Tem branco no samba - teoria européia
Mário de Andrade garante que o termo vem de um tipo de dança
encontrada na Espanha do século XVI, a zamba (lê-se samba), e que os
mestiços de índio e negro, eram chamados de zambo e zamba.
Mas crê-se que essa palabra usada para designar mestiços no Perú vem do
latim STRAMBUS ou STRABUS, vesgo, já que era comum entre os mestiços as
pernas "vesgas", joelhos juntos e pernas separadas. Não teria nada a ver
com ZAMRA, a festa dos mouriscos. Por outro lado parece razoável,
históricamente, que ZAMA em zamacueca venha de ZAMRA, o que não quer
dizer que samba, como na expressão samba malató de uma conhecida canção
peruana, venha também de ZAMRA, aí parece mais provável a procedência da
SEMBA angolana. Duvido que isso possa ser esclarecido algum dia.
Nicomedes Santa Cruz é homem. Aqui ele aparece numa foto com Pelé, sei
lá o que eles tinham pra falar:
http://es.geocities.com/coquin1112/nicomedes/biografia_nicomedes.htm
JLV
Na Andaluzia, utiliza-se a palavra zamra (lê-se samra) para definir um
baile descrito como um ambiente festivo com bebidas, canto e dança
cuja origem remonta a épocas pagãs. Outra possibilidade é que a
palavra tenha derivado de zambra (sambra), que nomeia em castelhano
antigo, segundo Susana Navalón, uma festa mourisca com música e
algazarra - pensamento reforçado por Pedro Allende, chileno que afirma
que a procedência do termo seja hispano-árabe: "estou convencido que
nossa cueca ou zamba cueca tem sua origem na festa mourisca denominada
zambra que se celebra ao ar livre". E vai além: "o uso de bater palmas
dos espectadores que rodeiam os dançarinos, se pratica tanto entre os
mouros como entre os andaluzes".
Outra citação sobre o tema conta que, no início do século XIX,
originou-se ao som do violão o baile popular que depois ficaria
conhecido no Peru como zamba antigo e que após assimilar ritmos
africanos se transformaria em zamacueca, descendente direto da cultura
espanhola e raiz de várias danças na América do Sul. No dicionário,
lemos que zamba é baile popular, sinônimo de zamacueca, que, difundido
em 1810, chega a nossos dias.
Na Argentina, temos a zamba folclórica, que, assim como a sambacueca,
é dançada em duplas com muitos sapateados.
Para coroar esse time de pesquisadores, vale a pena citar o comentário
de Sérgio Buarque de Holanda que fala das influências de mouros e
judeus, ambas reprimidas pelo poder monárquico e católico da época mas
que teriam nos deixado marcas profundas, como é o caso da zambra*6.
Vermelhô - teoria ameríndia
No desfile de 1942, a Portela sagrou-se bicampeã cantando o samba de
Alvaiade no qual a origem indígena do samba foi proclamada com todas
as letras na Praça Onze*4. Há muitos estudiosos como Fábio Gomes que
concordam com essa idéia, e daí surge uma nova série de teses:
a.. entre os tupi-guarani, por exemplo, "cadeia feita de mãos dadas"
é samba - que também quer dizer, segundo Batista Caetano, ''dança de
roda'';
b.. na tese defendida por Teodoro Sampaio, o nome teria vindo de çama
ou çamba, que quer dizer "dança da corda";
c.. dos índios Fulniôs, que têm em suas tradições mais antigas o
''samba de côco'' ;
d.. dos Xocós, que são exímios sambistas;
e.. etimologia da palavra tupi sambaqui - depósitos de conchas,
ostras ou mexilhões.
O maestro Batista Siqueira, no livro Origem do Termo Samba, afirma que
vem de sambá e representa o ato de trocar. Referências do século XVII
trazidas por ele indicam os Tapuias como responsáveis pelo
aparecimento do vocábulo que significa o local onde o povo se reunia
para festejar algum evento social: "inicialmente samba era [...] um
divertimento popular de grandes variedades nas ocorrências sociais. A
tradição define samba desse modo: lugar onde come-se, bebe-se e
dança-se". O maestro entrou pelo nosso sertão no início do século XIX
e colheu do folclore local dezenas de músicas, que foram apresentadas
a ele como sambas.
