Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2088876-EI6621,00.html
Tereza Cristina, Cristina Buarque e Benedito César
Quarta, 21 de novembro de 2007, 07h59
Por: Paquito
Acabo de rever o Ensaio estrelado por Tereza Cristina & Grupo Semente, de 2002,
lançado agora em DVD pela Deckdisc. Na época em que foi exibido na Tv Cultura,
assim que assisti ao programa, liguei pra Faro, o diretor, e perguntei quem era
aquela cantora com o repertório, na minha opinião, semelhante ao de Cristina
Buarque. O Baixo me disse que ela era cult no Rio de Janeiro, que se
apresentava na Lapa etc.
Bem, hoje Tereza Cristina é mais conhecida e reconhecida como uma força do
samba e, por isso mesmo, é bom rever esta edição do Ensaio, na verdade uma
antologia de sambas das velhas guardas da Mangueira e da Portela, escola de
Tereza Cristina, que mostra, neste início de carreira, além de elegância,
conhecimento e intimidade com seus pares.
Tereza também canta sambas seus, uma música da autoria de sua mãe, fala do
bairro onde viveu, a Penha, e diz das influências: o pai cantava sambas e a mãe
ouvia e cantava Roberto Carlos, nosso romântico maior, o que prova, pra alguns
do meio do samba, que sambista não precisa ficar envolvido em redomas culturais
pra ser bom. Pelo contrário, é importante estar em contato com a vida em redor.
E com que carinho ela fala de Roberto!
A comparação com a outra Cristina, a Buarque, só tem a dizer em seu favor, pois
a irmã de Chico é uma sambista que não faz força pra ser, ela simplesmente "é",
e fica muito à vontade cantando, como se estivesse numa roda de samba em uma
casa qualquer de um bairro qualquer do Rio (onde foi criada), de São Paulo,
onde nasceu, ou até mesmo da Bahia, onde dizem que o samba nasceu.
Nascimentos à parte, a grande lição do canto de Cristina Buarque é este
estar-à-vontade, como no seu disco novo, gravado ao vivo, com o grupo Terreiro
Grande, e em outra edição do Ensaio, da década de 70, esta com Ismael Silva, no
qual ela canta com o mestre, ambos acompanhados por um violonista do Recôncavo
da Bahia, Codó, que nasceu em Salinas da Margarida, cidade citada por Gil na
música Ladeira da preguiça, e lugar onde passei muitas férias de verão, pois
ali nasceu meu pai.
Voltando aos nascimentos, penso na morte de meu pai, que amava
incondicionalmente sua terra, e na morte de Benedito César Faria, pai de
Paulinho da Viola, acontecida há um mês. Só fui entender a paixão de meu pai
por Salinas quando me dei conta da minha paixão, também incondicional, pela
canção popular. Quanto a seu César, ele também possuía o dom de estar-à-vontade
no samba, sem forçar a barra nem gritar "avante!" - aqui, cito mesmo Bethânia
que, num trecho do documentário Os Doces Bárbaros, curte deliciosamente com
esse negócio de sair por aí defendendo bandeiras, gritando "avante", feito
aquelas figuras de meninos de uniforme dos livros de Educação Moral e Cívica do
antigo ginásio.
Conheci Seu César, por acaso, num ônibus que ia pra Botafogo, quando estava no
Rio, após o lançamento do disco de Batatinha, que produzi com Jota Velloso, e
sobre o qual já falei aqui em Terra Magazine. Eu queria dar um disco a Paulinho
da Viola, que era homenageado no cd com Ministro do samba, música em que Batata
cita nominalmente Paulinho. Pois bem, me apresentei a seu César, que foi um
amor e me deu o seu endereço onde, dias depois, deixei dois cd's, um pra
Paulinho e outro pra ele mesmo. Parece algo prosaico de se contar, mas naquele
pouco contato que tive com seu César, nos shows em que o vi tocar, e também
Ensaio dedicado a ele, que foi exibido uma semana após seu falecimento, ficou a
impressão de um homem que vivia a música naturalmente, como parte do cotidiano,
sem estrelismos. E seu César acompanhou Jacó do Bandolim, além de ter gerado
Paulinho da Viola!
Assim a gente entende mais a origem daquele jeito de Paulinho, de nobreza sem
afetação. Nobrezas de seu César, das duas Cristinas, de Ismael Silva, de Codó,
e também de meu pai, que não era músico, mas cantava bem bonito a Canção do
marinheiro, aquela que diz "qual cisne branco que em noite de lua...", e à
memória de quem dedico este artigo, quase uma croniquinha, assim como um samba
assoviado no meio da rua.
Paquito é músico e produtor.
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