pitaco. Já estive em Cabo
> >>Verde e entrevistei muita gente por lá. De fato, em tudo parece um
> >>"pequeno Brasil", na mistura racial e na musicalidade do povo. Na
> >>verdade, o que aconteceu foi uma influência direta da música brasileira na
> >>música cabo-verdiana. Como o arquipélago é situado praticamente à
> >>altura do nordeste brasileiro, sempre foi costume por lá ouvir as nossas
> >>rádios
> >>possuidoras de sinal mais forte. Cesária Évora mesmo cita esse fato em
> >>entrevistas quando fala de sua paixão pela Ângela Maria. A morna
> >>moldou-se na mistura da nossa seresta e do samba-canção com o fado,
> >>utilizando no acompanhamento a formação típica do nosso regional de
> >>choro. Não é por acaso... Qualquer músico caboverdiano conhece Waldir
> >>Azevedo, Pixinguinha, Jacob do Bandolim e outros autores e intérpretes
> >>do choro. São ícones por lá. O melhor exemplo é o Bau, já citado aqui
> >>pela Sônia. Ele começou acompanhando a Cesária Évora e depois partiu
> >>para uma brilhante carreira solo. Tenho todos os seus discos e já o vi
> >>em concerto diversas vezes em Lisboa. Bau é um apaixonado pela música
> >>de Waldir Azevedo. Em todos os seus CDs ele gravou uma de suas
> >>músicas, como homenagem a seu mestre.
> >>
> >>Vi na cidade do Mindelo uma serenata autêntica, como nunca tinha visto
> >>no Brasil, e conhecia mais por relatos históricos. Estava numa casa de
> >>morna, onde depois de uma noite de cantoria, com os cantores
> >>rivalizando como num desafio (ou numa "desgarrada", como é costume nas
> >>casas de fado, em Portugal), o povo saiu pela porta cantando na
> >>madrugada e foram pelas ruas até chegar na casa do homenageado. Claro
> >>que a rua inteira acordou, e o show continuou pela noite adentro. Foi
> >>fantástico.
> >>
> >>A influência brasileira não é só na música, chegando nas artes
> >>plásticas e na literatura. Nesse quesito, o melhor exemplo é o
> >>movimento Claridade, iniciado nos anos 30 e que recebeu influência do
> >>realismo nordestino.
> >>
> >>Cabo Verde é um país admirável. Povo pacífico, que gosta de curtir a
> >>vida, comer bem, namorar, ir à praia, dançar e cantar. Apesar da
> >>aridez das ilhas, os caboverdianos tocam a sua vida com grande
> >>bravura. Voltei de lá impressionado com a civilidade e solidariedade
> >>do povo. Só como exemplo: ninguém joga lixo nas ruas que são tão
> >>impecavelmente limpas como as da Suíça! Apesar da pobreza que de fato
> >>existe, o povo vive altivamente, com muita dignidade. Quem puder ir lá
> >>visitar, não perca a oportunidade.
> >>Abs
> >>Alan
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