Eugênio, vou pegar um gancho no final do seu e-mail, porque acho que esse 
assunto vale a pena ser comentado.
   
  "O preço dos ingressos
condiz com a importância dos artistas e com o conforto atrelado ao
projeto. Não achei nada demais.
Paulinho da Viola esteve em BH e cobrou de 100 a 200. A Velha Guarda
da Mangueira esteve no Chevrolet Hall a 100 pilas. Acho justo."
   
   
  Quinta-Feira passada (10/01), estive num Hotel aqui de Salvador, para 
assistir a uma apresentação do Clube da Guitarra Baiana, promovido por Aroldo 
Macedo (irmão de Armandinho). Por sinal, muito bom, com toda a família Macedo 
(Armando, Aroldo, Betinho, André e cia...), vários músicos de Salvador, e 
alguns convidados ilustres como Pepeu Gomes.
   
  Pois bem. Qual não foi minha surpresa, ao sair do show e me deparar com 
ninguém mais, ninguém menos que Paulinho da Viola, sentado no saguão do Hotel, 
tomando um cafezinho. Paulinho fez um show na sexta-feira na Sala Principal do 
Teatro Castro Alves, com ingressos que chegavam a 120 reais nas primeiras filas 
e nao me lembro exatamente o preço dos mais baratos, mas acho que eram 60 ou 80 
(Como o Castro Alves, não tem ponto cego na platéia, em qualquer lugar que vc 
sente tem uma visão perfeita - só que mais longe, naturalmente).
   
  Diante de um encontro inesperado daquele (e por acaso, eu estava com meu 
inseparável cavaco na mão - ô sorte!). Me apresentei, e falei com ele. 
Paulinho, todo educado, me convidou pra sentar e ficamos, eu e ele batendo papo 
no saguão do hotel. O próprio Paulinho, citou achar caro o preço do ingresso, e 
disse que se sentia muito incomodado em saber que de repente, mil, duas mil 
pessoas, não teriam acesso ao show dele. Questionei a produtora (não a 
produtora dele, mas a contratante que estava sentada tomando café com ele), 
sobre o porque de não ter feito na Concha Acústica do TCA, em que a lotação é 
maior (6000 pessoas, contra 1600 da Sala Principal do TCA. Isso permitiria 
entradas mais baratas.
   
  Ela me veio com a seguinte resposta:
   
   - A concha não comporta o show de Paulinho, pois não é possível montar a 
cenografia, tem pouco espaço pra ganchos, etc... (explica-se: o show foi o do 
acústico, com toda a cenografia original do DVD, inclusive o próprio Elifas 
Andreato, tava aqui coordenando isso).
   
  Eu não quis falar nada, pra não ficar chato. Mas essa é uma mentira 
deslavada. A concha acústica ja´foi palco de inúmeras gravações de DVDs, muitos 
com cenografia cinematográfica. Cansei de ver operário pendurado com gancho de 
alpinista a 16 metros do chão montando cenário na concha (inclusive cenários 
muito mais complexos que o do DVD de Paulinho).
   
  Depois disso, quando Paulinho subiu para o quarto, ela se virou pra mim e 
disse a seguinte delicadeza:
   
   - Você é artista, e não dá valor a sua arte! Quem tem obrigação de fazer 
caridade é o governo e não eu. Você acha caro pagar esse preço pra assistir a 
um artista desse nível? A Bahia não tem analfabeto, 80% do público de shows é 
estudante! A bilheteria não cobre nem um oitavo do custo do show. 
   
  Respondi a essa candura de pessoa, que em primeiro lugar, ela não me conhecia 
e eu não conhecia ela, sendo assim seria melhor não falarmos um do outro, pois 
ela não era ninguém pra dizer o valor que eu dou ou não a arte.
  Argumentei também, que em um evento como esse, os contratos publicitários não 
são lá muito pequenos, e que sei muito bem que são eles que cobrem os custos do 
show (com uma boa margem de lucro, diga-se de passagem).
  Quando fui embora, ainda vi Paulinho novamente, que me disse que depois 
voltaria novamente em Salvador, dessa vez sim, com a turnê do show, e seria bem 
mais legal, pois seria algo mais acessível, em que ele mesmo se sentia mais a 
vontade.
   
  Ficou claro pra mim uma coisa: a necessidade de elitização de um artista 
popular, pra "justificar" um lucro exorbitante em cima de um parco público 
pagante com capacidade pra pagar a cobiça do contratante. Claro, é mais 
lucrativo, fechar um contrato publicitário para um evento na Sala Principal do 
Teatro Castro Alves, que na Concha Acústica.
   
  Para mim, esse é o retrato típico do mercado musical brasileiro 
  E o povo?
   
   
  Abs
   
   
  Marcelo Neder
   
   

       
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