Há também a tese, muito bem fundamentada, do estudioso pernambucano
Bernardo Alves. Em seu livro A Pré-História do Samba, ele explica que
o termo nasceu da arte e da cultura indígenas: os Curumbas, do
interior do Nordeste, e os Amocreves, que viviam próximo à Goiânia,
seriam os responsáveis por levar aos negros e brancos, em suas
incursões de troca e comércio, o samba, dança tradicional indígena.
O livro - impresso em Lisboa em 1699 - Arte de Gramática da Língua
Brasílica da Naçam Kiriri*11 traz texto do padre Luiz Mamiani em que a
palavra samba é apresentada como sinônimo de cágado - um parente da
tartaruga e que se chamava de sambahó a festa em que os Cariris bebiam
o suco fermentado da quixaba e comiam o cágado enquanto dançavam e
cantavam músicas sobre aves e valentias ao som de viola, pandeiro,
flauta, tamboril e maracá. Um dos documentos interessantes
apresentados por Alves refere-se a uma pessoa que cantava e tocava o
samba em 1837 no Recife.
Para completar essa linha de foco indígena, lembramos de Euclides da
Cunha, que viu e ouviu samba nos sertões nordestinos*3 antes da virada
para o séc XX.
Do Fim do Mundo - possibilidades mais remotas
Registro a existência do povo Sambas, que habita o oeste da ilha de
Bornéo na Indonésia e ainda a existência da ilha Sambae no arquipélago
de Sonda, na Oceania.
A festa e a mistura
O escritor cearense Manuel de Oliveira Paiva, em 1891, escreve o
romance D. Guidinha do Poço, no qual um afamado violeiro, vendo o
salão encher-se de dançarinos*7, comenta com outro personagem: "Essa
fonção de samba só mesmo pa quem qué se metê na vadiação (...)". A
nossa literatura, desde a fase colonial, quase sempre registra a
palavra samba com significado de uma forma de dança em povoados,
vilas, terreiros de fazendas ou como manifestações de caráter
folclórico em festas típicas , tradicionais ou, até mesmo, como canto
de trabalho.
Riquezas, a mistura e a diversidade. Traço forte e indiscutível do
brasileiro. Cabe, antes de seguir, reforçar que as formas de samba
(música e dança) feitas no Brasil são brasileiras.
Muitas vezes ouvi meu avô cearense, descendente de portugueses e
holandeses, chamar: "vamos pro samba?". Era um convite para ir a um
bar, um forró ou festas de todo tipo. O músico Caio Pontual reforça a
idéia do samba com sentido de festejo contando que, em Pernambuco, na
região da zona da mata, existe a expressão "sambar maracatu". Essa
atitude especialmente comum no nordeste é muito anterior ao século XX
e perdura até hoje.
É comum a um grande número de pesquisadores a idéia de que samba já
foi sinônimo de local de festa e que só recentemente passou a
denominar um ritmo - ou vários, já que na denominação samba cabem
variações tão diferentes entre si como o samba canção, enredo, rock,
reggae, o samba-lenço, o samba-rural, samba-batido, jazz, sambalanço,
rumba, sambolero, chorinho, pagode e o partido alto. O músico Gilberto
Gil reitera essa linha*8 em texto divulgado em sua página.
Denominar um ritmo pelo nome do local de festa onde ele ocorre é muito
mais comum do que se pode pensar: aconteceu também com o forró, a
kizomba, o zouk, a milonga e o pagode*2. O ideal de identidade
nacional, pregado no início do séc. XX por defensores da cultura
mestiça como Gilberto Freire e a necessidade de integração da pátria
no Estado Novo, certamente ajudou na difusão do samba carioca, mas
vale ressaltar que, muito antes disso, com limitados meios de
comunicação, a palavra era usada por toda América Latina há mais de um
século. Isso se deve, provavelmente, ao fato de diversos povos pelo
mundo, desde tempos remotos, possuírem expressões parecidas para local
de diversão ou coisas ligadas à dança.
