Marcelo,
Na prática você tem toda a razão quando se refere ao tratamento
dispensado pela produtora à você. Paulinho, como é de praxe, é muito
mais importante do que e ela e - claro - muito mais amável e elegante.
Permito-me discordar de você em alguns pontos. O show do Paulinho é
arte, mas é - evidentemente - um produto. Como tal, dentro de uma
sociedade capitalista, atende às condições de oferta e procura. A
demanda por um show deste tipo em Salvador é muito grande, como é aqui
em BH. Os ingressos, mesmo não sendo vendidos a preços populares,
evaporaram-se em poucas horas no primeiro dia de vendas. Pela
Internet, aqueles que estavam disponíveis também sumiram, só que em
minutos, não em horas.
A música popular é um patrimônio popular, assim como o futebol.
Entretanto, um show do Paulinho em um teatro é para as 1.600 pessoas
que querem vê-lo aí em Salvador. Salvador tem mil vezes mais gente do
que isso. Na europa, são as classes abastadas que vão aos estádios. Os
"menos favorecidos" assitem futebol pela TV. Analogamente, compare com
o DVD. Quem pode, vai ao show, quem não pode compra o DVD (pirata ou
original, de acordo com sua condição financeira) ou assite pela MTV.
Abs,
Eugenio
Em 15/01/08, Marcelo Neder<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> Eugênio, vou pegar um gancho no final do seu e-mail, porque acho que esse
> assunto vale a pena ser comentado.
>
> "O preço dos ingressos
> condiz com a importância dos artistas e com o conforto atrelado ao
> projeto. Não achei nada demais.
> Paulinho da Viola esteve em BH e cobrou de 100 a 200. A Velha Guarda
> da Mangueira esteve no Chevrolet Hall a 100 pilas. Acho justo."
>
>
> Quinta-Feira passada (10/01), estive num Hotel aqui de Salvador, para
> assistir a uma apresentação do Clube da Guitarra Baiana, promovido por
> Aroldo Macedo (irmão de Armandinho). Por sinal, muito bom, com toda a
> família Macedo (Armando, Aroldo, Betinho, André e cia...), vários músicos de
> Salvador, e alguns convidados ilustres como Pepeu Gomes.
>
> Pois bem. Qual não foi minha surpresa, ao sair do show e me deparar com
> ninguém mais, ninguém menos que Paulinho da Viola, sentado no saguão do
> Hotel, tomando um cafezinho. Paulinho fez um show na sexta-feira na Sala
> Principal do Teatro Castro Alves, com ingressos que chegavam a 120 reais nas
> primeiras filas e nao me lembro exatamente o preço dos mais baratos, mas
> acho que eram 60 ou 80 (Como o Castro Alves, não tem ponto cego na platéia,
> em qualquer lugar que vc sente tem uma visão perfeita - só que mais longe,
> naturalmente).
>
> Diante de um encontro inesperado daquele (e por acaso, eu estava com meu
> inseparável cavaco na mão - ô sorte!). Me apresentei, e falei com ele.
> Paulinho, todo educado, me convidou pra sentar e ficamos, eu e ele batendo
> papo no saguão do hotel. O próprio Paulinho, citou achar caro o preço do
> ingresso, e disse que se sentia muito incomodado em saber que de repente,
> mil, duas mil pessoas, não teriam acesso ao show dele. Questionei a
> produtora (não a produtora dele, mas a contratante que estava sentada
> tomando café com ele), sobre o porque de não ter feito na Concha Acústica do
> TCA, em que a lotação é maior (6000 pessoas, contra 1600 da Sala Principal
> do TCA. Isso permitiria entradas mais baratas.
>
> Ela me veio com a seguinte resposta:
>
> - A concha não comporta o show de Paulinho, pois não é possível montar a
> cenografia, tem pouco espaço pra ganchos, etc... (explica-se: o show foi o
> do acústico, com toda a cenografia original do DVD, inclusive o próprio
> Elifas Andreato, tava aqui coordenando isso).
>
> Eu não quis falar nada, pra não ficar chato. Mas essa é uma mentira
> deslavada. A concha acústica ja´foi palco de inúmeras gravações de DVDs,
> muitos com cenografia cinematográfica. Cansei de ver operário pendurado com
> gancho de alpinista a 16 metros do chão montando cenário na concha
> (inclusive cenários muito mais complexos que o do DVD de Paulinho).
>
> Depois disso, quando Paulinho subiu para o quarto, ela se virou pra mim e
> disse a seguinte delicadeza:
>
> - Você é artista, e não dá valor a sua arte! Quem tem obrigação de fazer
> caridade é o governo e não eu. Você acha caro pagar esse preço pra assistir
> a um artista desse nível? A Bahia não tem analfabeto, 80% do público de
> shows é estudante! A bilheteria não cobre nem um oitavo do custo do show.
>
> Respondi a essa candura de pessoa, que em primeiro lugar, ela não me
> conhecia e eu não conhecia ela, sendo assim seria melhor não falarmos um do
> outro, pois ela não era ninguém pra dizer o valor que eu dou ou não a arte.
> Argumentei também, que em um evento como esse, os contratos publicitários
> não são lá muito pequenos, e que sei muito bem que são eles que cobrem os
> custos do show (com uma boa margem de lucro, diga-se de passagem).
> Quando fui embora, ainda vi Paulinho novamente, que me disse que depois
> voltaria novamente em Salvador, dessa vez sim, com a turnê do show, e seria
> bem mais legal, pois seria algo mais acessível, em que ele mesmo se sentia
> mais a vontade.
>
> Ficou claro pra mim uma coisa: a necessidade de elitização de um artista
> popular, pra "justificar" um lucro exorbitante em cima de um parco público
> pagante com capacidade pra pagar a cobiça do contratante. Claro, é mais
> lucrativo, fechar um contrato publicitário para um evento na Sala Principal
> do Teatro Castro Alves, que na Concha Acústica.
>
> Para mim, esse é o retrato típico do mercado musical brasileiro
> E o povo?
>
>
> Abs
>
>
> Marcelo Neder
>
>
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