Sambas do Brasil - patrimônio da multifacetada cultura brasileira
Após expor tantas possibilidades da origem da palavra samba e estando
todos nós cientes das inúmeras manifestações com esse mesmo nome,
penso ser fácil sugerir que ninguém deva pensar no samba como se fosse
um e muito menos que todos os "sambas" sejam tratados como privilégio
exclusivo de uma cultura ou raça e ainda que tomemos o devido cuidado,
definindo muito bem sobre qual das manifestações referimo-nos ao falar
ou escrever para aumentar as chances de se chegar a conclusões razoáveis.
Luís Florião - professor de danças de par brasileiras
--------------------------------------------------------------------------------
Música e Dança Popular - Sua influência na arte erudita - Bruno Kiefer
Feitiço Decente - Carlos Sandroni;
O Mistério do Samba - Hermano Vianna;
Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro - Roberto Moura;
História do Brasil Colonial - Luiz Roberto Lopez;
Um Rei da Valsa - Onestaldo de Pennaforte;
A Pré-História do Samba - Bernardo Alves;
Pequena História da música popular - da modinha ao tropicalismo - José
Ramos Tinhorão;
Renato Vivacqua - Música Popular Brasileira: histórias de sua gente;
Origem do Termo Samba - Batista Siqueira;
N a R o d a d o S a m b a - Francisco Guimarães (Vagalume);
São Ismael do Estácio - O sambista que foi rei. Maria Teresa Mello
Soares RJ, Funarte, 1985, p. 88
Dicionário Musical Brasileiro. Mário de Andrade São Paulo, Edusp,
1989, p.454
Teodoro Sampaio (Tupi na Geografia Nacional)
O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical - Lopes, Nei. Rio de
Janeiro: Pallas, 1992.
Samba de Gafieira - Marco Perna;
Vem Dançar Comigo - Carlinhos de Jesus;
Biografia da Antonietta - Teresa Drumond;
O Choro. Reminiscência dos chorões antigos - Alexandre G. Pinto
Teodoro Sampaio (Tupi na Geografia Nacional)
Documentário: Maxixe a dança perdida;
Teses e textos
O Samba Indígena - Fabio Gomes
O Brasil dá samba? - Adalberto Paranhos
Pequena História do Samba - Nancy Alves;
O Forró - Gilberto Gil
Monografia Samba - Vanessa Vilaça Dupin
Samba: Origens, Transformações E Indústria Cultural (1916-1940) -
Giovana Papini
http://www.brasileirinho.mus.br/pre-historia-samba/pre-historia-samba.htm
http://www.geocities.com/Athens/Aegean/6687/marinera.htm
http://www.latincombo.hu/Zaszlok/espanol_bailes.html
http://www.todotango.com/Spanish/biblioteca/lexicon/z.html
http://www.flamencos.com/tarsis/revista.php?id=8
http://www.esflamenco.com/palos/eszambra.html
http://napoles.cervantes.es/biblioteca/novedades/04abr.htm
História do Samba - Editora Globo;
Aonde o samba nasceu - Por João José da Silva (Cordel)
As raízes de Sérgio Buarque - Centenário do historiador tira do limbo
sua dissertação de mestrado - Fabrício Marques
Sambaquis do samba, na penha - Alberto Taveira
--------------------------------------------------------------------------------
*1. A África do norte ou África branca é marcada pelo predomínio da
população árabe que chegou ao norte do continente durante o processo
de expansão do islamismo, com o objetivo de difundir a fé muçulmana.
*2. Para ilustrar, cito uma referência de um jornal de Taubaté de 1870
que dizia o seguinte: "Ficam pagodeando, atrapalhando o sono das
famílias de bem, torna-se necessário que as autoridades tomem
providências".
*3. como nos conta Fabio Gomes que apresenta a citação
interessantíssima de Os Sertões - "O falecimento de uma criança é um
dia de festa. Ressoam as violas na cabana dos pobres pais, jubilosos
entre as lágrimas; referve o samba turbulento; vibram nos ares,
fortes, as coplas dos desafios, enquanto, a uma banda, entre duas
velas de carnaúba, coroado de flores, o anjinho exposto espelha, no
último sorriso paralisado, a felicidade suprema da volta para os céus,
para a felicidade eterna - que é a preocupação dominadora daquelas
almas ingênuas e primitivas" e em outra passagem do mesmo livro "E por
que não? Pois se havia tribuzana velha!... Haverá de levar pancada,
como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o
samba desautorizando as praças?!"
*4. "A Vida do Samba": "Samba foi uma festa dos índios/ Nós o
aperfeiçoamos mais/ É uma realidade/ Quando ele desce do morro/ Para
viver na cidade. // Samba, tu és muito conhecido/ No mundo inteiro/
Samba, orgulho dos brasileiros/ Foste ao estrangeiro/ E alcançaste
grande sucesso/ Muito nos orgulha o teu progresso.".
*5. De acordo com o historiador Mário de Andrade, a palavra "samba"
viveu um verdadeiro período de "ostracismo" no início do século XX,
conhecendo variantes coreográficas cultivadas por "brancos rurais" (o
coco), para depois ser ressuscitada com vigor pelos fãs do maxixe
(precursor do samba em casais).
*6. "Em maior número, atravessaram o oceano, trazidas pelos primeiros
colonos, e, implantando-se entre nós, deixaram aqui reminiscências que
ainda perduram, como é o caso da zambra, que alcançou a América
espanhola e o Brasil, tornando-se talvez o remoto antepassado de nosso
atual samba. Este, conquanto não falte ainda hoje quem se esforce por
discernir-lhe a origem - origem de nome, quanto menos -, ou naquele
radical bantu, há muitas probabilidades de que, no nome, tanto quanto
em algumas características coreográficas, tais como se manifestam em
meios rurais paulistas ou em diversos lugares da América Espanhola,
provenha, não de Angola ou do Congo, mas antes da chamada África
branca*1".
*7. "Neste fordunço, a cantoria se perde quase toda! - fez-lhe ver o
Silveira. Eu não gostei nunca de cantá im samba pro mó disso mesmo. No
pinho, outro galo me cantava, eu decidia cá a meu gosto. Mas também, a
bem dizê, só aprecio hoje im dia baião de ponta de unha, bem explicado
na regra, como eu cá sei. Home! "Essa fonção de samba só mesmo pa
quem qué se metê na vadiação (...)"
*8. "Ainda me recordo da surpresa de que fui tomado quando, ao
percorrer extensa região nordestina de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e
Ceará em 1972, ao voltar do exílio na Inglaterra, encontrei a
expressão samba a designar, justamente, os arrasta-pés e os bailes
locais. Ali, não o samba - tal como conhecido na Bahia e no Rio - mas
o baião, o xote e o xaxado eram as principais manifestações musicais.
Mesmo constituído por outro tipo de música, o baile nordestino,
principalmente mais para os lugares do interior, era até então
comumente chamado de samba." Gilberto Gil.
*10. Uma das muitas definições do samba vem de um conhecido sambista
do Rio de Janeiro, João da Baiana que viveu de 1887 à 1974: (*1)
"Antes de falá samba, a gente falava chula. Chula era qualquer verso
cantado. Por exemplo: Os versos que os palhaço cantava era chula de
palhaço.(...) Agora, tinha a chula raiada, que era o samba do partido
alto. Podia chamá chula raiada ou samba raiado. Era a mesma coisa.
Tudo era samba de partido-alto. E tinha samba corrido".
*11. Na imprensa brasileira, o gênero samba foi citado pela primeira
vez pelo padre Lopes Gama no jornal O Carapuceiro, de Recife, em 22 de
novembro de 1837.
Um antiga referência encontrada sobre a palavra samba está em uma das
edições do ano de 1838 de O Carapuceiro, onde o padre Gama se refere a
"samba d'almocreves", classificando o estilo musical como coisa
própria da periferia, do meio rural (almocreve era o serviçal que se
ocupava em cuidar de mulas e burros).
*12 - Como por exemplo o que nos conta o pesquisador zairense Kazadi
Wa Mukuna: pouca coisa na música brasileira tem origem banta. Afirma
ainda que os ''Conceitos foram alimentados com informações falsas,
reivindicando a posse de certas expressões culturais brasileiras cujas
raízes não podem remontar à África.''
*13 - Nei Lopes concorda, mas acredita que o termo signifique não
umbigada, mas rejeitar ou separar.
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta